21 de junho de 2019

Os compassivos e a indústria da compaixão

‘Encontra os intelectuais, financia-os e eles farão o resto.’
                   ~ George Soros ~


Entretanto convinha(-lhes) em proveito da genuinidade do projecto e das pulsões intrínsecas o desmentido, ponto por ponto, de  


10 de junho de 2019

Palavras inscritas a cinzel


"(…)
Minhas senhoras e meus senhores.
I
Eu vivi e cresci a 100 metros do local onde me encontro, ali mesmo, no cimo da Avenida Frei Amador Arrais. Foi nessa casa que habitei até fazer aquilo que a maior parte dos portalegrenses faz após acabar o secundário: deixar a cidade para ir estudar fora, na universidade. Boa parte dos portalegrenses, infelizmente, já não volta a viver aqui. Eu não voltei. Mas aquela será sempre a minha casa. E esta foi, é e será sempre a minha cidade.
Tenho a honra de ser o primeiro filho da democracia a presidir às comemorações do 10 de Junho. Não sei o que é viver sem liberdade. Devo ao Portugal democrático e ao Estado português boa parte daquilo que sou. Sou filho de dois funcionários públicos. Fiz o ensino básico e secundário numa escola pública. Licenciei-me numa universidade pública.
Portugal não falhou comigo. Permitiu que um simples estudante de uma cidade do interior, sem qualquer ligação à capital e às suas elites, fosse subindo aos poucos na vida e chegasse até aqui.
O meu crescimento acompanhou o crescimento da democracia portuguesa.
Vi o quanto o país mudou.
Até ao final da década de 90, Lisboa estava a mais de quatro horas de autocarro de Portalegre, e a essa distância física correspondia uma ainda maior distância cultural. Os livros eram poucos e vendiam-se nas papelarias; o cinema só funcionava ao fim-de-semana; as bandas que nós queríamos ouvir não passavam por cá.
Mas o país progredia, e eu via-o progredir. Os meus pais estudaram mais anos e tiveram mais oportunidades do que os meus avós. Eu estudei mais anos e tive mais oportunidades do que os meus pais.
Como acontecia em tantas casas, a minha família investia parte do salário a comprar livros e enciclopédias que chegavam pelo correio, a prestações. Esses livros representavam o conhecimento e a educação que as famílias ambicionavam para os seus filhos.
Os pais lutavam por isso – lutavam menos por eles, do que pelas suas crianças, para que elas tivessem uma vida melhor, estudassem, fossem “alguém”. Os seus filhos chegariam às universidades. Estudariam dezasseis, dezassete, vinte anos, se fosse preciso. Viajariam mais. As suas férias não estariam limitadas aos 15 dias em Albufeira. Seriam grandes. Seriam felizes. Seriam europeus. 
A geração dos meus pais sacrificou-se para que os filhos tivessem o que eles nunca tiveram. Mas é possível que eles tenham tido aquilo que mais nos tem faltado nos últimos vinte anos: um objectivo claro para as suas vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa.
Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90.
Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia.

