domingo, 14 de fevereiro de 2016

Uma anedota de país



Há muitas páginas escritas sobre a função do riso em situações trágicas. E há quase tantas páginas escritas sobre o que acontece quando a tragédia é o comunismo e os infelizes que o sofrem recorrem ao humor para mitigar o infortúnio. A URSS é o caso clássico e extremo.
 
Como é que lidam com as infestações de ratos no Kremlin?
Metade morre de fome e a metade restante foge num ápice.

De 1917 a 1989, produziram-se, no devido anonimato, largos milhares de anekdoty sobre a miséria em vigor e os psicopatas que a impunham

Lenine morreu, mas a sua causa viverá!
Por acaso, eu preferia ao contrário.
 
No meio da opressão, o contraste entre os objectivos proclamados dos regimes marxistas e os seus grotescos resultados favorece a galhofa melancólica — se rir não é o melhor remédio, é frequentemente o alívio possível. Assim foi na URSS, assim foi nos "satélites" da URSS e nas metástases do Terceiro Mundo. Há meses, a New Yorker compilou diversas anedotas representativas da sobrevivência na Venezuela, o farol dos povos do século XXI. Eis uma. 
 
Cansado de esperar em fila por alimentos básicos, um homem diz ao amigo que vai matar Maduro. Horas depois, regressa.
"Conseguiste?", pergunta o amigo.
"Não, a fila era ainda maior..."

Um país sabe que iniciou a descida aos abismos sem retorno previsto no momento em que as piadas acerca dos senhores no poder se multiplicam. O exemplo português é o mais recente e um dos mais fulminantes — algumas semanas chegaram para que uma maioria parlamentar alucinada, um governo de desavergonhados e a nulidade que preside ao arranjo nos orientassem rumo ao desastre. Cada dia, enquanto os serviçais da nulidade exaltam o progresso e culpam tudo o que se move pelo atraso, Portugal retrocede um trimestre ou dois, proeza que não tarda a elevar-nos ao glorioso panteão dos indigentes da Terra. 
O humor não tardou. Um destes dias, o pequeno autarca transformado em Grande Líder por seitas de irresponsáveis naturalmente acrescentou pedagogia ao destrambelhamento económico. Decidido a justificar o saque fiscal para satisfazer clientelas, o dr. Costa recomendou que não fumássemos, não andássemos de carro e não contraíssemos empréstimos. Antes que divagasse contra o álcool, o bife e a água quente, certos cidadãos menos anestesiados criaram no Twitter a conta Costa 
 
"Não gaste de uma vez os 60 cêntimos de aumento nas pensões"
"Poupe no IMI e more numa tenda"
"Ande à chuva de boca aberta"
"Aproveite as inundações e desloque-se de canoa"
"Faça xixi no banho e economize no autoclismo"

E é isto. Encontramo-nos em via acelerada para o tipo de sociedade em que apenas as graçolas nos protegem da insanidade e da prepotência. Trata-se, claro, de uma protecção em última instância inútil, e em primeira débil: por "violação das regras", a referida conta depressa desapareceu do Twitter. O comunismo garante a liberdade de expressão, não a liberdade após a expressão - já rezava a anedota, e bem precisamos que as anedotas rezem.

Alberto Gonçalves

domingo, 31 de janeiro de 2016

Creditam a farronca ou não?!


Não temo o plural majestático. No fundo, é deste tipo de controvérsia que gostamos. É por uma polémica com adornos destes que ansiamos. É imbecil das fímbrias até ao tutano, mas é por dissensos destes que aspiramos. O facto é que se assim não fosse os políticos — todos, considerados isoladamente ou em corpos — não se permitiriam vocalizar justificações, explicações e o mais que os carregue desta forma infantil, absolutamente idiota.

O PS, repleto de gente imaginativa — tão imaginativa que parte sempre do princípio de que os outros são tolos e por isso qualquer coisa basta —, justificou a falta de pano para fazer o lençol, mais ou menos, assim 
«As “dúvidas” de Bruxelas quanto à inscrição contabilística das medidas», segundo A. Costa, «devem-se ao anterior governo: a Comissão Europeia estava convencida que os cortes de salários e a sobretaxa [do IRS] eram definitivos.»
«E o que diziam aos portugueses?» pergunta-se-lhe. E ele responde «Diziam que, por serem extraordinárias, eram temporárias.» 
Mas a quem disseram a verdade, afinal? Mesmo supondo verdadeiras as “acusações” o facto é que, por mais voltas que sejam dadas à poia conspirativa, 1 – disseram a verdade aos portugueses, e, 2 – o que Pedro Passos Coelho, ou alguém por ele, disse aos de Bruxelas interesse nada: rigorosamente nada.

