terça-feira, 18 de setembro de 2018

A tangibilidade dos êxitos do visiteiro

Sobre a excelência [diplomática e económica] da visita de António Costa a Angola digo, sem ponta de ironia, que fomos às migalhas do ágape de angolanos e chineses.
Os êxitos, presentes e futuros, aquilatam-se fazendo um comparativo com

– a China empresta(rá) a Angola através do Banco Industrial e Comercial da China mais 11 mil milhões de dólares, garantidos por petróleo, para financiamento de 78 projetos de desenvolvimento e infraestruturas tais como
i) mais de mil milhões de euros para pagar até 85% do valor do contrato para a concepção, construção e finalização do novo aeroporto internacional de Luanda a ser construído por empresas chinesas; ii) mais de 760 milhões de dólares para o sistema de transporte de energia elétrica do Luachimo; iii) mais de 1.000 milhões de dólares para a construção de uma academia naval em Porto Amboim; …
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As lagartixas têm direito à existência. Daí a pretenderem passar-se por jacarés…Desgraçadamente nem por lussengues passam: os lussengues não se alimentam de migalhas.
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Uns, pávulos, prezam o lirismo que alimenta o imaginário colectivo; os outros fazem negócios à séria sem vícios, tiques, inquietações ou escrúpulos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Explicações para que efeitos?


João Miguel Tavares sugere/exige que ‘o governo’ (nos) ‘deve explicações sobre Pedrógão’. Eu acho o mesmo, mas não faço questão.
– Explicações para que efeitos?

Se há ‘confrades’ com explicações nas pontas das línguas para tudo até para a «curvatura das bananas» são os socialistas ― certo e sabido que, inapelavelmente, 1 - a responsabilidade será de algo (por exemplo as circunstâncias) ou de alguém (que não eles próprios nem 'instituições' por eles 'administradas'); 2 – no que concerne à dilucidação política ― teórica, bem entendido ― vencem quem lhes apareça: se não pela persuasão, pela exaustão (prescindo do «convencimento» porque esse é aferido nas urnas. E a prova do convencimento, feita!)

Sim, explicações para que efeitos? Políticos?! Eu isento-os dessas explicações. Chega de conversa-fiada.

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Sentir-me-ei reconfortado se, no epílogo, puder constatar que 1 – a comunicação social não largou o assunto, não o retirou das capas nem suprimiu dos prime time; 2 – toda a sorte de calhordas e demais pilhas-galinha foram implacavelmente (claro que «implacavelmente» é exagero meu) punidos pela justiça e, 3 – politicamente foram de tal forma increpados pela sociedade que nenhum ‘sobreviveu’.

domingo, 19 de agosto de 2018

Animadores

Ontem, escrevi
“(…) a «Aliança» de Pedro Santana Lopes desmerece mais do que um parágrafo.”

Hoje, acrescento
― Se a «Aliança» de Pedro Santana Lopes desmerece mais do que um parágrafo, a «proposta Liberal» (qualquer ou por atacado) desmerece(m) mais de dois parágrafos.

Os liberalecos que, há uns tempos, desataram a sair de baixo das pedras ― as ‘capelas’ são três, por agora: Iniciativa Liberal, Democracia 21, Aliança ― nada pretendem do que propõem; almejam, isso sim, entrar no «sistema» para (sobre)viver à custa dele. Não vale a pena analisá-los – são os habituais pedantismos burlescos e as costumeiras sandices.
Escreveu Benedetto Croce que “o erro condena-se, não pela boca do juiz mas pela sua própria língua” ― os liberalecos propõem(-nos) a liberalização da Saúde(!)  e da Segurança Social (!!!)
Realmente não dá para perder muito tempo com isto ― muitos outros o fizeram, e desmenti-los é uma impossibilidade.
A inexequibilidade continua a expressar-se, por exemplo, assim:
“ (…) este povo é avesso a pensar e proceder. Incrédulo na aparência, permaneceu sempre bom católico, e, como bom católico, acredita na Providência e nos milagres. A Providência, para ele, começou a surgir há uns quantos anos sob a forma, igualmente sobrenatural e maravilhosa, de República (1). Se a República (1) que – salvo poucas e louváveis excepções – a nossa deplorável retórica lhe tem apresentado como uma espécie de divindade transcendente e tutelar não fizer logo o milagre de lhe liberalizar o sossego, bem-estar, fortuna,… e lhe exigir, ao contrário, trabalho, inquietação, sacrifícios,… a desilusão e o desânimo querem-me parecer inevitáveis. (…)”

O resto é babosa – trafulhice ou alucinação.
Esta carta, em ‘condições normais’, jamais será entregue; Garcia ausentou-se.

(1) substitua República por Estado

sábado, 18 de agosto de 2018

Histriões e arlequins, coevos

Sou liberal,
Sou liberal,
E sou casmurro.
Sou liberal,
Sou liberal,
como um burro 

~ Luís Galhardo in jornal «Ó da Guarda»/1907

À partida, a «Aliança» de Pedro Santana Lopes ― que devia ser liberal mas, sem ser por acaso, é «liberalista» segundo o «semanário ‘de referência’». A que ponto chegam as especiosidades! Em português, liberal e liberalista são sinónimos; na verve política trata-se de uma tentativa de dissimulação – fruste, acho. É preciso explicar? ― desmerece mais do que um parágrafo.
Atente-se – na ‘apresentação’ efectuada pelo «semanário ‘de referência» –, por exemplo, que se propõe(m) à liberalização da Saúde(!)  e da Segurança Social (!!!).
Palavras há – há muito proferidas; e editadas há outro tanto. Em outra época e contexto – o que não basta para as tornar inadequadas.
Por mais translações que a Terra tenha efectuado, e as doze gerações que se foram sucedendo, não foram o suficientes para lhes modificar (aos destinatários) de forma radical quer a essência da «massa» quer o âmago.

