sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pasmo a estranheza de Camilo Lourenço; não estranho o munífico dr. Centeno.


Camilo Lourenço escreve que o dr. Centenoé um técnico prestigiado” pelo que “surpreende que afirme não pensar cortar salários e pensões até 2020 (…) Mais (…) também não pensa aumentar IRS, IRC e IVA até 2020. É estranho que alguém com a formação do dr. Centeno faça uma proposta destas”. E eu só tenho é de corroborar esse prestígio mas, ao contrário do Camilo Lourenço, não me causa estranheza alguma que o dr. Centeno profira afirmações deste calibre, e que leve tão longe as munificentes promessas – politique d’abord.
Camilo Lourenço podia até acrescentar que o prestígio advém do reconhecimento à competência técnica. E eu teria de acompanhar a proposição.
O Camilo Lourenço podia divagar mais um pouco e aduzir que o prestígio e a competência reconhecidas ao dr. Centeno são semelhantes ao prestígio e competência do dr. Teixeira dos Santos. E eu subscrevê-lo-ia sem engulhos. E o mesmo sucederia, caso metesse no saco os drs. Vitor Gaspar, Maria Luis Albuquerque, Luis Campos e Cunha, Bagão Félix,…
Afinal em que discordo de Camilo Lourenço?
Discordo pela inexistência de apreciações — concedo que infelizmente uma página de um jornal não é um livro — que saltam fora do que determina o prestígio e a competência técnica e/ou científica, mas “desenham” o carácter e inscrevem as fímbrias da concepção e da noção que cada qual — seja ele Centeno, dr, ou Centeno, carpinteiro — têm de dignidade. E nesta perspectiva — no caso, a minha — não há competência ou prestígio que valham!
O dr. Centeno, hoje, tal qual o dr. Teixeira dos Santos, há meia-dúzia de anos, o que demonstram é que não têm o menor pejo em atirar à pira a competência — deixo de fora o prestígio porque esse, por mais maltratado que fique, está sempre à disposição de umas parelhas de amigos ou de avençados ou de correligionários,… dispostos a recuperar-lho embora suspeite que não necessitará – é o que a experiência me diz — e, com toda a probabilidade, a sociedade sabendo naturalmente que, por mais desgraças que provoquem, a legitimidade democrática sempre estará ao seu serviço.
Pelo facto de na “contradita” ter invocado outras competentes e prestigiadas personalidades da ciência económica e da destreza financeira, tenho de explicar-me.
Explico-me com o dr. Luis Campos e Cunha
— o dr. Luis Campos e Cunha foi o único [pelo que julgo saber] que não arrematou a competência e o prestígio para não perder a “coluna vertebral”. Quando deu conta que tinha entrado para um bando de loucos, e estava emerso num caldo de insanidade política, arranjou maneira de escusar-se. Como ficou comprovado estava carregado de razões – todas pela melhor das razões. Escrevi-o na devida ocasião e reitero, agora. É evidente que o lugar não arrefeceu. É o arrefeces! à mão estava o prestigiado e competente socialista, Teixeira dos Santos, pronto para tudo em nome do  seu “prestígio e pela fé.

O dr. Centeno pode até, do alto da sua cátedra, exibir-se um sonhador. O que não aceito é que seja eu a ter de pagar compulsivamente as suas quimeras científicas e os seus devaneios técnicos; e ainda as vigarices (sem aspas) idiossincráticas e ideológicas do PS, e mais os caprichos de António Costa e dos seus acólitos. Por falar em vigarices (sem aspas), aproveito o ensejo para referir uma outra muito citada e por demais glosada mas que será, a prazo, tão grave se não mais – a lengalenga da «criação líquida de emprego».

Sal e Pimenta



1. Se a respeito de um assunto crê possuir um certo conhecimento mas não sabe se está certo, se é verosímil, se é provável ou meramente conjectural então sabe nada sobre o assunto. A ponderação do(s) conhecimento(s) é uma vertente do conhecimento. Se não consegue efectuar uma uma avaliação clara do(s) conhecimento(s) adquiridos então não distingue «o que sabe» e «o que ignora» o que, na mais benévola ou pia das minhas intenções, é do domínio do «julga saber». Um dos princípios da sabedoria é a resignação ao erro. E contribui para essa resignação a capacidade de efectuar aquela ponderação. 
Poucas coisas são mais perigosas do que a ciência de um ignorante.


