sexta-feira, 31 de julho de 2015

Da transumância

Isto anda tudo invertido – nas direcções, talvez; nos sentidos, com certeza.

Existe um manancial de razões, e mais um inumerável rol de factos, que deveriam suscitar profundas dúvidas e desapressar o tropel dos racionais. Não é isso que sucede, porém. Tudo, mas tudo, inspira e promove que a transumância devesse estar a ser feita de norte para sul com múltiplas vantagens quer para os que ficaram quer para os forasteiros; acontece que é feita em sentido inverso – de sul para norte.
A(s) ciência(s) têm um nome para isso – inteligência. Os racionais incham com isso.

Fossem os irracionais dotados de inteligência [se a tivessem seriam racionais!] que lhes filtrasse a orientação e determinasse a oportunidade, há muito se tinham extinguido.
A(s) ciência(s) também uma designação para isto – instinto. Os irracionais, à deriva, sem afectos e com a ambição cerceada pelo estômago, não se importam com isso.

A inteligência atrapalha o(s) instinto(s).

E assim quase se demonstra que os “modernos” são infinitamente mais estúpidos do que os “antigos”. Ou que padecem de um profundo problema de “foco”.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Por vezes a democracia é um incómodo



Foi grande o burburinho causado pela comunicação [com que marcou a data das eleições legislativas] do PR. Disse a criatura algo inusitado? Não. Propõe-se fazer algo que desrespeite a Lei Fundamental? Não. Então porque ficaram tão irritadiços, os partidos? ou melhor, porque ficaram os socialistas [mais a fileira de escoliastas e intérpretes perfilhados pela comunicação social] tão ásperos, tão amargos? Porque o PR os entalou, forte e feio.
Entalanço que só não será efectivo se das eleições sair uma maioria absoluta. À excepção de maioria absoluta a rapaziada vai ter de – a gosto ou contragosto – negociar e, consequentemente, mandar às malvas um rol de promessas, eleitorais, e outros tantas negociatas, intrapartidárias.
Um aborrecimento do tamanho da legitimidade política do PR para assim decidir. E do tamanho do escrupuloso cumprimento dos preceitos constitucionais.

sábado, 18 de julho de 2015

O samba-enredo



Se vão propulsionados a «Jato», hélice ou à vela, é o que menos interessa – o Brasil colhe os frutos do “milagre” sócio-económico [PIB a contrair mais de 1% - inflação (oficial) nos 10% enfim, recessão à vista] a que convictamente apelaram e que prontamente lhes foi amanhado pelas esclarecidas vanguardas do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), PT (Partido dos Trabalhadores),... com uma “descontinuidade”, aparente – Fernando Collor de Melo (de 1990 até à cassação do mandato) e Itamar Franco (de 1992 a 1995), ambos do Partido da Reconstrução Nacional (PRN)…andam nisto (lá como cá) –, a saltar da frigideira para o fogo ora do fogo para a frigideira, há trinta anos – desde Março de 1985, com José Sarney.


O Brasil é, há gerações, um colossal e riquíssimo legado disputado entre hordas de trapaceiros, cangaceiros e salteadores. E se o povo 1 – se mobiliza para levar às ruas a contestação, e a depredação de bens públicos e privados, a aumentos de centavos nos passes dos transportes públicos, mas 2 – assiste de forma impávida, e fazem disso um complemento de vida, a uma “guerra civil” que vai ao ponto de “sequestrar”, periodicamente, populações equivalentes às de uma cidade europeia, média, e  3 – segue o percurso da interminável enxurrada de imundície que jorra do Palácio do Planalto até à mais remota e esconsa prefeitura, como se se tratasse de uma novela,
merece o preço que paga pelo estacionamento – devem ser-lhe proporcionadas as condições para saborear o prato
— para as gerações mais antigas – muito samba, futebol e mais cachaça
— para as gerações mais novas – mais funk, futebol, muito crack, shots e chats
até lamberem o fundo.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Leónidas Mátyás Tsipras e os “persas”



Hoje, na sequência da referendada «nega» grega, Aléxis Tsípras, sinónimo de resistência, heroísmo, abnegação e glória, essa reencarnação de Leónidas (1), trouxe-me à ideia uma deliciosa estória de alfarrábio, contada e publicada por Michel Chrestien na então famosíssima «Le rire rouge» [de Lenine a Khrouchtchev, 1961]









Em 1946, Mátyás Rákosi (2), encontrou-se com Harry Truman em Washington.
Quanto ganha um operário americano? 
– Entre 20 e 100 dólares por semana. 
E quanto é que gasta? 
– … 40 e 50 dólares. 
Que fazem da diferença? 
– Não temos nada com isso; somos um país livre. E na Hungria, quanto ganha um operário médio? 
1000 florins por mês. 
– E quanto é que gasta? 
Entre 1200 e 1400 florins. 
– E aonde vão buscar a diferença? 
Ah! — explica Rákosi —, não temos nada com isso. Somos um país livre.



(1) Leónidas –, imortalizado por Simónides de Ceos – que, no desfiladeiro das Termópilas, à frente dos míticos trezentos espartanos, enfrentou o exército persa de Xerxes.

(2) Rákosi (1892/1971) foi secretario-geral do Partido Comunista Húngaro entre 1945 e 1956. Participou no governo bolchevique de Béla Kun. Na sequência da queda de Béla Kun, fugiu e refugiou-se na União Soviética. Regressou à Hungría com o Exército Vermelho. Instalado o governo, Rákosi, foi designado Secretário-Geral do PCH. De si próprio dizia ser «o melhor discípulo de Estaline na Hungria». Lidou com a “oposição” aplicando a célebre "táctica do salame" (eliminá-la fatia a fatia).

domingo, 28 de junho de 2015

Correspondência entre adultos, infantilizados


Faz uma semana, o Público (1) — num cioso serviço à «causa» —, deu à estampa a missiva (espontânea) que o sr. [prof. dr.] José Mattoso, historiador, resolveu endereçar a uma das mais refulgentes estrelas do firmamento político indígena, Rui Tavares, ideólogo e dirigente do não menos promissor partido-sindicato, Livre/Tempo de Avançar.

