terça-feira, 15 de agosto de 2017

Indisfarçáveis incómodos

A espaços, o que parece ser um recrudescer de dissensão, ressentimento, rancor, … ou em circunstâncias opostas, enlevo, dádiva, comunhão, … na realidade não passa de um erro de percepção/paralaxe [explicável por outras ‘coisas’ que, dada a sua multiplicidade e a tratar-se de um exercício de ‘filigrana’, prescindo de expor].
Não há mais das ‘primeiras’ nem menos das ‘segundas’. Passou-se da ‘inexistência’ à ofuscação num ápice; houve um colossal aumento da ‘visibilidade’ de uma torrente opiniosa que outrora não existia porque não obtinha forma de dar conta de si – era anónima, passiva e invisível. Presentemente sem apelo nem agravo, sem pudicícia, sem penhores, …fazem passar o que seja de sua ou ‘lavra’ alheia. Esse acréscimo [exponencial] de exposição gerou, isso sim, forte(s) incómodos(s) ― em concreto
1) no ‘meio jornalístico’ e da ‘opinião referencial’ [que, a mim, parecem cada vez menos referenciais com excepção dos trabalhos de ‘investigação jornalística’ propriamente ditos] e mais pelo confronto com a irrelevância que supunham não possuir do que pelos efeitos nefastos [comerciais] que disso lhes possam advir, e 2) no seio dos [difusos] estratos e comunidades socio-politicamente mais envolvidas que vulgarmente, e sem acaso, são ‘alinhados’ com os ‘catecismos’ e as múltiplas agendas da [cretinamente] designada «esquerda» [neste particular é necessário atender à intersecção ou justaposição entre esses dois ‘corpos’]. Resumindo de forma ‘curta e grossa’: a ‘esquerdalha’ nas suas variadas formas e cambiantes perdeu o monopólio assim como os benefícios inerentes ao estatuto.

Em termos absolutos detalhe importante é o concernente às ‘qualidade(s); já, em termos relativos, é despiciendo conquanto consideremos que mais grunhice menos atrevimento, mais idiotia menos fundamentação, mais capacitação menos instrução, mais prolixidade menos ortografia, … o que seja para a ‘direita’, ‘centro’ ou ‘esquerda’ é com os ‘alinhavos’ com que observam, raciocinam, ajuízam e verberam ou aplaudem que optam e decidem o voto. E assim, em ‘princípio’, de forma rudimentar mas inapelável, umas centenas de milhar de asnos e azémolas detêm o poder de deliberar as trilhas a seguir. O que, convenhamos [sem cinismo], não é bom nem mau; é o que é. E bem feito!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Os foguetes do Quim



O déspotazito Kim anda fascinado com os foguetes; o ogrezinho (norte-)coreano ameaçou atacar os EUA em meados de Agosto.
O ‘berreiro’ foi muito mas não houve quem se atrevesse a mandar o primeiro ‘sopapo’. Do ‘palavreado’ que irrompeu, causado pelos ‘picos’ de testosterona daquele grotesco plantígrado designadamente o da ‘lavra’ de gente que cá, pela paróquia, é nomeada «especializada» pouco ou nada se aproveita.
 
Não há quaisquer dúvidas que a estupidez rende. De que vive o vendedor de banha-da-cobra, afinal? Quem possua cinco microgramas de ‘massa cinzenta’ não os atura – trata de ir às fontes da especialização renunciando-lhes, obviamente, os serviços de diagnose e/ou hermenêutica.

Do que não restam dúvidas é que duas (imediatas) consequências, houve (cada qual mais benéfica do que a outra): por um lado, os mercados financeiros levaram com um balde de água gelada para não sobreaquecerem e, por outro lado, a indústria dos armamentos estará exultante. Moços, da fundamentação dessa exultação há um texto [teatro] de George Bernard Shaw ― irrecomendável, aliás ― apropriado.
Tolinhos! Do Homem e sobre os homens pouco haverá, ou não haverá, que não esteja escrito. E, infelizmente, a maioria das ‘reciclagens’/adaptações/actualizações/… são de pior qualidade e, portanto, de menor assertividade. Nunca repararam que quem sabe ou pode, diz nada? E se chega a dizer, fá-lo sempre com as cerces palavras do inevitável?