II

É nessa dificuldade que repousam tantas das nossas angústias.
As pessoas de hoje não são diferentes das de ontem: enquanto indivíduos, continuamos a amar, a sofrer, a chorar, a rir, hoje como sempre. Boa parte de nós, talvez julgue mesmo que a política é somente um cenário longínquo, distante da vida que nos importa, que é aquela que está mais próxima de nós. Daí o chamado “desinteresse pela política”.
Mas creio que este sentimento é já uma consequência dos nossos próprios fracassos. A integração na Europa do euro não correu como queríamos. Construímos auto-estradas onde não passam carros. Traçámos planos grandiosos que nunca se cumpriram. Afundámo-nos em dívida. Ficámos a um passo da bancarrota. Três vezes – três vezes já – tivemos de pedir auxílio externo em 45 anos de democracia. É demasiado.
Perguntamo-nos como foi isto possível. Criámos comissões de inquérito para encontrar responsáveis. Descobrimos um país amnésico, cheio de gente que não sabe de nada, que não viu nada, que não ouviu nada. Percebemos que a corrupção é um problema real, grave, disseminado, que a Justiça é lenta a responder-lhe e que a classe política não se tem empenhado o suficiente a enfrentá-la.
A corrupção não é apenas um assalto ao dinheiro que é de todos nós – é colocar cada jovem de Portalegre, de Viseu, de Bragança, mais longe do seu sonho.
O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo, porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida. Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa.
Os miúdos que não nasceram nesse tipo de “família certa” têm direito aos mesmos sonhos que os filhos das elites portuguesas – todos nós concordamos com isto. Mas será que estamos a fazer alguma coisa para que aquilo com que concordamos se torne realidade? Será que podemos garantir que o talento conta mais do que a família em que cada um nasceu? Será que a igualdade de oportunidades existe?
Quando eu digo à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita – os meus quatro filhos – “leiam mais, trabalhem mais, que o vosso esforço será recompensado” – será que lhes estou a dizer a verdade?
Os meus pais disseram-me isso a mim. E eu estou aqui. Mas será que a mesa está equilibrada e o elevador social funciona hoje da mesma forma? Ou a vida estará bem mais difícil para um jovem na casa dos vinte anos, que numa economia de baixo crescimento tem de competir com uma geração mais velha já licenciada, integrada num mercado de trabalho rígido, que confere muita protecção a quem tem um lugar no quadro e muito pouca protecção a quem não o tem?
No nosso país instalou-se esta convicção perigosa: um jovem talentoso que queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor solução que tem ao seu alcance é emigrar. Isto é uma tragédia portuguesa.
Não podemos condenar os nossos filhos ao discurso fatalista de um Portugal que é assim, porque nunca foi de outra maneira.
O desespero não nasce do erro, mas do sentimento de que não vale a pena esforçarmo-nos para que as coisas sejam de outra forma – porque nunca serão.
A falta de esperança e a desigualdade de oportunidades podem dar origem a uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país meritocrático.
Esta perda de esperança aparece depois travestida de lucidez, e rapidamente se transforma numa forma de cinismo. Achamos que temos de ser pessimistas para sermos lúcidos. Que temos de ser desesperançados para sermos realistas. Que temos de ser eternamente desconfiados para não sermos comidos por parvos.
Guardamos os bons sentimentos para as nossas relações pessoais, onde somos certamente seres encantadores, mas quando se trata de reflectir sobre o nosso papel enquanto cidadãos, partes de uma nação e de um tecido social e político comum, colocamos uma mola no nariz e dizemos que pouco temos a ver com isso, porque os políticos não se recomendam.
Há o “eles” – os políticos, as instituições, as várias autoridades, muitas das quais (receio bem) se encontram hoje aqui presentes. E há o “nós” – eu, a minha família, os meus colegas, os meus amigos.
Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes pelo meio.
“Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a ver com eles.

III

O senhor Presidente da República costuma dizer com frequência que os portugueses, quando querem, são os melhores do mundo. O senhor Presidente da República que me perdoe o atrevimento: não há qualquer razão para os portugueses serem melhores do que os finlandeses, os nepaleses ou os quenianos.
Mas tenho uma boa notícia para dar: também não precisamos de ser melhores.
Para quem ainda acredita numa ideia de comunidade, os portugueses são aqueles que estão ao nosso lado. E isso conta. E conta muito.
Partilhamos uma língua, um país com uma estabilidade de séculos, sem divisões, e é uma pena que por vezes pareçamos cansados de nós próprios. Tivemos História a mais; agora temos História a menos. Passámos da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo, para acabarmos com receio de usar a palavra “Descobrimentos”. Simplificamos a História de forma infantil.
No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava de pele negra – tão bela e tão negra que até a neve desejava mudar de cor. Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana.
Menos exaltação patriótica e mais paixão por cada ser humano – eis uma fórmula que me parece adequada aos tempos que vivemos. Sendo já poucos os que acreditam nas grandes narrativas, continuamos a acreditar nas pessoas que temos ao nosso lado. E esse é o caminho para a identificação possível dos portugueses com Portugal.
Sozinhos somos ninguém. A velha pergunta bíblica “acaso sou eu o guarda do meu irmão?” tem uma única resposta numa sociedade decente: “Sim, és.” Num país algo desencantado, o grande desafio está em tentar desenvolver um sentimento de pertença que vá além dos prodígios do futebol.
IV

