quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

Um caldeirão por um pote

[Por economia, este texto não deve ser lido por quem acredite na estória da Bela Adormecida]

As afirmações coléricas e irresponsáveis que Mário Soares proferiu, ontem, à saída do E.P. de Évora aonde foi visitar o correligionário Sócrates são muito impressivas e, como exporei, sintomáticas.

Há exactamente um ano escrevi «[Poder] levar a mão ao pote» para, entre outras, dizer que [a verdade deve ser clamada quaisquer que sejam as circunstâncias] Mário Soares sabe mais a dormir do que os pascácios que por aí pululam [na comunicação social] com os olhos arregalados.

O caldeirão é vosso

Me parece que poucas vezes depois de 1974 houve luta pelo poder mais encarniçada e "surda" do que a que vivenciamos presentemente. A ferocidade com que o PS surge a cerrar fileiras e a terçar armas em redor de Sócrates não é inusitada e a razão por que surge o PS a arguir, desabridamente -- por um lado, contra a judicatura em geral e contra o juiz Carlos Alexandre em particular e por outro lado, a pretender que a prisão de Sócrates seja “tratada”, “discutida”, “escrutinada” [ao contrário de todos os outros partidos com excepção de Marinho Pinto que, conjunturalmente, vê posto em causa muito do que almeja] numa perspectiva política --, nada tem de estranho, inédito e menos tem de inopinado.

A unidade não é o indivíduo mas um indivíduo social, um indivíduo que ocupa uma determinada posição na ordem social. Para compreendermos o indivíduo, temos de o estudar no seu enquadramento de grupo; para compreender o grupo, temos de estudar os indivíduos cujas acções o constituem
Solomon Asch (1952)

A cólera de Soares depois de ter ouvido Sócrates em “confissão” denota numa perspectiva meramente indiciária um mau sinal para Sócrates e, por consequência, para o PS – abreviando: ter-lhe-á sido confessado que meteu o pé na poça e azar, foi apanhado; por consequência ou i) a pressão e a confusão política se instalam de modo a lançar na opinião pública consistentes dúvidas e temor(es) ou ii) no estrito âmbito judicial, ele, Sócrates está feito e o PS receberá a factura, diferida, nas legislativas de 2015.
Nisto bate o ponto.

Daí a urgência da visita de ontem. Não podia ser hoje porque António Costa está à espera de “instruções” por forma a, sem precipitações, saber "como" e "com quem" deve preencher os orgãos partidários que vão a congresso no próximo fim-de-semana.

Em qualquer sociedade, o padrão de vida das pessoas e as suas condições de vida assumem as formas que assumem, não tanto porque alguém toma uma série de decisões a esse respeito, mas, em grande parte, porque se aceitam como adquiridos certos mecanismos, princípios, pressupostos – chame-se-lhes o que se quiser… há um poder inerente em mecanismos e pressupostos siciais anínimos – nas “instituições sociais”- e não apenas nos indivíduos ou grupos. O poder reside mais na rotina sem incidentes do que no exercício cosnciente a activo da vontade.
John Westergaar e Henrietta Resler (1976)

O que se joga?

para que o pote seja nosso

Joga-se ter o pote nas mãos que, convenhamos, é substancialmente diferente de poder levar a mão ao pote.
Tudo corria mais ou menos de feição até suceder isto. Era possível contar 1 - com maioria absoluta em 2015 e caso António Guterres persistisse por muito mais tempo em titubear 2 -  fazer de Sócrates candidato à presidência da República em 2016 e elegê-lo. A acrescer à 3 - maioria dos municípios, que detêm, 4 - à presidência das duas Juntas Metropolitanas, 5 - à chefia do governo dos Açores, que detêm, 6 - à chefia do governo da Madeira que ganhariam ou, do mal o menos, retirariam ao PSD, 7 - a mudança do governador do BdP, 8 -  o poder de delimitar o exercício normal da PGR ou no limite convidá-la subrepticiamente à demissão, 9 - a alteração de forças no Tribunal Constitucional como consequência directa do resultado eleitoral e 10 - por fim o poder efectivo de intervir de forma explicíta ou não em mudar pedras e garantir fidelidades no topo e nas estruturas intermédias do aparelho da administração pública central.
As razões políticas que fundamentam a importância que tudo aquilo tem são, parecem-me, óbvias e outra(s) há, digamos sócio-económicas, menos óbvias ou imperceptíveis tais como
a)      apesar do delay que o PR, Cavaco Silva, acabou por impôr [ao não antecipar as eleições legislativas] no exercício de negociar os fundos estruturais europeus, os pacotes financeiros da Política de Coesão para 2014-2020 e agora
b)      os milhares de milhão do designado Plano Juncker que por cá aportarão
estas, são as vitais. E nesta guerra ainda lhes é possível cantar vitória, evidentemente.

