quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O mau é acordar



Por algumas poucas semanas cheguei a convencer-me que andava profundamente enganado; quase cheguei a convencer-me que o lamaçal, afinal, é menos do que suposto; cheguei a suspeitar que naquele areópago, ONU, de ora em diante prevaleceriam coisas tais como Virtudes; desdenhei das impressões de Karl Kraus «O parlamentarismo é o aquartelamento da prostituição política», das palavras de Stanley Kubrick «As grandes nações sempre agiram como gangsters; as pequenas nações sempre agiram como prostitutas» e cheguei a crer que pela denodada acção dos homens, a bendita graça de Deus e a unção do Espírito Santo, finalmente deixaram de ser apropriadas e não mais do que meras percepções, subjectivas, de um “mundo de ontem” (Stefan Zweig).
E que este hospício (planetário) estaria a fruir de mais uma oportunidade, redimindo-se.
Aquela imperceptível e imperecível centelha de esperança personificada por António Guterres — lídimo e dos mais benquistos [Guterres, somos onze milhões!] filhos de uma nação que “deu mundos ao mundo” — estaria prestes a descerrar os portões a um quimérico Jardim das Delícias, político-diplomático.

De resto que significado atribuir à prometedora confluência de
1 – da sapientíssima, dulcíssima e humílima generosidade cristã de Mario Bergoglio na Praça de S. Pedro/Roma; 2 – o fim de uma guerra com meio-século na Colômbia, e o acolhimento e integração social de duas dezenas de milhar de homens-bons, desavindos; 3 – a irrefreável demolição do embargo a Cuba; 4 – a infinita paciência do mundo com as diatribes da Coreia do Norte; 5 – o contínuo e irreversível desbaste da corrupção na política brasileira; 6 – as limpezas cirúrgicas nas indústrias e comércio do dopping nos desportos; etc, etc, … e, sem acaso, 7 – depois de um [antes inimaginável] presidente negro (qualidade com que se distinguiu), 8 – de outra [antes improvável] presidentA nos EUA e para o ano que vem, 9 – António Guterres, no Palácio de Cristal, em Manhattan, no “fórum dos fóruns” a influenciar os «donos-de-tudo-isto»
que não seja(m) a materialização de desígnios divinos.

É evidente que essa minha auspiciosa dúvida teve fautores e fautrizes
— António Vitorino, profundo conhecedor dos meandros dessa tipologia dizia que “apenas por efeito de um gigantesco escândalo diplomático poderia não vir Guterres a ser eleito Secretário-Geral da ONU” como se a diplomacia fosse, pela sua natureza, menos ou diferente do que uma inimaginável cordilheira de escândalos de feitios e magnitudes inimagináveis;
— uma jornalista, Ana Sá Lopes, do particular rol “Ela e os Políticos” confidenciou
«1999 – uma colega conta-me que António Guterres – candidato a primeiro-ministro – tinha dito que o seu sonho era ser Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. O homem era candidato a primeiro-ministro e era muito provável que ganhasse as eleições. ACNUR? O que era aquilo? Um sonho, um desabafo? (…) muitos anos mais tarde percebemos que não se tratava de nenhum estado de alma passageiro.»
Fiquei a saber que o senhor com a obstinação de um místico filou a “Missão e o encargo” há décadas. É um sacerdócio, portanto!
o senhor professor doutor Adriano Moreira não faz as contas por menos, e escreve «o engenheiro António Guterres destacou-se como o estadista mais encorajado para assumir a tarefa, que inclui a reabilitação da ONU. Será mais um dobrar de sinos de finados da ONU a manobra de remeter o processo para uma opção de "instituição espectáculo", a favor de interesses protegidos por negociações ocultas e ilegais» caso contrário, «será apropriado levar flores ao túmulo de Dag Hammarskjöld [que Deus o tenha!].»

Corria isto pelo melhor quando [inesperadamente] ouço «A Bulgária mudou a sua candidata ao cargo de secretário-geral da ONU — é Kristalina Georgieva e é apoiada pela chanceler alemã, Angela Merkel (…)»

O que sucedeu foi que naquele meio lodoso brotou uma nova flor de lótus*. Outra! Se não estou equivocado já vai na dezena. É sinal de que o meio é propício, e recomenda-se. Não é em águas correntes, salubres e com fundos limpos, que enviçam as flores de lótus.



* simboliza a pureza, a sabedoria, a paz, a prosperidade,…

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Reportório perpétuo

Variações de Goldberg

Variação 28
«Toccata com um grande número de passagens com cruzamento de mãos.
A peça começa com um padrão — a mão direita toca três notas por compasso, criando uma linha melódica acima dos trinados tocadas pela mão esquerda. Segue-se uma "secção" em que ambas as mãos tocam em movimento contrário.» *
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Bom recital!



