sábado, 21 de maio de 2016

Com merda não se faz marmelada

A (nossa) sociedade não é sã e, como tal, está incapaz de gerar uma arquitectura institucional sã [ou regenerar a existente] e equilibrada na perspectiva da justiça e do respeito, que a todos e cada um é devido por parte daqueles em que delegamos poderes. 

Nos últimos dez dias foram proferidas por instituições de natureza e âmbitos diferentes [embora tenham como finalidade, última, a efectivação do Estado de Direito] duas decisões — um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa e uma "decisão condenatória" da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERCS) — que, me parece, espelham eloquentemente o desequilíbrio do nosso quotidiano e a emulsão conspurcada, contaminada em que estamos mergulhados. 
A percepção com que se fica é de um desequilíbrio atroz consequentemente, e até prova(s) em contrário, a de que o comum dos cidadãos, em situações parecidas, pura e simplesmente não pode aspirar em aceder a determinadas “benfeitorias” ou garantias do aparelho do Estado porque não há quem lhes apronte justiça. 
Não possuo competências em termos de “ciência”, doutrina jurídica ou teoria do Direito para rasurar proposições, mas assiste-me o direito de ajuizar – essa consignação corre-me no sangue escorada pela razão e pelo inalienável direito ao livre-arbítrio e não há filho-da-puta [da política, judicatura, ciência, religião, …] que mo coarte ou coaja. Não é, no entanto, isso que me importa; importa-me, sim, convocar alguém a explicar-me 
Qual foi o “agravo”, “delito” ou “transgressão” mais nefasto para a sociedade? e
são ou não, nestes termos, mais prejudiciais para a sociedade as "objurgatórias"? 

— A “escarradela” do ex-tenente-coronel Brandão Ferreira, via jornal O Diabo e blog pessoal «O Novo Adamastor», nas fuças do traidor Alegre
— “o cidadão MA quando foi para Argel não se limitou a combater o regime, consubstanciado nos órgãos do Estado, mas a ajudar objectivamente as forças políticas que nos emboscavam as tropas (…) incitou à deserção das tropas portuguesas e ao não cumprimento do dever militar e promoveu actos de sabotagem contra o esforço de guerra português” em suma “cometeu actos de traição à Pátria” —
e que o cominou em indemnização ao lírico de 25 mil euros? ou
— A irresponsável, imprudente, encomendada, …“notícia” da TVI sobre a eventual, mas eminente, falência do Banif que comprovadamente precipitou uma corrida dos clientes aos depósitos ou seja ao levantamento, num ápice, de 800 milhões de euros?
e que lhe valeram 1 – para já, o pagamento de uma taxa por encargos administrativos de 459 euros; 2 – no futuro, talvez, uma coima máxima de 3 milhões de euros e, 3 – supletivamente, na leitura da «exortação» admoestante do “regulador”
— “não auscultou o Banif, nem, aparentemente outras entidades interessadas, em momento prévio à difusão das informações identificadas, omissão esta que consubstancia inobservância do dever de auscultação prévia das partes com interesses atendíveis na matéria noticiada, tal como prevê o artigo (…), alínea (…) do Estatuto do Jornalista (…) sem existir inteira segurança quanto à fiabilidade dos elementos (…) é uma decisão editorial criticável à luz das mais elementares boas práticas jornalísticas (…) A matéria noticiosa era dotada de relevante interesse público e jornalístico e, passível, além disso, de provocar considerável impacto na vida de muitas pessoas e nos destinos da própria sociedade portuguesa, pelo que, também por esse motivo, se justificavam cuidados redobrados na confirmação da veracidade da informação obtida e sua subsequente divulgação (…) não houve cuidado na linguagem” —
[do repertório de “canções de embalar” para a boiada]. 
Cada vez tenho menos dúvidas de que 1 quanto mais livre se julga o homem, mais fácil é doutriná-lo: antigamente o progressismo convencia os incautos oferecendo-lhes a liberdade; actualmente basta oferecer-lhes alimentos e 2 ao Estado já não basta que o cidadão se resigne porque o Estado pretende cúmplices. 