É desnecessário acrescentar o que seja, mas se —, por razões de que não me apercebo —, fôr então o caso muda de figura e pelo menos no que respeita à ideia que encerram do povaréu, têm razão: repristinam, e os receptores têm o que merecem. 
Se para os pretendidos efeitos não fôr suficiente tomar o rebanho indígena por uma embrulhada de idiotas inermes, e proceder em conformidade nas palavras e nos actos, atesta-se menoridade intelectual e a incapacidade técnica “dos de Bruxelas” e toca para a frente. 
Estes calhordas não têm limites.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Engraçados increpadores


Em conformidade com as regras de um determinado normativo litúrgico e respeitando escrupulosamente as recomendações inscritas nos manuais da logística insurgente um certo komentariado rabisca por quanto é muro, parede, porta, …, espalha(m) como mancha de óleo nas “redes sociais” que 1 – a grande derrotada foi Maria de Belém e 2 – aprofundam a azia contra a sua candidatura. Que foi fraccionista, de facção, divisionista, etc., dizem/escrevem. Há até guardiões desaustinados que verberam e proferem impropérios contra a «fraude», imagine-se. Ora, quer uma quer a outra coisa, são falsas. Não, não foi! O grande derrotado foi Sampaio da Nóvoa.

Seria ou não em Sampaio da Nóvoa que os votos em Marisa Matias [da rafeirada que se sente representada por aquela «Sociedade Protectora»], em Edgar Silva [nem que para isso tivessem de votar com máscaras cirúrgicas de protecção], parte dos 4% em Maria de Belém e outros tantos dos “brincalhões”, “rebeldes” e “do-contra-porque-sim” em Vitorino Silva, se concentrariam? Seria. Pois o facto é que os votos de Henrique Neto, Vitorino Silva, Edgar Silva, Marisa Matias, Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa, somados, nada obtinham. O resto, na fonte e no percurso, foi táctica.

O que lhes tem falhado, então? Tem falhado, sempre, aquele número de não amestrados, de indomesticáveis que lhes permita encerrar o “ciclo” — o “ciclo” de resultados formalmente inatacáveis que lhes permita instituir «a política como ela deveria ser» em substituição d«a política como ela é» determinada por alguém saído do seu alfobre [aonde são produzidos «o melhor que tem a sociedade civil» para posterior transplante]  e que, por sua vez, lhes permitisse instalar um regime que estaria entre uma democracia popular e uma democracia popular.

É exactamente sobre isso o “lamento«Ciclo Incompleto» de hoje, do libérrimo Rui Tavares, no Público.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Depois queixam-se que não vendem o papel

Para não puxar muito pela memória "direi" É assim desde Castélio.
Não foi Castélio que fez história; foi Calvino. Quem não souber do que falo tenha o trabalho de ler Stefan Zweig e ficará a saber.

Hoje, o senhor Pedro Tadeu, jornalista, fez publicar no DN
 

Refere que foi instigado pelo jornal i que “recordou no dia 1, no 30.º aniversário da entrada de Portugal na CEE” e pelo Expresso que num artigo, coordenado por Pedro Santos Guerreiro, “dias antes explicava, tintim por tintim, como (…)”. 

É evidente que fico muito reconhecido e grato pelos diligentes e aturados exercícios de investigação jornalística e esclarecimento do Expresso, pela mão de Pedro Santos Guerreiro, do jornal i que se socorreu do Expresso e a Pedro Tadeu que se socorreu de ambos, apesar da inutilidade do empenho.
Se, por acaso, tivessem respigado o que editei a 10 de Dezembro de 2013 — «O hábito e o adicto» — encontrariam uma súmula das contas e bastar-lhes-ia fazer a comprovação. 
Mais vale tarde do que nunca. Parabéns. Mas parece-me que todos intentam "atacar" a «Segunda Curva», tardiamente. Quem não souber a que curva aludo tenha o trabalho de ler Charles Handy e ficará a saber.



Obs.: não subscrevo as parciais e enviesadas inferências dos senhores Pedro Tadeu e Pedro Santos Guerreiro.