Quando o senhor Presidente da República me convidou para presidir a estas cerimónias houve muita gente que ficou espantada, incluindo eu próprio. Mas com o tempo fui-me afeiçoando à ideia de que talvez não seja absolutamente necessário ter méritos extraordinários para estar aqui, e que Portugal precisa cada vez mais de um 10 de Junho feito de pessoas comuns e para pessoas comuns.
Um 10 de Junho que aproxime as linhas entre o “nós” e o “eles”. Uma festa do português anónimo, da arraia-miúda, daquelas pessoas que todos os dias fazem mais por este país do que elas próprias imaginam.
O 10 de Junho do meu avô, que tinha uma casa de pasto no fundo da rua de Elvas e oferecia um prato de sopa a quem não tinha dinheiro para pagar uma refeição.
O 10 de Junho dos meus sogros, que tiveram de fugir de Moçambique em 1975 e reconstruir toda a vida em Portugal com seis filhos para criar, alguns dos quais ficaram dispersos pela família até eles voltarem a ter condições para os acolher.
O 10 de Junho das três mulheres que criaram a minha mulher, uma delas originária de Timor, que viajaram desde o outro lado do mundo para acolher um bebé nascido em Moçambique e fazê-lo crescer numa pequena aldeia da Beira Interior.
São histórias de vida impressionantes. 
Portugal não é composto apenas por instituições longínquas, Parlamentos em Lisboa, políticos distantes de quem dizemos mal no café.
Portugal somos nós. Sou eu. São as pessoas que estão sentadas em lugares privilegiados nestas bancadas. São os militares que desfilam à nossa frente. São os portalegrenses debaixo do sol de Junho. São as pessoas lá em casa, a ouvir estas palavras.
Todos temos nas nossas famílias histórias destas, de gente banal envolvida em feitos extraordinários.
Temos o hábito de levantar a cabeça à procura de grandes exemplos, e nem sempre os encontramos – mas muitas vezes os melhores exemplos estão ao nosso lado, e alguns deles começam em nós mesmos.
Sobre cada um de nós recai a responsabilidade de construir um país do qual nos possamos orgulhar.
Aos políticos que dirigem Portugal, e representam os seus cidadãos, compete-lhes contribuir para esse esforço, propondo-nos um caminho inteligível e justo. Os portugueses podem não ser os melhores do mundo, mas são com certeza capazes de coisas extraordinárias desde que sintam que estão a fazê-las por um bem maior.
A política não falha apenas quando conduz o país à bancarrota. A política falha quando deixa o país sem rumo e permite que se quebre a aliança entre o indivíduo e o cidadão.
Aquilo que melhor distingue as pessoas não é serem de esquerda ou de direita, mas a firmeza do seu carácter e a força dos seus princípios. Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que lideram.
Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar impostos.)
Cada português precisa de sentir que conta, precisa de sentir que os seus gestos não contribuem apenas para a sua felicidade individual, ou para a felicidade da sua família, mas que têm um efeito real na sociedade, e podem, à sua medida, servir o país.
É preciso dizer ao velho que perdeu tudo nos incêndios de Pedrógão – tu contas.
É preciso dizer ao miúdo que habita na pobreza do Bairro da Jamaica – tu contas.
É preciso dizer ao cabo-verdiano que trocou a sua terra por Portugal, em busca de um futuro melhor para os seus filhos – tu contas, e os teus filhos não estão condenados a passarem o resto das suas vidas a limpar as casas da classe alta de Lisboa ou do Porto.
É preciso dizer à mãe ou ao pai que se sacrifica diariamente para que o seu filho possa estudar numa boa escola – tu contas, o teu esforço não será desperdiçado, e enquanto cidadão português tens os mesmos direitos e a mesma dignidade que um primeiro-ministro ou um Presidente.
E se alguma pessoa emproada vos perguntar pelo vosso currículo, digam-lhe que currículo tem tanto o académico que decide dedicar a sua vida ao estudo como o pai que decide dedicar a sua vida aos filhos.
Currículo tem tanto o cientista que dedica o seu tempo à investigação como o reformado ou o jovem que dedicam o seu tempo a ajudar os outros.
São diferentes tipos de currículo, mas são currículo.
E se ainda assim vos perguntarem “quem é que tu achas que és?” respondam apenas:
“Sou um cidadão que todos os dias faz a sua parte para que possamos viver num Portugal melhor e mais justo.”
Isso chega – aliás, não só chega, como é aquilo que mais falta nos faz.
Muito obrigado."


