quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Filhos da madrugada

O estatuto, por si, não confere categoria ou envergadura. Engana-se [sempre] quem, de filhos da madrugada, espera que naveguem senão de vaga em vaga.


Quando o alicerce de uma família não é fundado
com rectidão, o destino será desgraçado para a descendência.

Ainda que tenha um espírito arrojado, o homem é escravo
quando tem consciência dos vis actos da mãe e do pai.

Eurípedes in Hércules Furioso e Hipólito

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Sobejam os lobos, e percebo os uivos das alcateias *

Os dias que fruímos, ao espelho. De um sonho acorda-se apenas uma vez e eu realizo que a horda nem isso aprendeu.


Os fascistas do futuro serão chamados anti-fascistas

Winston Churchill

Uma época interpreta falsamente a outra e uma época mesquinha interpreta erradamente todas as outras à sua própria e sórdida maneira.
L. Wittgenstein

"A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência"/Junho de 1975
Miguel Torga

"A revolução acabou, naquele país só há ódio"/Julho 1974

o país não está dividido (…) divididos estão os que pretendem assumir o poder ou manobrá-lo, os que querem impor quanto antes as suas visões partidaristas à realidade nacional ”/Março de 1975

“(…) Revolução, que eu já chamei dos Cravos e dos Cravas,(…)”/Março de 1978
Jorge de Sena 

somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente. Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades, que têm tomado às costas o fardo da nossa história. Nós não temos sequer núcleos de grandes homens. Temos só, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma à sua conta os destinos do país. A canalhada cobre-os de insultos e de escárnio, como é da sua condição de canalha. Mas depois de mortos, põe-os ao peito por jactância ou simplesmente ignora que tenham existido. Nós não somos um país de vocações comuns, de consciência comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empréstimo dos grandes homens para a ocasião. Os nossos populistas é que dizem que não. Mas foi. A independência foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda não existia. Aljubarrota foi Nuno Álvares. Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o negócio era bom. O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos só Pombal. O liberalismo foi Mouzinho e a França. A reacção foi Salazar. O comunismo é o Cunhal. Quanto à sarrabulhada é que é uma data deles. Entre os originais e a colectividade há o vazio. O segredo da nossa História está em que o povo não existe. Mas existindo os outros por ele, a História vai-se fazendo mais ou menos a horas. Mas quando ele existe pelos outros, é o caos e o sarrabulho.
Vergílio Ferreira

Um rosario de pérolas. Para porcos, desgraçadamente.

* Aquilino Ribeiro

sábado, 12 de Abril de 2014

Uivar à lua


A nótula, de relance, sugere opugnação. De facto, não é nem podia ser.
Se o “fundo” são os peristilos aonde habitualmente vagueia a pravidade e ainda restringe o domínio às redes sociais, à sentina que actualmente é reconhecida como um colossal Hyde Park onde cada qual, caso o deseje. pode subir ao púlpito para botar seu speeche, está errado.

J.Rentes de Carvalho é um incorrigível optimista.

E as pútridas e ininterruptas escorrências em papel impresso ou debitadas em estúdios de televisão ou de rádio, e que fazem de grande parte deles fétidos tugúrios, o que são? ladram, uivam, grunhem, roncam, silvam porquê? ou melhor, para quem? mantenho que, pelo menos, será para quem seja fluente nesses dialectos.
O que não se deve pretender é, sem tomar as convenientes providências, entrar na esterqueira e por lá perambular sem assanhar as pituitárias.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

1994

Todas as ideias falsas terminam em banho de sangue, mas é sempre o sangue   dos outros. Por isso é que alguns dos nossos filósofos se sentemà vontade para dizer seja o que for
 Camus

«Os responsáveis pelo genocídio no Ruanda não são camponeses pobres e ignorantes; são pessoas instruídas. São os professores, os políticos e os jornalistas que se expatriaram para a Europa para estudarem a Revolução Francesa e as ciências humanas. Os que viajaram, os que são convidados para colóquios e convidaram brancos para jantares nas suas mansões. Os intelectuais que compraram bibliotecas que chegam ao tecto. Não mataram com as suas próprias mãos, mas mandaram outros fazer o trabalho nas colinas»

