domingo, 4 de dezembro de 2016

O laterício desta fábrica de Absoluto



O homem que pretende a verdade torna-se erudito; o que quer dar asas à subjectividade torna-se, talvez, escritor. O que fará aquele que quer algo entre essas duas estremas?
R. Musil – Ensaios

Uma das mais brilhantes descrições que conheço sobre a memória é de Baudelaire, e está em “O palimpsesto” nas «Visões de Oxford» de «Paraísos Artificiais».
O que é o cérebro humano senão um imenso e natural palimpsesto? Grandes camadas de ideias, imagens, sentimentos,vazam sucessivamente sobre o cérebro com a suavidade da luz. A impressão é de que cada uma sepulta, ou oculta, a antecedente. Mas, na realidade, nenhuma perece.

Entre o palimpsesto que contém, sobrepostas, uma tragédia grega, uma lenda monástica e uma história de cavalaria e a nossa incomensurável memória, há diferenças: o primeiro é uma espécie de caos, uma colisão entre elementos heterogéneos, muitas vezes conflituantes; no segundo, o carácter impõe uma harmonia entre os elementos por mais incoerentes ou disparatados que sejam – os ecos da memória, se os pudéssemos despertar simultaneamente, seriam um concerto agradável ou doloroso, mas lógico. A unidade é imperturbável. O palimpsesto da memória é indestrutível. O esquecimento é momentâneo. Da mesma maneira que toda a acção é irrevogável e irreparável, o pensamento é inabalável. O palimpsesto da memória é indestrutível.
Acredita-se que a tragédia grega foi expulsa e substituída pela lenda do monge e a lenda do monge foi expulsa e substituída pelo romance de cavalaria. Não é nada disso. À medida que o ser humano avança na vida, o romance que, quando jovem, o maravilhava, a lenda fabulosa que, quando criança, o seduzia, desbotam-se e obscurecem-se por si. Mas as profundas tragédias da infância – braços de crianças arrancados do pescoço das mães para sempre, lábios de crianças separados dos beijos das irmãs para sempre – sobrevivem, escondidas, sob as outras lendas do palimpsesto. A paixão e a doença não têm química suficientemente poderosa para queimar essas indeléveis marcas.
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Muitas vezes, acidentados e em perigo de vida, alguns seres viram adejar ao cérebro todo o teatro das suas vidas – uns instantes em que o tempo parece ter sido obliterado pelo que poucos segundos bastam para desfiar uma quantidade de imagens, sentimentos e emoções que equivalem a anos de vida.
O singular não é a precipitação simultânea dos elementos que, ao longo da sua vida se foram encadeando; é a reaparição daquilo que o próprio desconhecia. Em circunstâncias soleníssimas, circunstâncias limite – a morte, por exemplo – o imenso e complicado palimpsesto da memória irrompe e traz todas essas camadas, ignoradas ou ocultadas, a que chamamos «esquecimento».
       
Analogamente, num âmbito assaz diferente, é o que me parece perceber em Paul Ricoeur n’«A Simbólica do Mal». É com os alinhavos dessa tese e é nas fímbrias dessa proposição que parqueio. São as narrativas que formatam as gerações e, por isso, é preciso ir aos palimpsestos levantar as “camadas” para tentar enxergar os caracteres primitivos que neles constam. E outra maneira não há para os fazer ressumbrar.
“É preciso renunciar à quimera de uma filosofia sem pressuposições e partir da linguagem plena.

Partir de um simbolismo já constituído é introduzir uma contingência. Não conheço os símbolos todos. O meu campo de investigação é orientado, e porque é orientado também é limitado. O que é que o orienta? Não é só a minha situação no universo dos símbolos mas, paradoxalmente, a origem histórica, geográfica e cultural da própria questão filosófica.

A nossa filosofia nasceu na Grécia. O filósofo não fala de nenhures, mas antes do fundo da sua memória grega. Há relações de “proximidade” e de “distância” que pertencem inelutavelmente à estrutura da nossa memória cultural. Daí o privilégio de “proximidade” entre as culturas grega e judaica; essas duas culturas constituem o primeiro estrato (camada) da nossa memória filosófica – o encontro da fonte judaica com a origem grega é a intersecção fundamental e fundadora da nossa cultura.

A nossa memória cultural é incessantemente renovada retroactivamente pelas novas descobertas, pelos retornos às fontes, pelas reformas e pelos renascimentos que são bem mais que revivalismos do passado. O nosso helenismo não é exactamente o dos Alexandrinos, nem o dos padres da Igreja, nem o da Escolástica, nem o da Renascença, nem o do Iluminismo. O nosso passado não deixa de mudar de sentido: a apropriação presente do passado modifica aquilo que nos motiva das profundezas do passado.