* Wikipedia

sábado, 17 de setembro de 2016

Ontem, hoje e amanhã



Do refinamento de uma ignota gentalha só pode resultar uma insigne escória.

Para reajustar a consciência ou minorar o risco de me equivocar — não vá, aqui ou ali, deixar-me levar pela reclamada qualidade dos “coisos” e essência da “coisa” — com a bosta que compõe o lodeiro aonde me atasquei — decerto para remir os meus pecados — não será, de certeza, com o recém-editado livro «Eu e os Políticos» da autoria de José António Saraiva que o farei.
Para perscrutar o actual patriciado sem me enganar, e sem necessitar de reajustamentos na alça e na mira, prefiro as «Cartas particulares a Marcello Caetano» [1º e 2º volumes] de José Freire Antunes que contêm uma (diminuta) parte da [deliciosa] correspondência de inúmeros invertebrados na maioria dos casos gente vil, cínica, obsequiosa, genuflectidos [é como levam a vida], — «Quando alguém percebe que o inimigo é mais fraco, fica-lhe com raiva; quando percebe que o inimigo é mais forte, fica-lhe com medo» (S. Tomás de Aquino) — crápulas que chupavam até mais não poderem nos úberes da “vaca fascista” para num ápice, num flic-flac, serem os mais indefectíveis e inveterados “democratas".
Enquanto cidadão o que me interessa – isso, sim – é que as “impressões” de Jorge de Sena exaradas em carta dirigida a Artur Portela Filho, 1978
«(…) apenas desejam sobreviver-se uns aos outros, à custa uns dos outros, e necessariamente ainda que não o digam nem confessem, à custa do povo português. Ninguém insiste em esclarecer o povo (…) Todos o que no fundo querem é desacreditar o vizinho, mesmo que isso seja feito à custa da ignorância de um povo inteiro, ou grande parte dele (…) Escândalo público é o erro que se não critica, o desmando que se não liquida, a tripa-forra que faz a gente pensar que a maior parte de algumas pessoas o que querem é almoçar no (…) e nos restaurantes do faduncho de luxo, e dormir com as putas (…)»

ainda hoje valem o mesmo que vale uma moeda de ouro, raríssima, para um numismata. Ademais José António Saraiva à semelhança de outros videirinhos não pretende legar “obra”; pretende fazer dinheiro – à custa de mundanidades. 

Em 2010, São José Almeida, jornalista (Público), deu à estampa algo do género «Homossexuais no Estado Novo» encomiasticamente recebido pela esquerdalha autóctone acolitados pelos “híbridos” da ILGA e demais rosáceas saltitantes que, agora, se remexem um tanto ou quanto indignaditas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O sotôr não conhece o doente!



Nas ciências naturais em que é fácil rebater, desmentir e contestar, os tolos podem ser úteis sem risco de serem perigosos; nas ciências humanas em que é difícil refutar, os imbecis podem ser perigosos sem utilidade sequer para os próprios.
   ~ Nicolás Dávila ~