Parabéns, João Miguel Tavares.

22 de maio de 2019

Catecismos para o séc. XXI


Contributos para a arquitectura das ‘almas’ – um esquisso [a elaboração da(s) «narrativa(s)», a função das ‘caixas de ressonância’, os idiotas úteis, o sarapatel instalado, …]

— Martha Finnemore e Kathryn Sikkink para crendeiros  ≈ Ciclo de vida das fraudes

1• Emergência [da norma v.g. fraude]

Estádio em que os activistas começam a propalar que algo tem de mudar e alguma coisa tem de ser feita para que, aqueloutro, mude. As plataformas, as caixas de ressonância são os partidos políticos, as organizações internacionais, os meios de comunicação social e as elites intelectuais e artísticas. Logo que por razões políticas os Estados adoptam a fraude, alcança-se o ponto de inflexão (tipping point). Avança-se para •2

2• Cascata [da norma v.g. fraude]

Os Estados, na decorrência do aumento do número de apoiantes, iniciam um processo de rápida adopção da fraude, arrebanhando e mobilizando crentes e oportunistas que ampliarão o efeito de cadeia e fora dela poucos estarão por crença, oportunismo, prestígio ou vergonha.
Alcança-se o segundo ponto de inflexão. Avança-se para o estádio •3

3• Internalização [da norma v.g. fraude]

Com o tempo, a fraude é internalizada (nas práticas e nos hábitos). Está estabelecida a conformidade geral que será tanto mais bem-sucedida quanto mais natural parecer a artificialidade, isto é, no estádio •3 a fraude passa a ser percepcionada como realidade.
Neste ponto, tudo estará devidamente invertido
1 - fraude é contestar a própria fraude.
A fraude foi internalizada e normalizada; a fraude não é fraude.


• — •

O comprometimento ideológico é a principal motivação quando ‘empreendedores’ promovem  normas  ou  ideias   porque  acreditam nos ideais  e  valores incorporados nas normas  mesmo que não  tenham  efeitos  sobre  o  seu  bem‐estar.

Exemplo dos cuidadinhos com a linguagem dos «novos cães de guarda *»


* Serge Halimi

16 de maio de 2019

Ah, Ah, Ah



A ‘coisa’ é uma perfeita polianteia. As sindicâncias, naturalmente, põem a nu chistes atrás de chistes. O finório gargalheia

Ah, Ah, Ah

A ‘freguesia’, de forma indistinta, espumeja e bolça. Decerto estariam mais felizes caso a brutesca criatura repetisse a grandiloquente alusão com que Ricardo Salgado (n)os brindou

um leopardo quando morre deixa a sua pele, um homem quando morre deixa a sua honra *


* na boca de Ricardo Salgado, uma pilhéria.


28 de abril de 2019

Tresvarios - uma ‘variação’


O secular desafio de ‘democratizar a cultura’ não conseguiu que mais gente admire Montaigne, Joyce ou Beckett; conseguiu, sim, que mais gente suponha admirá-los. A difusão da cultura capacitou que qualquer tonto divague sobre o que ignora ou seja, paparroteie.
Disto ao convencimento de que o uso desbragado de trivialidades, de melodiosas frases feitas e falta de topete na ponta da língua é retórica, foi um salto de formiga.

Uma boa polémica, uma disceptação não é apenas uma questão de argúcia; exige retórica (em sentido rigoroso) e não prescinde de ‘arcaboiço’. Os exercícios do vulgo ― a treta de café, a tagarelice de rede social ― toscos, de fundamentação rudimentar, em que se arguem dichotes como se fossem «proposições», ‘bocas’ como se fossem «premissas» e interjeições como se se tratassem de «conclusões», categóricas, compõem uma outra coisa: coisa essa que é, na maioria das vezes, designada (pejorativamente) retórica e que um retórico, ancestral, referiu como seu ofício – 'fazer com que as coisas pequenas parecessem grandes, e fossem julgadas como tal'.
Esta realmente floresce em meios intelectualmente pobres, e em sociedades decadentes. Exemplos?! A pobreza franciscana debitada pela maioria dos interventores políticos.
Não é por acaso que a plebe, comparando, tem saudades de Vasco da Gama Fernandes, Fernando Amaral, Barbosa de Melo, Mota Pinto, Natália Correia, Sá Carneiro, Salgado Zenha, José Luís Nunes, Amaro da Costa,…estes para me restringir ao universo do pós-25 de Abril. Ora, fazer comparações entre qualquer deles e, por exemplo, Heloísa Apolónia, Catarina Martins, João Ferreira, Pedro Delgado Alves, Adão Silva, António leitão Amaro ou Telmo Correia, só pode ser a título de motejo, chocarrice.