quinta-feira, 27 de Março de 2014

A leiloeira


A República foi entregue a uma leiloeira ou melhor, transformaram a república numa leiloeira.
A questão é de preço. Tudo se reduz à dilucidação, primeiro, e à homologação, depois, entre quem está ou não em condições de satisfazer o lance mínimo.
Daí em diante tudo decorre de acordo com as regras d(ess)a modalidade de negociação.
Tudo é bem transaccionável e o património não transaccionável, o intangível -- moral, ética, justiça, licitude, legalidade, igualdade,… -- não é pr’aqui chamado.
O privilégio de aceder à licitação não é para quem quer e menos é para quem deseje; é para quem pode.
A “política”, o core business da leiloeira é o tangível, evidentemente. O restante, o património intangível fica à porta.
Portas adentro a "política" é igual a poder e poder significa a capacidade que alguém tem de determinar as suas acções ou a capacidade de fazer com que os outros, mediante manipulação, coacção ou comissão, façam o que tem de ser feito – negócios.
Daí o reservado direito à admissão.

quarta-feira, 26 de Março de 2014

Óbulo para um elucidário



O que para mim faz parte de uma propedêutica [da desgraça], um incessante prelúdio, para outros será informação e não mais do que isso e para outros tantos, quiçá, o propileu do mundo novo,… a conformação do propiciatório.
Chamem-lhe pois o que quiserem e bom desjejum.
 
1 - Ouvi a jornalista ler, voz colocada e mais aquela compenetração de quem profere a coisa mais  impressiva, que «uma enorme minoria (…)». Impressiva, foi
«Aquela, enorme, e as outras, menores ou assim-assim, farão o todo» [eu, a raciocinar]; «´tá certo!» [eu, a concluir]
… apesar de uma pequena, mas persistente, dúvida
-- É assim para nos facilitarem a compreensão ou é assim por serem, certificadamente, embotados? tanto mais que 2 - acabo de saber [TSF] que «o avião malaio caíu onde caíu porque foi nessa direcção que voou».
 
A tarouquice dá dinheiro? rende?!

sábado, 22 de Março de 2014

Sal na ferida


«[…]
Este livro foi escrito há décadas.
O texto está exactamente como saiu em 1975 na Holanda. Nunca foi editado em Portugal.
Porquê?
Ninguém o queria. Diziam que não era oportuno o ponto de vista social, político e histórico. Entretanto a situação mudou. O sonho desapareceu, já não há razão para sonhar. (…) aceita-se uma visão mais sombria do 25 de Abril.
Era muito curioso?
Sim, era, sou-o ainda, muito particularmente no que respeita à evolução da sociedade portuguesa, que continua a ser para mim motivo de espanto. Parece existir nela uma componente de fatalismo e desleixo, de desinteresse, contrária à atitude normal de desenvolvimento e melhoramento. É um pouco como se o país sofresse da doença de Pfeiffer e se deixasse abater pelo cansaço.
Viajamos dos Descobrimentos para a Primeira República, da ruralidade até África e, finalmente, à Revolução dos Cravos. Uma oportunidade para rever a história de Portugal?
A visão da história ensinada nas escolas continua a ser a visão cosmética, sem rugas nem defeitos, com os bons dum lado e os maus do outro. O cidadão adulto e consciente, interessado pelo país em que nasceu, beneficia quando se põe a par de diferentes versões dos acontecimentos. Não serão necessariamente as melhores, mas ajudam a alargar o campo de visão. Em geral, as pessoas têm aquela história que aprenderam na escola, um bocadinho romantizada, com heróis, milagres, uma noção romântica do que a história foi.
Qual acha que vai ser a reacção dos portugueses a esta história?
As pessoas até aos 40, 50 anos vão ficar tristes ou assustadas com a revelação. Depois, os mais velhos, dos 60 anos para cima, vão-se dividir em duas categoria: aqueles que, contra toda a evidência, continuarão a acreditar que houve uma revolução muito bem feita e muito feliz, e os outros, que se vão dar conta de que nem tudo o que reluz é ouro.
Sair de Portugal sempre foi uma vontade?
Por volta dos 15 anos já tinha uma ideia fixa de ir embora.
Não lhe custou?
Não. Da primeira vez estive 14 anos sem voltar a Portugal. Quando voltei, por um mês, só tive uma vontade: a de ir embora outra vez. Isto em 1974.
Hoje não tem vontade de ficar?
Não. Consigo viver períodos de três meses em Portugal, mas não mais.
[…]»