Não é com merda que se faz marmelada!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Da enxovia


Lá vai o tempo em que a «coisa» (fotografia anexa) bem como a realidade que lhe dava forma e conteúdo, — todas essas «coisas» independentemente dos choços em que se acolhem e pias aonde atestam os bandulhos —, me suscitavam muitas palavras de denúncia, impugnação, repúdio, lamento,… No presente isso dificilmente sucederá.
É bovarismo? Não, não é. É – depois de muita ilusão, esperança, algum estudo, muita conjectura,… – selectividade, presumo.  E desdém pela irrelevância.

Adquirido, enquanto consequência, que o que o mundo pretende é que aprovemos o que sequer deveria atrever-se em pedir que toleremos e que ao Estado não basta que o cidadão se resigne dado que pretende cúmplices o que realmente me “entusiasma” é/são a(s) causa(s). Ora, a causa primaz é que a porta da realidade é horizontal.
O que, aberta a porta, aparece é que difere. Esta, a nossa, é para manter fechada.

 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pasmo a estranheza de Camilo Lourenço; não estranho o munífico dr. Centeno.


Camilo Lourenço escreve que o dr. Centenoé um técnico prestigiado” pelo que “surpreende que afirme não pensar cortar salários e pensões até 2020 (…) Mais (…) também não pensa aumentar IRS, IRC e IVA até 2020. É estranho que alguém com a formação do dr. Centeno faça uma proposta destas”. E eu só tenho é de corroborar esse prestígio mas, ao contrário do Camilo Lourenço, não me causa estranheza alguma que o dr. Centeno profira afirmações deste calibre, e que leve tão longe as munificentes promessas – politique d’abord.
Camilo Lourenço podia até acrescentar que o prestígio advém do reconhecimento à competência técnica. E eu teria de acompanhar a proposição.
O Camilo Lourenço podia divagar mais um pouco e aduzir que o prestígio e a competência reconhecidas ao dr. Centeno são semelhantes ao prestígio e competência do dr. Teixeira dos Santos. E eu subscrevê-lo-ia sem engulhos. E o mesmo sucederia, caso metesse no saco os drs. Vitor Gaspar, Maria Luis Albuquerque, Luis Campos e Cunha, Bagão Félix,…
Afinal em que discordo de Camilo Lourenço?
Discordo pela inexistência de apreciações — concedo que infelizmente uma página de um jornal não é um livro — que saltam fora do que determina o prestígio e a competência técnica e/ou científica, mas “desenham” o carácter e inscrevem as fímbrias da concepção e da noção que cada qual — seja ele Centeno, dr, ou Centeno, carpinteiro — têm de dignidade. E nesta perspectiva — no caso, a minha — não há competência ou prestígio que valham!
O dr. Centeno, hoje, tal qual o dr. Teixeira dos Santos, há meia-dúzia de anos, o que demonstram é que não têm o menor pejo em atirar à pira a competência — deixo de fora o prestígio porque esse, por mais maltratado que fique, está sempre à disposição de umas parelhas de amigos ou de avençados ou de correligionários,… dispostos a recuperar-lho embora suspeite que não necessitará – é o que a experiência me diz — e, com toda a probabilidade, a sociedade sabendo naturalmente que, por mais desgraças que provoquem, a legitimidade democrática sempre estará ao seu serviço.
Pelo facto de na “contradita” ter invocado outras competentes e prestigiadas personalidades da ciência económica e da destreza financeira, tenho de explicar-me.
Explico-me com o dr. Luis Campos e Cunha
— o dr. Luis Campos e Cunha foi o único [pelo que julgo saber] que não arrematou a competência e o prestígio para não perder a “coluna vertebral”. Quando deu conta que tinha entrado para um bando de loucos, e estava emerso num caldo de insanidade política, arranjou maneira de escusar-se. Como ficou comprovado estava carregado de razões – todas pela melhor das razões. Escrevi-o na devida ocasião e reitero, agora. É evidente que o lugar não arrefeceu. É o arrefeces! à mão estava o prestigiado e competente socialista, Teixeira dos Santos, pronto para tudo em nome do  seu “prestígio e pela fé.