2. Um tonto não se inquieta por aí além quando lhe dizem que as suas ideias são falsas; fica apavorado quando lhe dizem que passaram de moda. Ora, um dos maiores triunfos da ciência, quiçá o maior, reside na velocidade com que um imbecil pode transferir a sua imbecilidade de um “lugar” para “outro”.

3. Há duzentos anos era razoável confiar no futuro sem que, para tanto, carecesse ser absolutamente estúpido. Uma vez que hoje somos aquele extraordinário futuro, quem crê nas profecias actuais? Tanto mais que os pessimistas profetizam um futuro de escombros mas infelizmente os optimistas são ainda mais mais assustadores – profetizam as cidades do futuro como autênticas colmeias de escrotice e tédio.
 

domingo, 17 de abril de 2016

Paisagem mental



É certo que o texto em epígrafe versa um “domínio”, e subjaz-lhe uma “vocação” — o “domínio” é o da estratégia/marketing/comunicação/logística nos negócios; a “vocação” será a esteira da implementação e consolidação de «marcas» no mercado. Mas também é certo que, independentemente do objectivo a que se propõe, uma apreciação difusa ou equivocada, elaborada em termos abstractos ou específicos, gera uma diagnose errada. E ainda é certo que os termos, as designações e os conceitos existem para alguma coisa, exacta.
Leio, no Público,

«a  geração Z, formada por jovens que têm actualmente até 18 anos, destaca-se pela sua multiculturalidade e desapego pelas fronteiras geográficas. (…) adoptam um comportamento individualista e até algo antissocial, afirmando que se tivessem de escolher um mês a viver sem tecnologia ou sem amigos, optariam pela tecnologia (…) Apesar do comportamento pouco social impulsionado pelas relações cada vez mais alimentadas virtualmente, (…) são muito rigorosos e é necessário ser-se prudente quando se comunica com a geração Z. (…) preferem conteúdos produzidos pelos seus semelhantes e tendem a confiar mais em influenciadores – bloggers ou youtubers – do que em celebridades. (…) Críticos e autónomos (…) são especialistas em filtrar e bloquear conteúdos de que não gostam, bem como promover partilhas virais (…)»

— como pode alguém individualista e mais, “algo antissocial” – o que equivale a presumir que indo por aí, sem dificuldade, se chega à misantropia – ser multiculturalista?
— como se pode cunhar “muito rigoroso” alguém “proprenso em filtrar e/ou bloquear”? e que, como revela a autora da exortação [respaldando-se em amostras empíricas, imagino], tendem a confiar mais em influenciadores*bloggers ou youtubers – do que em celebridades*? [e se se cuidar da qualidade dos elementos que podem compôr os conjuntos – influenciadores e celebridades –… no “limite”, o espanto fica indisfarçável]
— como se divisa e define “crítico e autónomo” alguém tão atreito às acções que outros (ou coisas) exercem sobre si?

Enfim… não recordo quem, mas alguém escreveu que a prolixidade se revela mais pela míngua de ideias do que pela fartura de palavras — “sentença” que subscrevo. E mais: parece-me óbvio que pior que escasso é errado.

Esta maltinha não sabe a quantas anda! É do que se trata.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Patinhar



A. Resolvi fazer uma experiência. Da leitura a um blog da m/preferência editei, no Facebook, «As putas do Panamá». Sabendo de antemão a “importância” dos bonequinhos e dado que no post original não os havia, resolvi juntar-lhe uma fotografia. Resolvi submeter-me à letra do título e editei uma fotografia de uma prostituta pernas abertas ao pagode. Resultado: os acessos à página quadruplicaram, comparativamente à média, mas menos de 10% das visitas ficaram registadas com «Ver mais» – significa que menos de 10% se dispuseram a ir à “fonte” ler o texto. 
A providência ministra o embrutecimento, compassivamente  
Gómez Dávila

B. Hoje da leitura às “secções opinativas” da imprensa – Público, Diário de Notícias, Observador, Diário Económico, Correio da Manhã, Dinheiro Vivo – … de dezassete textos destaquei três — dois [«A ambição é motor de progresso» de Eugénio Viassa MonteiroO partido da mobilidade social (descendente)?» de Elísio Estanque] pelas piores razões e outro [«40% das empresas vão morrer nos próximos 10 anos» de Nuno Cintra Torres] pela melhor das razões.