Em política não se toma partido sobre «algo» baseado em valores ou ideias. Políticanão é isso. Política é poder e poder é a capacidade que alguém tem de determinar as acções dos outros ou seja, fazer com que os outros [por ameaça, manipulação, coacção ou “comissão”] façam o que se pretende que seja feito. A política trata de pessoas e meios e não de valores ou fins. O que trata de valores e fins é a filosofia, a religião,…

O resto são contos de fadas.



quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Agonia

O moribundo voltou aos espasmos

«Todo o PS está contra esta bandalheira (…) É tudo uma malandrice. A campanha contra ele é uma infâmia. Uma malandrice daqueles tipos que actuam e que não fizeram nada.  Afinal, o que é que ele fez? Isto não tem nada a ver com os socialistas. Tem que ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar.»

Postura

filosófica. Um bocadito cansativa, penso mas... enfim, os filósofos são macambúzios, contemplativos e matutam em francês. Outros há que ainda tocam piano... até os há que extenuados de tanta reflexão, imaginem, lhes dá para a porrada (em mulheres). Dizem...



sábado, 22 de Novembro de 2014

Anormal é a singularidade

assim como a excepcionalidade.

Anormal é a detenção do antigo primeiro-ministro, José Sócrates, ser facto singular e apreendida como excepcional. Isso é que não é normal.
De quando em vez [mais as vezes em que não do que as vezes em que sim, infelizmente] sucedem “coisas” [anormais pelo impacto que percepcionamos, terem] que
1 - esculpem a validade da “luta”
em 21.03.2013 [e foi a última vez que me dediquei a tal pústula] escrevi que «uma sociedade que admite que uma criatura [José Sócrates] deste quilate moral se mantenha à tona, não desmerece o que vive por mais que esbraveje, blasfeme ou escoucinhe.» e
2 – sugerem e sugestionam, erradamente, que a incisão bastará para repôr [na sociedade] o primado da normalidade.
Antes assim que o contrário ou nada, claro, mas não basta - a massa submersa continua a ser muito maior do que a emersa.

O "velho" Eurípides, contemporâneo de Sócrates, cogitou a aquiescência dos deuses à elasticidade humana
«Onde estão os limites da insolente impudência do homem? Se a vileza e a vida humana aumentarem nas devidas proporções, se o filho crescer sempre em iniquidade mais do que o pai, os deuses terão de acrescentar outro mundo a este de modo a que todos os pecadores possam ter espaço suficiente.»
Ora, para que este mundo nos baste, é necessário de forma estrenúe retirar espaço à vileza.

Um marco não basta para definir as estremas; sempre pode vir alguém que os mude.

Para já, por agora, mas não mais do que isso

- Porreiro, pá!

Oferta
um excelente texto de Helena Matos


quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Ó..Ó... reparai em mim!

Não há bicho-careta que não saiba já [e ainda bem] que a Galp e a Ren resolveram testar a força do governo e a autoridade do Estado, fazer um braço-de-ferro à séria.
A recusa da Galp e da REN em “apresentar a  respectiva declaração fiscal” mereceria uma resposta mais forte e mais impressiva por parte da sociedade em geral e/ou de cada um de nós em particular.
No meu ponto de vista mereceria mas não é o que acontece, todavia.
É um assunto seriíssimo pelo impacto (e repercussões de índole diversa) que daqui poderá, eventualmente, resultar na medida em que as empresas energéticas não são as únicas passíveis de contribuição extraordinária; ao mesmo tem sido sujeita a banca (desde 2011) e as farmacêuticas.

Os partidos que, sem excepção, se atropelam para ver qual chega primeiro à frente das câmaras das televisões a verberar o pum que o parceiro do lado deu, face a um “ataque” desta dimensão e natureza "dos" e "aos" relapsos disseram nada.