É um partido capitaneado por bacharéis (1) tontos ou pífios. É quanto basta para lhes tirar o horóscopo.

~in Cartas Inéditas de Antero de Quental a Alberto Sampaio


(1) substitua por ‘licenciados’; ou ‘pós-graduados’; ou ‘doutorados’; ou…

terça-feira, 31 de julho de 2018

Como se cria ‘urticária’

No fim de uma jornada – aleatória e sem outro critério senão quantidade – de clicks em perfis e murais do Facebook sobejaram-me um bocejo, a indisponibilidade para repetição da infeliz gracinha e ‘notas’ [assumidas por mim como «advertências»]. Acresce referir o que me levou à ‘passeata’ foram as leituras de «A Morte da Competência» (2017) de Tom Nichols e sobretudo a «A Expulsão do Outro» (2016) de Byung-Chul Han. Havia que, da maneira possível, testar algumas inferências porque i) diversas constavam do meu ‘bornal’ e ii) tinha de pôr à prova os equivalentes [amostras] usadas por Nichols.

Homologação 1
Não restam dúvidas na observância quer da ‘regra de Pommer’ – a única maneira de a internet mudar o pensamento de alguém é fazer com que uma pessoa sem opinião passe a ter uma opinião errada – quer da ‘regra de Godwin’ que pode verter-se em «reductio ad Hitlerum», simplesmente.


Advertência 1
Como para cada parlapatão há milhares de simplórios lapantanas, receptivos, há uma batelada de fascinados que discreteiam – consoante as ‘tamanquinhas’ que supõem calçar – convencidos de que, ao fazê-lo, transmitem ‘coisa nova’.E assim algo inscrevem.

Advertência 2
Deparei [quase mural sim, mural sim] com uma verdadeira hileia de citações ― de Nietzsche [pespegadas por gente incapaz de distinguir «Gaia» de Vila Nova de Gaia] a Clarice Lispector [por que não Virginia Woolf e/ou Marguerite Yourcenar?!] e uma imensidade de outros, espúrios [imagino que, a ‘paternidade’ omissa, se deva à falta de coragem dos revérberos] … ‘flatos’ com a profundidade de um vau do tipo «Defendo-me com sorrisos e ataco com silêncio», disparates e absurdos do tipo «Atrás de uma montanha há sempre sol», etc…
Ora ao contrário do que pensam os espíritos que apenas ouvem o tilintar das palavras, a citação não é um uma exibição de erudição ou ‘autoridade’ – é um pretexto; as citações são (deviam ser) materiais de trabalho. Além do mais serve de nada ao apedeuta emigrar para lugares habitados por quem eles imaginam «grandes» ― todos levamos (apedeuta ou não) às costas, impertérrita, a nossa insciência.

Nesse excretório/‘tara’ [parece-me] só levamos abada dos brasileiros – é a razão pela qual a maioria das citações e as presumidas ‘meditações’ estão redigidas em irrepreensível português – sucede porque um dos exercícios preferidos dos tugas é empoleirarem-se ou apropriarem-se do alheio. Diria Louis-Ferdinand Céline que não têm forças para reprimir o «espírito de ténia».

Um dos efeitos perversos [com inexcedível ajuda da técnica] do perene desiderato da difusão dessa “coisa” intangível comummente designada por “cultura” foi capacitar qualquer tolo a parlapatear sobre algo de que faz uma vaga ideia.
Extinguem-se os analfabetos multiplicando os iletrados.

Advertência 3
Da autenticidade na ‘conversa’ entre gente afim
Raros são os que não tropeçam nas próprias pernas. Não há disfarce que resista – é uma questão de tempo. Passa-se da loa ao aviltamento e vice-versa com a facilidade com que se bebe um copo com água.
Vigora a descrição de Proust
‘Saindo de casa dos **, visitámos os ###, onde a estupidez, a maldade e a miserável situação dos ** foram postas a nu. Cheios de admiração pela perspicácia dos ###, corámos ao pensar na consideração que tínhamos aos **. Mas, quando voltámos a sua casa, estes últimos fazem os ### em pedaços praticamente com os mesmos termos.Ir de uma casa à outra é como visitar dois campos inimigos. Mas como um nunca ouve a fuzilada do outro, acredita ser o único armado.
Quando percebemos que as armas e os pontos fortes, ou antes, os pontos fracos de ambos são idênticos, deixamos de admirar aquele que dispara e de desprezar o visado. Este é o início da sabedoria.Verdadeira sabedoria seria cortar com ambos.’

Homologação 2
Dan M. Kahan (professor de Direito da Universidade de Yale) conclui em «Ideology – Motivated reasoning and Cognitive Reflection» que as capacidades de cálculo e de análise reflexiva não aumentam a capacidade de revisão das crenças.
Não é propriamente novidade. Em «The Graduate» (A Primeira Noite) a dado passo, Mr. Braddock
Podes dizer-me para que é que serviram aqueles quatro ou cinco anos na universidade? O sentido de tanto trabalho?
Benjamin (Dustin Hoffman) responde-lhe
Com essa é que me apanhou, Mr. Braddock!
(é uma alusão perigosa)
Jean Tirole (Nobel da Economia em 2014) deduz que ‘a recusa em aceitar evidências’ não se trata de uma questão de instrução ou inteligência.
Pois não! é mesmo, e apenas, uma questão de carácter.