1. O texto de Eugénio Viassa Monteiro é a vários títulos “chover no molhado”, não acrescenta um avo e, pior, é de uma rudimentaridade! – enviesada, pelo facto de o autor ignorar que “o Rossio não cabe na Betesga”
«A situação “todos bem e contentes” é acomodatícia. Os países europeus viveram uma longa abastança, em parte por mérito próprio (…) e, em boa parte, da transferência da riqueza das colónias (veja-se a desgraçada exploração da Índia pelo Reino Unido). (…) Sem problemas, a força criativa do espírito jovem aborrece-se. (…) Felizmente, parte das colónias espezinhadas despertaram após a independência e retomaram o brilho intelectual e a capacidade de inventar e produzir, como sempre tinham feito antes da colonização. (…)»

2. O texto de Elísio Estanque não passa de um “panfleto” de cariz político-social. Diferente não seria expectável, convenhamos. Faz parte do contraditório doméstico ao pugnado por Paulo Rangel naquele mesmo jornal. Elísio Estanque está “enquadrado” pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Elísio Estanque fora desse “líquido” é um peixe morto que não consegue nem mais nem melhor do que
«Uns tempos sem vir a Lisboa e eis que me sinto num lugar algo deslocado; um lugar que acolhe gente de multiplas origens, etnias e crenças; mas que espelha nas suas poses uma paisagem incaracteristica e de abandono; uma Lisboa policromática e de gente sofrida, mas artificial e (quase) sem lisboetas, que me deixou, hoje, um estranho sabor... A condizer com o sabor da ginginha que, além de servida em copo de plástico, me pareceu "batizada"...»

Observação: este textículo é miserável do ponto de vista do português estragado “me sinto num lugar algo deslocado” e, direi assim, sobretudo da eivada babosa neo-realista — i) há alguma urbe mais ou menos cosmopolita que não ostente “uma paisagem incaracterística”?; ii) existirá decerto, algures, alguma que não seja percorrida ou preenchida, em parte, por uma mole de gente “sofrida”!

Não se tratasse de um professor universitário era ridículo; dado tratar-se de um professor universitário é deplorável.
Quanto mais graves são os problemas, maior é o número de ineptos a que a democracia apela
Gómez Dávila

3. por fim o texto de Nuno Cintra Torres que, por razões várias, merece leitura atenta apesar de pouco mais fazer do que compilar uma série de autores/avisos/esclarecimentos de pessoas que estudam e pensam e a que a nossa comunicação social pouca divulgação dá além de serem ostracizados pela nossa intelectualidade e pela nossa comunidade política – excepcionando, claro, os “circuitos-fechados” das conferências/debates/mesas redondas/… aonde “perambulam” as mesmas seis ou sete centenas de criaturas.

A preterição a) por parte da comunicação social deve-se evidentemente ao facto de se tratar de assunto que não vende [e neste caso, ao contrário de tantos outros, já não vale a alegação «os gostos/preferências da população educa-se»]; b) por parte da comunidade política pela  razão, cínica, de que tudo o que lhe subjaz destoa da lengalenga do “mais, melhor e mais bem pagos” empregos com que enchem a boca, e iludem a maralha [é a isto que designam por discurso da esperança, dos afectos, etc…].

«A “Era digital” é uma realidade fortíssima (…) segundo John Chambers, Executive Chairman da Cisco, nada vimos. Quando houver 500 biliões de dispositivos ligados à internet, tudo será ou estará transformado – modo de viver, negócios, sistemas de saúde. Modelos de negócio nascerão e morrerão a alta velocidade – surgirão gigantescas oportunidades e as rupturas serão imensas. Chambers avalia em 19 triliões o valor económico na próxima década (…) Chambers lança o aviso às empresas e aos governos: ou abraçam a ruptura digital, ou serão esmagados. Provavelmente 40% cento das empresas não existirão dentro de 10 anos. Segundo Eric Scmidt, Executive Chairman da Google, aparecerão aplicações e negócios mais fracturantes do que a Uber, o serviço de carros de aluguer.

Três forças conjugaram-se para criar um novo e  monstruoso recurso computacional: computação na nuvem, ‘big data’ e ‘machine learning’. (…) O novo poder computacional penetra todas as atividades. (…) o exemplo recente mais espectacular é o de dois ‘hedge fund quants’ fundos de investimento que escolhem acções  baseando-se em análise quantitativa, suportados em modelos computacionais que determinam se um investimento é atractivo. (…)»

Ter razão é a primeira razão para não obter êxito
Goméz Dávila