Dá-se o caso de quarenta e cinco anos com portas escancaradas ao livre-arbítrio e à incondicionada liberdade não foram suficientes para atirar as inferências seguintes
A estupidez e a ductilidade que se encontram na plebe e que a tornam sujeita a ser manipulada e meneada pelas orelhas, e sem que chegue a sopesar e a conhecer a verdade das coisas pela força da razão, não é tão fácil de se achar num só indivíduo pois este mais facilmente se salvaguarda de tal veneno através de uma boa educação e por bons conselhos
de Montaigne para o regaço da paleologia ou nos quedarmos perplexos ante
Um dos surpreendentes privilégios dos intelectuais é o facto de se encontrarem livres para serem escandalosamente estúpidos sem sofrerem qualquer abalo nas suas reputações
de Erci Hoffer.
É assim, sempre assim foi! Por isso Arquídamo ao perguntar a Tucídides quem era mais forte, ele ou Péricles, terá ouvidoIsso será difícil de verificar pois, quando o deito por terra, convence os espectadores que não caiu e ganha.’; e Aríston definiu-a como a ‘ciência’ de persuadir o povo, e Sócrates e Platão como a arte de enganar e lisonjear.
Por isso é que os maometanos, dada a sua inutilidade, proibiram que fosse ministrada às crianças. Enfim…por isso é que aonde o vulgo, aonde todos podiam tudo como em Atenas ou Rodes e aonde as coisas estavam em perpétua perturbação, abundavam os oradores.
Por isso é que a vida das pessoas intelectualmente íntegras nunca foi fácil; por isso é que John Le Carré dizia que ‘é preciso ter têmpera de herói para se ser uma pessoa decente.’.


O problema jamais foi a ferramenta/instrumento, e sim o uso que lhe é dado. Por isso é que, se me é perguntado por um livro, sempre me lembro do gracejo
Quando é um tolo que o olha, não pode ser um génio que lhe devolve o olhar.


No presente existem ferramentas infinitamente mais perigosas, e a esmo, e a malta sugere andar feliz por lhes ser possibilitada a oportunidade de escreverem ― mal e porcamente, acrescente-se ― as maiores alarvidades e fazerem gala do seu hebetismo. Por isso é que Karl Kraus glosou com a propriedade que a cultura possui, três gavetas - diversão, instrução e trabalho. A chatice é que, para abrir uma, as demais têm de permanecer fechadas.

25 de abril de 2019

Eucológico

No ambone
(a rogo)


― Quarenta e cinco anos sobejam para atestar que, invariavelmente, cada nova geração acusa a geração pretérita de pouco ou nada ter feito pela ‘redenção’ da humanidade; quarenta e cinco anos asseveram que a abjecção com que a novel geração se adapta ao mundo é proporcional à veemência das suas acusações. Dá-se o caso de a minha ter sido deveras arrebatada e entusiástica.
―  Quarenta e cinco anos sedimentam ‘coisas’ várias:
Asseveram que a política não teve origem na urgência de assegurar a solidariedade social tal como as catedrais não foram construídas para fomentar o turismo;
Certificam que os profetas, que prognosticam acertadamente a crescente depravação da sociedade, se desacreditam porque quanto mais cresce a putrescência menos dão por ela os corrompidos;
Asseguram que os heróis e os cobardes definem os ‘objectos’ de maneira semelhante não obstante os entenderem de modo antagónico;
  Garantem que a recusa da ênfase do que, ou de quem, nos repugna é a mais séria limitação.
 *  
Haverá menos grandes homens?
De modo nenhum! O mais importante nem são os grandes homens – a grandeza de uma época não são os grandes homens que a fazem. Não há falta de talentos, de boas-vontades ou de carácter; nem deve ser dito que isto ou aquilo foi responsável por esta ou aqueloutra situação.
Sucede que é impossível lutar contra pessoas ou ideias, ou contra certos fenómenos. O que decorre de a estupidez possuir qualquer coisa de extraordinariamente fascinante e natural, infelizmente. Ora a estupidez, democratizada, é a confiança no cidadão anónimo; e a causa dos ‘crimes’ derivam da confiança dos cidadãos anónimos neles próprios.


