domingo, 4 de novembro de 2018

E, no fim, é fanfreluche


Um percuciente, de sua graça António Rocha Martins, que se diz filósofo (no caso tanto dá que seja filósofo ou albardeiro), assina uma crónica no Observador que titulou «O muito que nos falta, Prudentia».
Na primeira linha, escreve o referido senhor
Numa monumental obra intitulada “A Cidade de Deus” (De Civitate Dei), escrita entre 413-414 e 426-427 (séc.V), Agostinho de Hipona (…)”

Abre-se a ligação e…É uma edição de 1877, e em latim!

Pergunto:
Para quê? para quem? qual a utilidade?
se, ao googlar o primeiro link, repito, o primeiro que aparece é a “A cidade de Deus”/Vol. I (Livro I a VIII) em português, edição da Fundação Calouste Gulbenkian (uma garantia de qualidade) de 1996.

Li, mas melhor teria feito se me tivesse isentado. Faz-se o teste do íman e… trata-se de pechisbeque, ouropel.

sábado, 3 de novembro de 2018

Na falta de um Chefe de Estado, amofina-se o andarilho e...


Um jornal destaca que o Presidente da República terá concluído uma meia-dúzia de chavões de um ‘cavaqueio para adormecer o boi’ com um ameaçador (?!) [presumo, já que não me dei ao trabalho de ler o texto de suporte]
               “Se pensam que me calam, não me calam.
O detentor do único cargo que não carece de esteio partidário e que se legitima exclusivamente nas urnas – sufrágio directo (desconsiderando os reiterados índices de aceitação); que é o detentor do único cargo político que, cumulativamente, é Comandante Supremo das Forças Armadas e preside ao Conselho de Estado e Conselho Superior de Defesa Nacional; que pode convocar, extraordinariamente, e dirigir mensagens à Assembleia da República bem como pronunciar-se [sem estar obrigado a dar satisfações a qualquer outro órgão do Estado] sobre ‘as emergências grave para a vida da República… insinua, que há quem o queira calar! Pois que diga quem. E porquê, de preferência.

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             “Se pensam que me calam, não me calam.
Isto, realmente, não é o mundo de pernas para o ar mas é um país ao contrário. Ou com ‘um rei sem roque’.
Que deixe de ser o andarilho dos enlevos e dos afectos e, supletivamente, o 'verbo de encher' do governo, e seja aquilo que o levou a sufrágio – presidente de uma república.

sábado, 20 de outubro de 2018

A semana da Revelação

Para os espíritos mais insubmissos a semana que agora finda foi – sem exagero ou troça – a semana da revelação – a revelação de um génio.
«Génio» (o protagonista), «genial» (a forma) e «genialidade» (a ideia e a ocasião) foram três dos termos mais usados pelo ‘escol’ de observadores/ analistas/ especialistas/ críticos/ comentadores que enxameiam a nossa ‘comunicação’ - escrita e televisionada.
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Um aparte
— Em tratando-se de ‘coisa(s)’ perdão, obra(s), do domínio do atípico, do incomum que subentendam prestígio, halo, resplendor, glória e/ou aptidão, designemo-los – o seu a seu dono – por exegetas (sem aspas) porque, contas bem feitas, só génios estão capacitados para enxergar e dilucidar genialidades — ‘coisas’ inacessíveis ao comum dos mortais.
Porquê isto? Porque sim e porque quem ignora, que dois adjectivos opostos se qualificam simultaneamente, devia calar-se.
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Da ideia difusa que existia sobre a ‘queda’ que a criatura tem para o exercício da política – aqui considerada no que de mais reles tem e que é, sem descaso, a ideia comum – a necessidade (a entaladela que preveniu, antecipando-se) operou  o ‘salto quântico’ que revelou o predestinado. É assim que se edificam as teomitias!

A obra?
Notável, naturalmente. Chamou quatro tipos, e convidou-os em rigoroso sigilo sob pena de revogação automática, para a vacatura de outros tantos que não sabiam que iam borda fora (ou sabiam, e nos disseram que não. Afinal o que são mínimos de concriação político-partidária?). De génio!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Vocábulos de um fraseio inane