Mau grado a seriedade, e a importância que atribuo à recusa contribuitiva, o certo é que a indignação tanto quanto sei restringe-se à babosa facebookeana e deu aso à cativação de espaço nos jornais com arrobos púberes inconsequentes como a «carta aberta» dirigida aos Exmos. Srs. Presidentes executivos da Galp e da REN rogando-lhes a divulgação que «dos pareceres que vos levam a não pagar a contribuição extraordinária sobre o sector energético»
Na minha opinião é uma garotice. Não seria caso o autor e remetente ao invés de afagar o ego obtendo aplauso generalizado nas redes sociais, correr pela produção e publicitação de um lastro de cidadania que o alcandore ao estatuto de desejado pelos partidos «com que mais se identifique» e olho nas legislativas de 2015, tivesse optado por declarar o empenho na denúncia, divulgação e implementação de um movimento social de renúncia, boicote, aos serviços da rede de distribuição de combustíveis da Galp, por exemplo - de forma a fazê-los a ponderar o peso económico-financeiro de 1 - não pagar a CE (contribuição extraordinária), pagando a parecística e 2 - ver ir por água abaixo a rede de distribuição de combustíveis ou uma redução apreciável de consumidores de gás natural na Galp Energia.

Não foi isso que fez nem terá sido a isso que se propôs até porque uma iniciativa dessas talvez representasse uma instigação a que o patrão o encostasse à parede e, no limite, despedi-lo além de - há que dizê-lo -  Portugal desmerece tamanha dedicação, de facto.

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Expandir a Fé

Miguel Frasquilho, presidente da AICEP, apresentou o Plano Estratégico para o biénio 2014/2016. Orçamentados trinta milhões de euros para divulgação, promoção, prospecção [de mercados para portugueses] e captação de investimento [em Portugal].

Será que desta vez nos vai apresentar e dizer algo diferente do que aqui foi dito e repetido pelos seus antecessores, Pedro Reis e Basílio Horta? atirou-lhe o entrevistador. E disse! disse que, no que concerne à designada internacionalização, a Agência irá estar presente em 12 novos mercados -- Timor-Leste, Cazaquistão, Coreia do Sul, Equador, GanaGuiné-BissauGuiné EquatorialNigériaSão Tomé e PríncipeSenegal, Finlândia e Noruega – e reforçará a presença em 26 mercados como será o caso da Turquia.
Mas continuamos a não ver vinhos portugueses, por exemplo, onde se vêem vinhos franceses, espanhóis, italianos, californianos, chilenos, ..., não se vêem os vinhos portugueses – retorquiu o jornalista.
Pois, mas isso tem muito a ver com a nossa dimensão que nos impede ter escala. Por isso optamos pela criação e de nichos [de mercado]
Atingi os limites da paciência e desliguei.

Supunha eu que dos quesitos fundamentais para a manutenção e incremento de um nicho [seja ele de que natureza fôr] fariam parte a oferta de produtos diferenciados, de enorme valor acrescentado incorporado por via tecnológica ou outra e, simultaneamente, supunha que o desiderato, no caso, seria a apresentação em mercados com alto poder aquisitivo ou, em alternativa, com uma garantia de enorme trânsito e onde a percepção, prospectada, seja de que exista uma propensão autêntica pela novidade, diferenciado enfim, por “coisas” de inquestionável qualidade, e caras.
Face aos quesitos expostos [que eu cria, vitais] fica patente de forma indubitável que é em Timor-Leste, Cazaquistão, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Nigéria, São Tomé e Príncipe que estarão os alvos, mercados que, sabemos, possuem populações de altíssimo poder aquisitivo, elevado nível cultural e de um genuíno e reconhecido encanto por tudo a que me refiro –vinhos finos e caros, porcelanas requintadas,vidros e cristalaria sofisticada, metais nobres – filigrana, tecidos refinados, roupas de griffe, flores e/ou frutos exóticos, cavalos lusitanos, carne bovina maronesa e/ou mirandesa, porco bísaro, enchidos e conservas gourmet, toda a parafernália de gadgets de 4ª geração, etc
por que não Nepal ou Mongólia, Panamá, Nova Caledónia, Ruanda, …?!
Mais tarde arrependi-me por ter desligado. Olvidei a importância (e a nobreza!) dos activos “intangíveis” a que eu dou importância reduzida mas a que líricos, nefelibatas, caudatários, apóstolos, mangas-de-alpaca,… não têm de submeter-se.