Lady BritomartNão há questão moral no assunto, Adolphus. Deves simplesmente vender canhões e armas às pessoas cujas causas forem correctas e justas, e recusá-las aos estrangeiros e aos criminosos.
Andrew UndershaftNão, nada disso. É preciso manter a verdadeira fé de armeiro […] ceder armas a todos os homens honestos que ofereçam um preço justo por elas, sem atender a pessoas ou princípios: a aristocratas e republicanos, a niilistas, a capitalistas e socialistas, a protestantes e católicos, a polícias e ladrões, a pretos, brancos e amarelos, a todos os tipos e de todas as condições, de todas as nacionalidades, credos, fés, de todas as estupidezes, de todas as causas e crimes […]
~ in  3ºActo/Major Barbara

sábado, 12 de agosto de 2017

Compreensão e Política (a)

Há duzentos anos, e sem que se fosse absolutamente estúpido, era aceitável confiar no futuro. Hoje, e dado que somos esse esplêndido ‘porvir’, quem crê nas actuais ‘predições’? Há perguntas que devem evitar-se; ou fazem-se prescindindo da resposta. Porque em duzentos anos, das tecnologias às ciências aplicadas, tudo foi exponencialmente incrementado. Não posso, por ser errado, afirmar que a inteligência se decrementou; mas posso afirmar que se mantiveram incólumes os níveis que definem as várias formas de hebetismo. E as tecnologias trataram de incrementar a visibilidade, por exemplo.
Leslek Kolakowski * propalava que i) nunca há falta de argumentos para apoiar qualquer doutrina, sejam quais forem as razões para tal; ii) invariavelmente se encontram causas para qualquer acontecimento ou fenómeno por muito extraordinários ou inesperados que sejam; iii) aconteça o que acontecer será explicado. Ora – observo eu – com folhas de papel em branco ‘explica-se’ muito melhor.
À primeira vista, há qualquer ‘coisa’ que não bate certo ou está em falta. Não há ‘coisa’ desacertada ou em falta! Há somente um denominador que, naturalmente, é comum e, pior, prevalente. É este o quid pro quo – a prevalência do denominador. Alegoricamente, e no que concerne a esta ‘problemática’, o «cerne» não é o ‘bicho da fruta’; é a ‘fruta’. E mais: a ‘fruta’ não deseja tornar-se imune à actividade do ‘bicho’.

(a) de Hannah Arendt
* filósofo polaco/‘Lei da Cornucópia Infinita


sexta-feira, 23 de junho de 2017

O trigo antes da farinha, a farinha antes da massa, a massa antes da pizza

Ao “Hermínio do Bentley emprestado” bateu-lhe o “azar” à porta – uma probabilidade que amiúde sucede a todo e qualquer um mas por estas razões, e com estas consequências, sucede aos vigaristas, larápios, etc. A comunidade de Oliveira de Azeméis bem pode esfregar as “trombas com um pano encharcado” e de duas, uma: ou não dá pelo embaraço [o que espelhará, bem, a espécie e a característica além de ser o mais expectável] ou dá, e, então, lhes sirva de lição; a sociedade em termos latos deve [considerando os inúmeros e consecutivos casos de banditismo apanhada por aí] fazer o mesmo.

[Vem a propósito fazer uma(s) perguntinha(s), ingénuas, ao(s) jornalista(s) na pessoa de Bárbara Reis: Nunca tinham dado pelas manisfestações ostentatórias da criatura? Souberam agora? É que agora, e dadas as circunstâncias, não é jornalismo (escrutínio); é noticiarismo. Agora é tarde.]
Triste, realmente, é – passados quarenta e três anos sobre a deposição e trinta e cinco sobre o seu passamento – constatar que, por mais voltas que dê, Marcello Caetano expirou perspícuo, carregado de razão — DEMOCRACIA não era para os nossos dentes. Ponderando eu que, a “coisa edificada” deixa muito a desejar — fruímos de tempo mais do que suficiente para a instituir — e que designá-la por «democracia» é, de facto, uma depravação político-ideológica, uma deformidade ética, moral e jurídica e, linguisticamente, uma corruptela. Em 5 de Outubro, o PR definiu a “ética republicana”
De cada vez que um responsável público se permite admitir dependências pessoais ou funcionais, se distancia dos governados, alimenta clientelas, redes de influência e de promoção social, económica e política, aos olhos do cidadão comum é a democracia que sofre
Estou marimbando-me para os “padecimentos” da democracia. O mesmo não digo dos atropelos e chagas que são infligidos, de forma sistemática e dolosa – como acaba sempre por se constatar –, pelos “democratas” a todos os «fundamentos» democráticos. A não ser que alguém me comprove que os oligarcas se propõem a mais e diferente do que os aristocratas. Pela minha convicção de que as nações assim como os indivíduos, salvo raríssimas excepções, se portam com decência quando as circunstâncias não lhes permitem outra coisa. E a “certeza” de que as ideias que menos influenciam a política, são as políticas. E por crer que as forças que, desde o início, constroem uma civilização colaboram com as forças que a arruinam. E que (todas) as doutrinas que pretendem arrastar multidões têm de ocultar a arbitrariedade, inevitável, dos seus postulados e as incertezas das suas “conclusões”. Enfim, que me comprovem que a democracia, perante a qual genufletem ou persignam, não é instrumental. Etc.
Díssono do presidente Marcelo Rebelo de Sousa e de tantos, tantos outros, não sou um democrata incondicional; serei, quanto muito, um democrata discricionário. E mais: adoraria poder ser liberal. Ora, se não temos dentes para “existências” democráticas então para liberalismos, faltam-nos as gengivas!