É difícil indicar o caminho a um míope, visto que não se lhe pode dizer:
«Olhe para aquela torre de igreja a dez milhas daqui, e siga nessa direcção
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«[…] Entre um fascista impoluto e um democrata corrupto […]»
Foi nestes termos que o (senhor) João Miguel Tavares rematou a inventariação de gargarejos publicados no jornal diário que lhe publica as discorrências; ‘tavarices’. Ora as ‘tavarices’ são uma trampa pegada. É – como escreveu K. Kraus – ‘não ter um pensamento e saber exprimi-lo’.
Sucede que «fascista impoluto» e «democrata corrupto» são impossibilidades. E como tal são denominações imbecis, rasuradas por idiotas que se presumem eruditos (no caso com o intuito de imbecilizar ou manter o nível de imbecilidade colectiva).
A valia de proposições deste calibre mesmo pespegadas em gazetas são equivalentes a tantas outras de tasca, inscientes – bitaites. E não apelo – não possuo competências para isso – quaisquer particularidades de carácter conteudista ou formalista, não. Podem até pela ‘harmonia’, para ‘ouvidos duros’, soar a algo com nexo, mas realmente significam nada; são inconexas. Só na ‘cabeça’ de cretinos sujeitos a premências editoriais e à necessidade de se manterem em bicos de pés para garantir o estipêndio.
Fico-me por isto para não entrar em ponderações sobre ‘quem’, ‘de que forma’ determina quão intemerato alguém é. Aliás, nós [reportando-me à probidade e demais virtudes com que a sociedade de per si e/ou através das instituições representativas do Estado ou dos seus legítimos dignitários tem reconhecido os seus] não pedimos meças a ninguém: somos exemplares — é só pegar no rol de criaturas ‘ataviadas’ pela IIIª República e tomar nota de quantas estão a contas com a justiça (pela sua probidade, claro).
Pois eu, entre uma criatura impoluta e outra corrupta, opto pelo impoluto. É que o que caracteriza o impoluto tanto é a ausência de mácula como a virtuosidade reconhecida e a probidade, impassível.
Prócero é a ‘inópia’ (intelectual) que grassa! Que não é recente nem nova; pelo contrário, é recorrente. Quem conheça algo de Thomas Mann, e que vá um pouquinho além da «Montanha Mágica», sabê-lo-á. Se não souber tem bom remédio: ler alguns dos escritos dele dos ‘dias’ que antecederam a eclosão da 1ª Grande Guerra.
Uma das mais tristes características da nossa época — e que se vem processando com acentuada persistência há três séculos — é o esvaziamento das palavras dos seus verdadeiros conteúdos. (…) para, desse modo, mais eficientemente perturbar as consciências e fazer com que a confusão no campo das ideias avassale todos os sectores favorecendo ideias que sirvam interesses inconfessáveis. (…) Essa prática deletéria, a invasão da gíria, favorece a crescente distorção do sentido dos termos que muitas vezes alcançam acepções opostas às primitivas. Onde não há termos com acepções unívocas, mas equívocas, não pode haver ciência segura, saber sólido, conhecimento e comunicação mas, divórcio de ideias, falsas contraposições, polémicas lexicais estéreis, confusão e recuo do grau intelectual para níveis inferiores. Aliás, como se verifica hoje apesar do imenso progresso técnico adquirido. O homem moderno assemelha-se a um bárbaro tecnicizado, um bárbaro que, subitamente, se viu na posse de uma técnica superior (…)”
  in «Palavras esvaziadas»
Assim como quem se dispuser a aferir o húmus implícito ao percepcionado ‘progresso’ se pode ater às palavras de Wittgenstein (1930)
A nossa civilização é caracterizada pela palavra «progresso». Fazer progressos não é todavia uma das suas características; o progresso é mais propriamente a sua forma. Ela é tipicamente construtora – ocupa-se em construir uma estrutura cada vez mais complicada e até a claridade é desejada apenas como um meio para atingir esse fim e nunca como um fim em si mesmo. Para mim, pelo contrário, a claridade e a transparência são valiosas em si mesmas. Não estou interessado na construção de um edifício, mas em ter uma visão clara dos alicerces dos edifícios possíveis.
                                              in «Cultura e Valor»
No fim das contas, dêem-lhe as voltas que vos aprouver, um analfabeto munido do mais recente gadget é um analfabeto; um inculto com a «Ilíada» debaixo do braço é um inculto;…
«“Com os teus olhos vê-los-ás, mas nada daí comerás.”
Para os descrentes de hoje, isto cumpriu-se de outro modo. Comem aquilo que não chegam a ver. Tal constitui um milagre em toda a parte onde a vida é vivida em segunda mão: entre fariseus e zelotas.»
Poucas vezes foi tão evidente, acho.
Sabem quem escreveu e quando foi escrito?