Há cultural que só se aproximaram nas reflexões dos eruditos e que, na realidade, ainda não produziram um encontro que pudesse transformar radicalmente a nossa tradição – é o caso das civilizações do Extremo-Oriente. É isso que explica que uma fenomenologia orientada pela questão filosófica de origem grega não possa fazer justiça às grandes experiências da Índia e da China. E é aqui que se tornam evidentes não só a contingência da nossa tradição como também o seu limite.”
           
Pelo mesmo diapasão afinou George Steiner  in «No castelo do Barba Azul»
Não é o passado literal que nos governa, salvo, possivelmente, num sentido biológico; são as imagens do passado. Quase sempre essas imagens são tão estruturadas e selectivas quanto os mitos. As imagens e sínteses mentais do passado são impressas, quase à maneira de informação genética, na nossa sensibilidade.

que, bem sopesadas as “coisas”, não diferem substantivamente das volutas interpretativas que o “amigo Ling”, chinês, deu a saber ao “amigo A.D.”, francês, segundo André Malraux em «A tentação do Ocidente» — uma encruzilhada para que nos precipitámos, e face à qual tão indecisos estão os “guias” quanto os “caminheiros” desta jornada.
os europeus, escuto-os, e creio que eles não compreendem o que é a vida. Inventaram o diabo. Felicito-os pela sua imaginação. Mas desde que o diabo morreu, parecem-me vítimas de uma mais alta divindade da desordem: o espírito. 
O vosso é feito de maneira tão singular que da vida apenas podeis conceber fragmentos. Dirigi-vos sempre para um fim e nisso vos empenhais inteiramente. Quereis vencer. Nós não queremos conceber a nossa vida senão no seu conjunto. Sabemos que este todo ultrapassa cada um dos nossos actos. A vida é uma sucessão de possibilidades e a importância que dais a certos actos que vos perturbam, por não terdes sabido compreender que saõ secundários, não provirá de uma inteligência desatenta e talvez mal preparada por uma religião que tão incessantemente vos faz crer na existência particular. A custo compreendeis que para ser é necessário agir e que o mundo vos transforma muito mais do que vós o transformais…As paixões que sentis, em vez de organizarem o mundo em favor do seu objectivo, desagrega-vos. Não agem sobre os «valores», mas sobre a intensidade das coisas. A coerência só existe no reino do espírito, e é esse o vosso drama.
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Tanto que nós pensamos e que falamos e julgamos que somos competentes e na verdade não somos, essa é a comédia, e quando perguntamos como é que vai ser agora? é a tragédia. De que serve a exaltação ante o poder, se não se é imperador? Se tivesse de me submeter à ordem, desejaria que ela fosse feita para mim, e não eu para ela…

É deste láudano que raríssimos são os que tomam, e poucos mais serão os que provam. Mas é este láudano que, nos dias de hoje, tanta falta nos faz!
Nada há mais difícil de reproduzir do que aquilo que um homem pensa.
R. MUSIL – O homem sem qualidades

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Um esquisso em sete riscos



Em 25.08.2016 escrevi «Ou estúpidos ou sacanas ou sacanas estúpidos» para afirmar que, ao contrário do que alguns “bestialistas” advogavam sobre o impacto orçamental da recapitalização da CGD, tudo se arranjaria por forma a «nada se passar». Hoje está confirmado que «nada se passou», além de um solavanco. E o percurso do governo é heróico. Em 2017 tratar-se-á disso.

Em 06.06.2016 escrevi que era estulto “nadar contra a corrente” e que por isso, melhor seria boiarem – a malta já estava a sentir-se confortável. Hoje o conforto é óbvio — a sondagem DN/JN/RTP/Antena1 espelha que, em “legislativas”, o PS aprestar-se-ia para (sem apêndices tácticos) agarrar 43% (limiar da maioria absoluta). Ora eu creio que alcançaria a maioria absoluta, mesmo.

Hoje, João Pereira Coutinho, escreve «O método da loucura» [sobre a dívida pública, que não tira o sono a ninguém]. Na mouche! Há três anos Daniel Bessa, exclamou: “Lá chegaremos!”
Há dias “anotei” isso. E se dúvidas tive quanto à estratégia dos «sócios da associação governativa», deixei de as ter na transata semana — Mário Centeno, em entrevista ao jornal Bild, não desperdiçou a oportunidade de verbalizar a «premente necessidade em discutir um perdão alívio da dívida grega», cumpriu. Atrás da grega virá a portuguesa com o contributo dos efeitos (negativos) do Brexit, o desandar da economia francesa, o resultado do referendo italiano, o susto nas eleições francesas, a provável derrota de Angela Merkel, as pressões de Erdogan sobre a UE, a subida das taxas de juro por parte do Federal Reserve, a inflação importada, etc

«La nôtre gauche» aposta firme nisso. Se lograrem a “tesourada” é a glória — os custos implícitos (tremendos) estarão justificados e nessa conformidade, haverá uma “narrativa” eficaz; se não lograrem o passo seguinte não será menos airoso — dirão que apesar do “peso” do serviço da dívida conseguiram o que conseguiram e se mais não fizeram, o impedimento foi a União Europeia – os termos da narrativa, na prática, mantém-se incólumes. Ou não nos corresse nas veias o encanto pela responsabilização dos outros.