Comemorar o quê?!

20 de abril de 2019

O 'contraponto'


Ao borborismo indígena, captado por empreitada para nos ser servido, contraponho o plácido exercício da leitura. Além do mais, ensina um certo provérbio malabar que
Tornam-se semelhantes à sua sombra os que olham durante muito tempo os macacos.
― . . . ―

O chinês Wang-Loh, residente no hotel Astor, asseverara-lhe

'O início da ruína põe em evidência o carácter do que ainda está de pé. (…) Pouco importam os selvagens de sabre e os milhões de indiferentes que apenas conhecem o medo da força. Pouco importam também os imbecis intoxicados de patetices universitárias. (…) o que conta é o estado dos nossos melhores espíritos (…) a Europa julga conquistar todos estes jovens que lhe imitaram o vestuário. Mas eles odeiam-na.’

Ou seja: dera-lhe um banho de realidade, à chinesa.

Reconhecendo o dédalo em que se encontra, A.D. responde – vencido e exaurido – a Ling

Meu caro amigo:
Os mundos de factos, de pensamentos e de gestos, em que ambos vivemos, são pouco propícios às convicções. (…) a ideia de impossibilidade de apreender uma realidade qualquer domina a Europa. A custo se esforça ela por se distrair, apoderando-se dos meios da mentira (…) os elementos do poder ocidental opõem-se e combatem-se apesar das provisórias combinações humanas; e o sentido do mundo, que eles orientam sem mesmo o desejarem, escapa-lhes.

Numa outra réplica, carteara o francês A.D. para o seu amigo chinês, Ling

Os europeus estão cansados de si próprios, cansados do seu individualismo que se desmorona, cansados da sua exaltação. O que os sustenta é uma fina camada de negações. O mal-estar europeu é esse mal que as descobertas causam a almas dotadas de pouca ingenuidade. (…) é o mundo que invade a Europa (…) uma cultura só da sua fraqueza morre. Em face de noções que não pode adquirir, condena-se a encontrar na sua destruição o elemento do seu renascimento ou aniquilamento.

― . . . ―

14 de abril de 2019

No que é mais difícil pensar


Se, da diferença entre ambiente animal e mundo humano, ‘nem a cotovia vê o aberto’ (1) 

•—•

“Heidegger foi talvez o último filósofo a acreditar de boa-fé que na ‘cidade’ – o espaço onde reina a latência (estímulo-resposta correspondente) – ainda fosse possível encontrar um destino histórico para o povo. Foi assim o último a acreditar que o conflito entre o homem e o animal ainda pudesse produzir história e consignar o destino de um povo. É provável que se tenha apercebido do erro visto que, em 1934, escreveu que ‘a possibilidade de uma grande comoção na existência histórica de um povo está esgotada.
Templos, imagens e costumes já não estão em condições de assumir a vocação histórica de um povo de modo a incumbi-la de uma nova tarefa.
Hoje é claro, para quem não esteja de absoluta má-fé, que já não existem tarefas históricas passíveis de serem assumidas ou sequer atribuíveis. Agora o que está em causa é bem diferente e extremo — a tarefa de assumir a própria existência fáctica dos povos.
O homem alcançou finalmente o seu objectivo histórico e nada resta para além da despolitização das sociedades através do alastramento incondicionado da oikonomia ou seja, da vida biológica como tarefa política suprema. (…) será que não vemos, à nossa volta e entre nós, homens e povos sem essência e já sem identidade a procurar por todo o lado e às cegas, a custo de grosseiras falsificações, uma herança como tarefa? (…)
As potências históricas tradicionais – poesia, religião, filosofia – que mantinham desperto o destino histórico-político dos povos, foram há muito tempo, transformados em espectáculos culturais e experiências privadas, e perderam a eficácia. (…) a única tarefa que parece ainda conservar alguma seriedade é tomar a cargo a «gestão integral» da vida biológica, isto é, a própria animalidade do homem.” (2)
•—•

sobejará a crua assumpção de que ‘os homens são animais, e alguns fazem criação dos seus semelhantes’ (3). Mais a mais sabe-se (deveria ser consabido) que ‘os animais têm memória, mas nenhuma recordação’ (4).
 