Não comentarei a espontaneidade e as demais razões –, todas genuínas e profundas, aliás – do ridículo exercício porque, a respeito, tudo remete para, pelo menos, António Gramsci – Escritos Políticos/ Os dirigentes e as massas – ou Norberto Bobbio – Os intelectuais e o Poder/Da presença da cultura e da responsabilidade dos intelectuais – e isso é, convenhamos, o mesmo que “fustigar-me” com a beleza de uma crisálida embebida em âmbar. 
Comento o que destaquei na dita (a) e somente para denunciar o cinismo e a hipocrisia subjacente a cada palavra e gesto desta progressista gente. Confessa-se alquebrado e desesperançado o Senhor Professor Doutor, historiador, Mattoso com o futuro. É, além de uma pena, 1 – literalmente a confissão de que apendeu pouco com a História em que se especializou e 2 – caso eu, ou outrém reconhecidamente menos progressista, escrevesse algo do género «Para qualquer lado que me volteeducação, assistência, economia, religião institucional, relações internacionais, adequação dos recursos naturais às necessidades básicas, saúde pública, clima, valores, dignidade humanaas perspectivas globais do nosso futuro parecem-me aterradoras» seria de imediato apodado de retrógado ou, dependendo do contexto, de irresponsável pelo teor apocalíptico ou prédica distópica.
Entre outras a CARTA também comprova que, à esquerda e à direita, a clarividência não é um substantivo «epiceno», digamos assim.


(1) o que vale mesmo é que toda esta rapaziada, «engajada», dos jornais e do esclarecimento, à minha pala deixou, há muitos anos, de poder pôr à mesa um pickle; quanto mais um bife! E maior é a satisfação em saber que, nesse sentido, a mais profunda vontade deles é uma impossibilidade. Há, como é notório, excepções. Mas sou eu que as determino, absolutamente; e sem que para isso tenha de pagar.

sábado, 27 de junho de 2015

Perseu (não) degolou Medusa



Não passava pela cabeça de ninguém — pela minha não passava, com certeza, e dos rastreios à imprensa internacional, nada de nada — que Tsipras resolvesse fazer o que fez – referendar a homologação do “negócio” com os credores. Como o que por aí mais se vê e lê é surpresa, espanto,… a propósito de quase tudo — do terrorismo nalguns dos saguões, e átrios do istmo, às angústias ecológicas de Sua Santidade; da diversidade de mantras instantâneos como o nescafé  às maravilhosas sinapses tsipricas e varoufakianas;…— “divaguei” sobre essa irrefragável forma de expressão dos idiotas. 
Longe de mim que, à noite, duas vagas — uma, de surpresa, por parte dos “exploradores”, financistas, neo-liberais, proto-fascistas,…e outra, de deslumbramento, da parte dos “espezinhados”, «solidários», asseclas e demais turiferários — correrriam o mundo
 
Um golpe num combate épico do tipo «Perseu (1) degolou Medusa (2

Vamos lá ver, então, com que se entretém a toleima. 
1 – Tsipras, o governo grego, encurralado, faz o preconizado nos manuais da guerrilha política, “progressistas”, e inúmeras vezes experienciado noutras geografias e contextos (com consabidos êxitos); 
2 – os dos Eurogrupo que, sem outro remédio, há muito fazem as contas às perdas imediatas com o calote grego o que quer dizer, que fazem contas às formas de as compensar em toda a linha, e tão depressa quanto possível, também – cedem, mas só até valores congruentes com o «momento de deformação» [talvez amasse, mas não desaba]. De forma curta e grossa
 – os “progressistas” gregos querem sair mas não têm coragem de decidir (daí o referendo) para não serem corridos à pedrada, praça Syntagma afora; os dos Eurogrupo estão fartinhos de os aturar, e pagar por isso (tanto mais que já os chuparam até ao tútano mas isso foi antigamente e com outros representantes, democraticamente eleitos, embora menos progressistas que os syrisikos) mas presos aos salamaleques do jurídico-legal, convencionado. Ou seja 
– Perseu degolou Medusa, na mitologia, mas o mundo anda agora pouco virado para floreados e ficcionices!

Haverá ocasião para instigar os portugueses a agradecer aos gregos os benéficos efeitos, supervenientes.

À especializada hoste de «geoestrategas», avençada, que agora se atropela nas televisões a debitar sobre espantalhos, aterradores, vale a pena dedicar a seguinte “entrada” — caso a Turquia saiba, e os turcos queiram, até pode ser que mais cedo do que tarde, a troca seja dez milhões de gregos por mais de 70 milhões de turcos.
Eu como não sou especializado, geoestratega, avençado,… devo acrescentar, apenas
– Creio saber de coisas piores!

Por ora, por aqui me fico. Isto, é como as cerejas… fervilhavam conjecturas,  congeminações e adivinhações, outras, com Jean-Christophe Rufin, J.Keane, a ditadura liberal, morte da democracia, democracia monitorial,…, pelo meio e mais o H.P.Minsky que os economistas pouco ou nada referem, e, por conseguinte, chega.


(1)    Tsipras, Varoufakis, Syrisa, ..., esquerda
(2)    UEM, FMI, Merkel, Bundesbank, ..., direita