Passaram dois anos desde que escrevi que o BE devia deixar-se de fitas e enfileirarem no PS [recompor a forma e o conteúdo da esquerda socialista]. O PS agradeceria e as “notabilidades” bloquistas (presentes e futuras), também – opinar sobre os destinos da massa é uma coisa; outra bem diferente, para melhor e com maiores proveitos, é meter as mãos na massa! O que falta para completar esse caminho? falta o PS conseguir que a expressão eleitoral do BE em legislativas volte a ser efectivamente irrelevante.

Como estão a conseguindo as “coisas”? pelas mais variadas formas e processos. Por exemplo: procrastinando [um atributo que nenhum socialista, digno, deixa por mãos alheias] – Estadodeve 1.100 milhões /Dívidas dos hospitais públicos, às farmacêuticas e dispositivos clínicos, aumenta ao ritmo de 18 milhões/mês.

De quando em vez parece recrudescer e encrespar-se o “debate” de cariz ideológico. Nada mais falso para construir uma percepção errada. Em 03.01.2014, escrevi “O bolso é o algeroz por onde escorrem as ideias, as opções políticas e a consciência social. Mais do que isto é esbanjamento. Ou proselitismo. E é tudo!”, citando Monteiro Lobato – «A consciência do homem comum mora no bolso».

Em 1972, Jorge de Sena escreveu a Vittorio Cattaneo, dizendo-lhe

"Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas (...) E tudo, meu caro, deve ser medido por esta triste verdade, que, como estudioso de Portugal, V. deve ter sempre em mente: aquilo foi sempre um país de filhos da puta, apenas com algumas honrosas excepções, entre as quais me conto. Puta que os pariu, com perdão de algumas senhoras decentes que não tiveram culpa de dar à luz os cabrões que deram. Podre é que aquilo é, irrecuperavelmente podre."

Há muito quem, ao ler isto, suba aos céus. É pena! — esta contumaz verborreia não o impediu de gratificar-se pela recepção que lhe proporcionaram no «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» na cidade da Guarda, em 1977, quando cá veio discretear sobre os interstícios da obra camoniana. E nem esta, e tantas outras, obstaram a que os familiares se sentissem constrangidos e negassem a reinumação dos EUA para Portugal.
  
Se a coerência, realmente, não é uma qualidade humana, da consistência é melhor não falar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O visionário



«Um certo olhar» é o nome de um programa radiofónico da Antena 2 — Luís Caetano [anfitrião apresentador/moderador], Luísa Schmidt, Gabriela Canavilhas [paineleiras anfitriãs] e um convidado [personalidades ilustres, claro]. 
No pretérito dia 19, tratando-se de um «breve olhar sobre a história da internet, a Web Summit, as redes sociais», o ilustríssimo convidado foi José Magalhães. 
É de boa educação, e melhor tom, que seja feita a apresentação do convidado. No caso “um homem das leis, da política, das novas tecnologias…um visionário” (sic). Certo que a cortesia quase sempre franqueia os portões à hipocrisia e faz dos corteses, bajuladores mas, francamente, “visionário” é tudo isso, e um salvo-conduto à mais refinada idiotia. 
No decurso da autodiegética «epopeia» foi-me facultada a excelsa (por desconhecer se escreverá as memórias ou, caso as escreva, se as publica) oportunidade de ficar a saber que foi o “visionário” quem, na década de noventa, foi ter com o António Câmara, co-fundador da Ydreams e [à semelhança do que fez Ulisses quando se fez amarrar ao mastro da embarcação por forma a impedir-se de reagir ao ladino canto das sereias] o desamarrou do mastro da inércia tecnológica; terá sido a sua “visão” que removeu todas as dúvidas, suspeitas enfim, os escolhos que tolhiam a decisão do técnico/professor/empreendedor António Câmara. Em suma: em Portugal, neste domínio, se estamos como estamos, e estamos bem, à visão de José Magalhães, José Pacheco Pereira (uma citação) e a Diogo Vasconcelos (alusão de Luísa Schmidt - nota de rodapé) o devemos.
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O que me vale é que leio, ouço ou vejo cada vez menos estas sumidades —  para os estudiosos vindouros autênticos «hápax legómenon» e, se ainda o faço, é a curiosidade «da criança a observar as formigas num carreiro para ver se há, ou não, alterações de “comportamento”» que me move.
O meu olhar!