1 – Heidegger
2 - Giorgio Agamben 
3 - Peter Sloterdijk
4 – Heymann Steinthal


APENSO

Não tinha passado uma hora deste post e fico a saber que, Marcelo Rebelo de Sousa apareceu no préstito fúnebre da (cantora) Dina e…vai daí, uma sessão de selfies com as pesarosas alimariazinhas que por lá se encontravam. Desconheço se o fez a título pessoal ou se colou à sua pessoa o selo institucional, presidente da República. Assim ou assado quer dizer ― para quem não tinha reparado ― que, as lágrimas ou as reservas respeitosas destes pegureiros valem o mesmo que um traque, sonoro ou contido.
Razão tinha – per saecula saeculorum – Guilherme de Paris, no século XII, ao ‘bradar’
Que paraíso é este, senão a taberna de uma incessante comezaina e o prostíbulo de perpétuas indecências?!
Mas é bem feito! Não merecem diferente.

11 de abril de 2019

Os bichos e a blástula que os gera

Das ‘reclamações isotímicas – radicais ou frouxas, orgânicas ou inorgânicas’ a que me referi de forma genérica e superficial, ontem, em «A culpa é do bicho!» escreve, hoje, Francisco Assis, «A nova censura»

Phillipe Brunet é um consagrado helenista e encenador teatral francês insuspeito de qualquer simpatia por teorias racistas. No passado dia 25 de Março a Sorbonne preparava-se para acolher uma representação d’As Suplicantes de Ésquilo com encenação de Brunet e que tinha como actores e actrizes dezenas de estudantes.
Pouco antes do início da representação, dezenas de outros estudantes acompanhados dos chamados activistas anti-racismo, irromperam pela sala insultando e humilhando os jovens participantes do elenco, impedindo a realização do espectáculo. Qual o motivo para tão inesperada manifestação de intolerância e violência? A acusação de que Brunet não teria recorrido à participação de nenhuma mulher negra para representar as figuras das Danaides, as mulheres egípcias de pele negra rumam à Grécia em busca de asilo. Na ausência de mulheres negras no elenco, Brunet, recorreu à maquilhagem e às máscaras como era, aliás, prática corrente na Antiguidade Clássica.
Foi suficiente para ser acusado de retomar as práticas do «blackface».
(…) o verdadeiro racismo reside na ideia de que só negros podem representar o papel de negros ou só brancos podem representar o papel dos brancos (…)”

Às mesmas ‘exigências’ se dedicou Mark Lilla (que, à semelhança de Francisco Assis, é canhoto porém inteligente. Ou faz por isso!) com sucesso — tanto que gerou, da parte de confrades de confrarias diversas, repelência — ao ter esparramado no opúsculo «De esquerda, agora e sempre», do capítulo ‘Pseudo-política’ em diante, um rol de ‘causinhas’ do «caldo multicultural» [a ‘prebiótica’ que produziu Clinton, Hillary, Obama,…que tão grandiosas ‘dádivas’ legaram aos Estados-Unidos e ao mundo] a que os ‘fofos’ mormente os universitários, se dedicaram com a bendição dos Democratas desde meados da década de sessenta do século passado. Ora se foram bons os desempenhos, melhor foi a herança – Trump. Agora guincham!
* 
Entre nós

Ocupem-se a perscrutar nas profundezas do firmamento o buraco-negro da galáxia M87 (curiosidade explicável, aliás, pela popularidade – óbvia! – que detêm, no seio da plebe, as temáticas relacionadas com a astronomia e astrofísica) e, tarda pouco, pelo caminho que as ‘coisas’ levam, não tarda estão a pagar um qualquer sucedâneo do extinto «selo de povoamento», ultramarino. Para já as ‘preocupações’ ao nível das televisões (imagem) e na imprensa escrita (o Público leva o archote) são evidentes.

Nota
Para vosso proveito lede «A guerra das Salamandras» de Karel Capek
"e uma vez que as salamandras eram criaturas altamente úteis de múltiplas formas, acabaram por ser simplesmente aceites como algo que, na sua essência, fazia parte da ordem racional e natural das coisas"