Dias depois de eu ter escrito «“Coisar” coisas inteligentes» Robert Skidelsky, renomado economista, professor, “lord”, biógrafo de J.M.Keynes,…esteve cá para participar no Festival Internacional de Cultura de Cascais, palestrou e deu uma entrevista. Do que discreteou, destaco
no cravo — “a política de estímulos ao rendimento que o governo iniciou é demasiado tímida para ter efeitos visíveis na retoma. É uma escala muito, muito pequena. Quando se tem um nível de hiato do produto [distância entre o crescimento verificado e o potencial da economia] desta dimensão, subir pensões num montante mínimo não funciona. É preciso gastar muito dinheiro. Se a ideia é estimular a economia com dinheiro público então é necessário mais dinheiro. Muito mais dinheiro, e a uma escala europeia. Tem de o fazer com grande impacto. Um pequeno país não pode fazer muito por si só. Tem de ser algo à escala europeia: tem de ser um programa de investimento europeu muito, muito grande
na ferradura Portugal, como pequeno país na Zona Euro, só tem duas estratégias: ou aguenta e espera que as reformas do lado da oferta [muitas vezes referidas como reformas estruturais] tenham efeitos no tornar o país mais competitivo, e [ao mesmo tempo] espera por ajuda – a que conseguir das instituições da Zona Euro – ou opta por sair da Zona Euro com outros países, e ganha um instrumento adicional que é a taxa de câmbio
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Esperar efeitos milagrosos da manipulação da “taxa de câmbio” é um cavado engano. E sobre quem recai, e a que “preço”, o custo disso? Certamente que não será na minúscula classe possidente. E a grandeza intrínseca ou potencial da nossa economia aonde reside? No subsolo (submarino) da ZEE? Somos, acaso, a Grã-Bretanha? Se nos vemos em palpos de aranha para vingar enquanto parentes pobres do “grémio”, como ficaríamos fora dele?! Decerto não nos safaríamos com as vantagens (as tangíveis, leia-se, “com aquilo com que, até ver, se compram marmelos, papaias,…”) advenientes dessa "sublimação imperial" denominada CPLP.
No que se refere a estas reiteradas extrapolações (as virtudes de uma “taxa de câmbio” soberana) assemelham-se às que nos ensaios (simulações) são inscritas como factores incrementais – de amortecimento no caso dos «estabilizadores automáticos» [sem se questionarem de onde, como, quando e quem paga a factura] e de boost no caso dos «multiplicadores do crescimento» * como esta coisa fosse, e a respectiva comunidade se comportasse como se comportam os finlandeses na Finlândia ou os islandeses na Islândia.
A nossa máquina política e o “ambiente” em que a(s) máquinas operam produzem enormes perdas de energia, dissipam muita energia ou seja, a unidade de trabalho não é o resultado exacto do produto da força pelo deslocamento aliás, analogicamente aproxima-se mais da «lei da conservação da energia» (física).

* a seriedade do assunto deveria fazer do que sucedeu em 2012 as rectificações “os cortes orçamentais tiveram efeitos multiplicadores de curto prazo no produto maiores do que se esperava” de Christine Lagarde, Olivier Blanchard e Daniel Leigh v.g. FMI, um ensinamento imperecível. Não é o que sucede, e sempre por razões políticas e ideológicas.
Houve uma "subestimação" do efeito e o que há muito afirmo e reitero é que este efeito recessivo [por cada euro "poupado" com o ajustamento orçamental, o efeito recessivo no PIB varia entre 90 cêntimos a 1,7 euros e não de 50 cêntimos conforme fôra preconizado] é semelhante, na mesma medida, aos impactos dos multiplicadores de investimento [por cada euro investido na economia o efeito expansivo no PIB é, por ineficiências várias, inferior ao estimado] que são sobrestimados.
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a “confissão” ou o borrão na tela [surpreendido pela inexistência de um imposto sucessório]O quê, Portugal não tem um imposto sucessório?! Pensei que todos os países desenvolvidos tivessem

Eis o esplendor da ignorância de um técnico, douto!

E se houvesse?! Que expressão orçamental teria? Mas se por acaso tivesse uma expressiva receita a curto-prazo ficaria por saber se a médio prazo seria um bom negócio para o Estado.
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O que (est)as doutas personalidades desconhecem é a labirintica [em que cada “esquina” tem por função arrumar/encostar um “armário”] organização social portuguesa [é a isto que aludo quando atrás escrevi “dissipação de energia e ineficiência da máquina”]:

— não sabem nem sabemos nós os custos efectivos anuais na existência de 14 ou 15 sindicatos na PSP [15 sindicatos, 2740 dirigentes e delegados, 32 mil dias de dispensas gozadas num ano; um dos sindicatos tem 261 sócios, dos quais 249 são dirigentes e delegados];
— não sabem nem sabemos nós o preço que pago no Ministério da Educação por, ano após ano, décadas a fio, com milhares de professores com «horário-zero»;
— não sabem nem sabemos nós a real composição do tecido empresarial português. Exemplifico (garanto que o exemplo pode ser multiplicado por um factor de três dígitos e assim se ficará com uma percepção mais afinada do “universo”): 
1. 3 empreendedores detêm uma empresa comercial média (A)i) 3 sócios-trabalhadores, 2 colaboradores internos e 2 colaboradores externos (prestação de serviços de assessoria técnica); ii) facturação anual média de 600/700 mil euros; 
2. na empresa-mãe encavalitaram outras duas – i) a empresa (B), fictícia, cujo fim é a posse de parte do «imobilizado» e ii)  a empresa (C), fictícia, a quem a firma (A) paga pelos "serviços" prestados. 
Conclusão: na realidade 66% é virtual/pura ficção ou seja, são duas «empresas-parasita» cuja função (legal) é, por um lado, garantir a manutenção dos proveitos aos sócios e, por outro, justificar as escorrências/sorver os lucros por forma a que a empresa (A) veja reduzida à mínima expressão a tributação/fiscalidade.  
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O sotôr não conhece o doente!