O dr. Centeno pode até, do alto da sua cátedra, exibir-se um sonhador. O que não aceito é que seja eu a ter de pagar compulsivamente as suas quimeras científicas e os seus devaneios técnicos; e ainda as vigarices (sem aspas) idiossincráticas e ideológicas do PS, e mais os caprichos de António Costa e dos seus acólitos. Por falar em vigarices (sem aspas), aproveito o ensejo para referir uma outra muito citada e por demais glosada mas que será, a prazo, tão grave se não mais – a lengalenga da «criação líquida de emprego».

Sal e Pimenta



1. Se a respeito de um assunto crê possuir um certo conhecimento mas não sabe se está certo, se é verosímil, se é provável ou meramente conjectural então sabe nada sobre o assunto. A ponderação do(s) conhecimento(s) é uma vertente do conhecimento. Se não consegue efectuar uma uma avaliação clara do(s) conhecimento(s) adquiridos então não distingue «o que sabe» e «o que ignora» o que, na mais benévola ou pia das minhas intenções, é do domínio do «julga saber». Um dos princípios da sabedoria é a resignação ao erro. E contribui para essa resignação a capacidade de efectuar aquela ponderação. 
Poucas coisas são mais perigosas do que a ciência de um ignorante.


2. Um tonto não se inquieta por aí além quando lhe dizem que as suas ideias são falsas; fica apavorado quando lhe dizem que passaram de moda. Ora, um dos maiores triunfos da ciência, quiçá o maior, reside na velocidade com que um imbecil pode transferir a sua imbecilidade de um “lugar” para “outro”.

3. Há duzentos anos era razoável confiar no futuro sem que, para tanto, carecesse ser absolutamente estúpido. Uma vez que hoje somos aquele extraordinário futuro, quem crê nas profecias actuais? Tanto mais que os pessimistas profetizam um futuro de escombros mas infelizmente os optimistas são ainda mais mais assustadores – profetizam as cidades do futuro como autênticas colmeias de escrotice e tédio.
 

domingo, 17 de abril de 2016

Paisagem mental



É certo que o texto em epígrafe versa um “domínio”, e subjaz-lhe uma “vocação” — o “domínio” é o da estratégia/marketing/comunicação/logística nos negócios; a “vocação” será a esteira da implementação e consolidação de «marcas» no mercado. Mas também é certo que, independentemente do objectivo a que se propõe, uma apreciação difusa ou equivocada, elaborada em termos abstractos ou específicos, gera uma diagnose errada. E ainda é certo que os termos, as designações e os conceitos existem para alguma coisa, exacta.
Leio, no Público,

«a  geração Z, formada por jovens que têm actualmente até 18 anos, destaca-se pela sua multiculturalidade e desapego pelas fronteiras geográficas. (…) adoptam um comportamento individualista e até algo antissocial, afirmando que se tivessem de escolher um mês a viver sem tecnologia ou sem amigos, optariam pela tecnologia (…) Apesar do comportamento pouco social impulsionado pelas relações cada vez mais alimentadas virtualmente, (…) são muito rigorosos e é necessário ser-se prudente quando se comunica com a geração Z. (…) preferem conteúdos produzidos pelos seus semelhantes e tendem a confiar mais em influenciadores – bloggers ou youtubers – do que em celebridades. (…) Críticos e autónomos (…) são especialistas em filtrar e bloquear conteúdos de que não gostam, bem como promover partilhas virais (…)»

— como pode alguém individualista e mais, “algo antissocial” – o que equivale a presumir que indo por aí, sem dificuldade, se chega à misantropia – ser multiculturalista?
— como se pode cunhar “muito rigoroso” alguém “proprenso em filtrar e/ou bloquear”? e que, como revela a autora da exortação [respaldando-se em amostras empíricas, imagino], tendem a confiar mais em influenciadores*bloggers ou youtubers – do que em celebridades*? [e se se cuidar da qualidade dos elementos que podem compôr os conjuntos – influenciadores e celebridades –… no “limite”, o espanto fica indisfarçável]
— como se divisa e define “crítico e autónomo” alguém tão atreito às acções que outros (ou coisas) exercem sobre si?

Enfim… não recordo quem, mas alguém escreveu que a prolixidade se revela mais pela míngua de ideias do que pela fartura de palavras — “sentença” que subscrevo. E mais: parece-me óbvio que pior que escasso é errado.

Esta maltinha não sabe a quantas anda! É do que se trata.