Nuno Garoupa escreve, hoje, “falta-nos uma sociedade civil forte. (…) Um dos problemas é a vida política esgotar-se precisamente nos partidos (e claques). A mobilização a fazer é na sociedade civil, que não existe. (…) O resto será mais do mesmo, inevitavelmente.”
Tal e qual! O trigo antes da farinha, a farinha antes da massa, a massa antes da pizza.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Venceram. Parabéns!



Por menor que seja o prazer [ou por maior que seja o meu desagrado] em escrever o que segue, o certo é que me resta nada à excepção de lhes dar parabéns, sinceros.
Venceram. Parabéns! 
Os “hierarcas” conseguiram com efeitos imediatos aplacar as reacções mais instintivas e enlevar e arremansar as almas, desassossegadas. O Presidente da República na sua função de esmoler de afectos, o primeiro-ministro enquanto proselitista, os ministros dos pelouros em causa — Agricultura, Capoula dos Santos, Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e o secretário-de-estado da Administração Interna, Jorge Gomes — com uma permanente presença no terreno, e nos écrans das nossas tv´s, a fazer que intervinham efectivamente nas decisões dos comandantes operacionais conseguiram o que, naturalmente, os administradores políticos anseiam: um povo sereno, agradecido [se penhorado, melhor], resiliente, cumpridor leia-se bom pagador, meio acéfalo, obstúpido, e uma rede administrativa dissimuladamente corporativa, ancilar e igualmente grata.
Deste “organograma” apenas lhes falta apresentarem-se [ar circunspecto] nas exéquias das vítimas a dar nota da sua consternação e profundo pesar.
Porquê?
— Porque li e ouvi, o que foi escrito e dito pelas vias comuns do mainstream. E estabeleço as diferenças entre o que era exigido até ontem e com quê ficarão sossegados, amanhã. David Dinis [do jornal Público], por exemplo
– se até ontem havia respostas que tinham de ser dadas de forma iniludível e quaisquer que fossem as consequências, hoje [o título — A investigação, quando vier, que seja independentenão é tudo mas é muitíssimo, desgraçadamente], a exigência será saciada com a «independência das investigações». Ora, nós sabemos (devíamos saber) o que é [para os efeitos devidos e no caso em apreço] «independência»: sabemos (devíamos saber) os profícuos [em termos de magnanimidade, equidade, objectividade, ponderação, …] resultados que, a “independência” dos “independentes” (nas formas de mandato individual ou orgânico - institucional ou por incumbência), por cá, ao longo de décadas e no âmbito das mais diversas actividades
[do coetâneo apuramento de responsabilidades criminais — da banca falida ao «Bolama» e/ou «Camarate»; do uso dos fundos estruturais, comunitários, e mais os “buracos” por onde se escoaram as centenas de milhar de milhões de euros dos três primeiros Quadros Comunitários de Apoio (o QCA I em 1989/1993, o QCA 11 em 1994/1999 e o QCA 111 em 2000/2006) ao assassinato de Joaquim Ferreira Torres; da aquisição dos helicópteros (inoperacionais ou em vias disso) até aos famigerados blindados Pandur e mais os submarinos, …]
contentar-se-á se a investigação fôr independente
[como se isso não fosse uma de entre muitas abstracções lírico-políticas com que os “sumo-sacerdotes” adormecem e endrominam o populacho];
— porque, fosse eu familiar [próximo e/ou com capacidade de decisão] de uma vítima, faria o que me fosse possível por não ter de me cruzar com qualquer deles com excepção de bombeiros – os bombeiros são os únicos por quem me sinto grato; por consequência seriam os únicos que me fariam engolir a eventual genuinidade do pesar.
Em conclusão: Ficaremos como estávamos e contando menos 64. Na queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-rios, também ficámos de uma vez com 59 a menos e daí não veio mal nem à pátria nem aos responsáveis com excepção da assumpção da "responsabilidade política" do ministro à época. Ora, responsabilização política é, para mim, algo extremamente reconfortante e compensador.
Sobre esta tragédia, os responsáveis, as falhas, etc…os meus leitores não lerão, mais, pio que seja. Bem, afinal o homem é um animal de hábitos e a noção de respeito assim como as formas de ser respeitado, é uma tisana que cada um toma a que quer.
Paciência!