Há-de ser para expansão da Fé [de uma outra Nova, talvez, mas fé] à semelhança dos nossos ancestrais. Tanto mais que, convenhamos, fezes há muitas e para todos os gostos.

sábado, 8 de Novembro de 2014

Sentença

Perguntam-me se li e se há “sentença” sobre o «Ementário para a década» (socialista) - o “itinerário” da cobiçada “estrada de Damasco”.

Já o consultei e, enfastiado, dei-lhe o destino apropriado às coisas inócuas, irrelevantes.

Do “juízo”, aos outros, digo que 1 – Nietzsche, salvo erro, topou «vantagem em possuir-se memória má » por consentir «apreciar», sucessivamente, «as mesmas coisas como se fosse a primeira vez».
A democracia releva, refaz, redime, repristina e, 2 - em democracia, cada povo escolhe a maneira como se há-de matar. É assim!
Para mim, por maioria de razão e por enquanto, faço da inferência de Voltaire «não devemos avisar as pessoas do perigo que correm senão depois de ele ter passado», lema.

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

Nem uma cunha da Senhora d’ Apelação vos salvará

A ridícula
«a gravidade da situação da PT é incompatível com silêncios, omissões ou acomodações»
e hilariante
«as razões do descalabro e desmembramento da PT, no contexto da sociedade e da economia portuguesa, advêm, ao longo deste século, de graves erros, distorções, falta de visão estratégica nacional e diluição ética de diferentes níveis de decisão»
Apelação
(assim a denominaram os signatários ou designa a comunicação social) [deve ser para apelar ao sentimento],
que hoje faz cartaz da comunicação social, subscrita por dúzia e meia de personagens politicamente tão infrutuosas quanto socialmente inexpressivas... daquilo, ridícula e hilariante, não passa.
Duvido até que chegue para entreter a toleima.

A não ser “provas de vida” e “ais” por causa dos bicos de papagaio ou maleitas cardíacas, dali, nada sai; dali nada sai com interesse para a sociedade porque no fundo, no fundo e bem coado, cada um à sua maneira e no seu couto, nunca logrou superar as fímbrias que orlam, retêm e conformam os videirinhos por mais versáteis que sejam ou tenham sido. Além do mais, a maioria destes renomados cromos são relapsos e contumazes em demasia.


Vá-se lá saber porquê mas ninguém gosta de coveiros; eu também não. Os coveiros não choram.
~~~    ~~~

No transacto fim-de-semana vi, e gostei, Getúlio Vargas.
Getúlio, acossado, deprimido, a poucos dias de se suicidar, em conversa com o filho, médico, confessa

«Estou há mais de quinze anos no poder, filho… nunca me pediram o que fosse para o país; fizeram-no sempre para alguém»

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Ontem foi amanhã

uma bela crónica, esta, «a crise do euro tem um responsável claro, os sacanas dos bancos», de Ricardo Reis.

É evidente que nos bancos há (muitos) sacanas. Não será esse o problema, todavia. Talvez seja que a sociedade está pejada de sacanas e, antes dos bancos vem a política, pejada de sacanas da mais variada índole e de todas as cores. Ou deixou de ser verdade que «numa sociedade sã» [segundo os meus critérios] «é a “política” que comanda a finança»?... partindo do princípio que os sacanas sejam estes e as sacanices sejam tão contemporâneas quanto eles. Sucede que não é verdade uma coisa nem outra.
Como rémora, de par com essa arenga corre sempre uma outra, vocalizada pelos imarcescíveis quiçá imprescindíveis arlequins de teor justicialista [nas perspectivas aristocrática e da fina flor do entulho], justiceira [na perspectiva brega], ético-moralista [na perspectiva lírico-filosófica], etc… em que é verberada a dita promiscuidade.

Fazer um varrimento à intemporalidade da sacanice, dos sacanas da política e da finança, à promiscuidade e às esterqueiras onde uns e outros viceja(ra)m, etc e tal… está à disposição de quem queira -- à disposição e para todos os gostos e "sensibilidades".
Se há assuntos fascinantes, a «história da moeda» [uma sucessão de “episódios” de “génios” da finança, falidos e monumentais golpadas instigadas por políticos, não sancionadas ou melhor, sugeridas pelos Estados que ilustram de forma vivida o comportamento e a loucura humanas] é um deles.

Charles Keating, John Law, Luis XV, Tommaso Contarini, Robert Morris, Esquema do Mississipi, Bubble Acts, Companhia das Índias Orientais,… serão boas “entradas”.

Se fôr parvo, deslumbre-se; se não fôr, tampone os ouvidos.