domingo, 5 de fevereiro de 2017

Epígrafes? Talvez sejam. Ou nem isso.



E tomaram os gileaditas aos efraimitas os vaus do Jordão. E quando alguns dos efraimitas, que escapara com vida, dizia «Deixem-me passar!», os gileaditas perguntavam: «És efraimita?» 
Se respondesse «Não!», ordenavam-lhe: «Então, diz Xilobete.»
Se pronunciasse «Silobet», incapaz de o fazer correctamente, prendiam-no e matavam-no logo ali. Assim pereceram quarenta e dois mil efraimitas.
Juízes 12:5-6 [Bíblia do Rei Jaime]



O desafio [secular] de “democratizar a cultura” não conseguiu que mais gente admire Montaigne, Shakespeare, T. Mann, J. Joyce, S. Beckett,… Conseguiu que mais gente suponha admirá-los. Face a tanto intelectual manhoso, a tanto artista sem talento e a tanto revolucionário estereotipado, um despretensioso burguês mais parece uma estátua grega.

Nesta(s) "matéria(s)", não vivemos tempos de antelóquios; quase tudo se me afigura como posfácio de algo. Não admira, pois, o que parece ter surpreendido Kurt Gödel «Quanto mais penso na linguagem, mais me surpreende que as pessoas se possam compreender umas às outras.»

 

domingo, 4 de dezembro de 2016

O laterício desta fábrica de Absoluto



O homem que pretende a verdade torna-se erudito; o que quer dar asas à subjectividade torna-se, talvez, escritor. O que fará aquele que quer algo entre essas duas estremas?
R. Musil – Ensaios

Uma das mais brilhantes descrições que conheço sobre a memória é de Baudelaire, e está em “O palimpsesto” nas «Visões de Oxford» de «Paraísos Artificiais».
O que é o cérebro humano senão um imenso e natural palimpsesto? Grandes camadas de ideias, imagens, sentimentos,vazam sucessivamente sobre o cérebro com a suavidade da luz. A impressão é de que cada uma sepulta, ou oculta, a antecedente. Mas, na realidade, nenhuma perece.

Entre o palimpsesto que contém, sobrepostas, uma tragédia grega, uma lenda monástica e uma história de cavalaria e a nossa incomensurável memória, há diferenças: o primeiro é uma espécie de caos, uma colisão entre elementos heterogéneos, muitas vezes conflituantes; no segundo, o carácter impõe uma harmonia entre os elementos por mais incoerentes ou disparatados que sejam – os ecos da memória, se os pudéssemos despertar simultaneamente, seriam um concerto agradável ou doloroso, mas lógico. A unidade é imperturbável. O palimpsesto da memória é indestrutível. O esquecimento é momentâneo. Da mesma maneira que toda a acção é irrevogável e irreparável, o pensamento é inabalável. O palimpsesto da memória é indestrutível.
Acredita-se que a tragédia grega foi expulsa e substituída pela lenda do monge e a lenda do monge foi expulsa e substituída pelo romance de cavalaria. Não é nada disso. À medida que o ser humano avança na vida, o romance que, quando jovem, o maravilhava, a lenda fabulosa que, quando criança, o seduzia, desbotam-se e obscurecem-se por si. Mas as profundas tragédias da infância – braços de crianças arrancados do pescoço das mães para sempre, lábios de crianças separados dos beijos das irmãs para sempre – sobrevivem, escondidas, sob as outras lendas do palimpsesto. A paixão e a doença não têm química suficientemente poderosa para queimar essas indeléveis marcas.
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Muitas vezes, acidentados e em perigo de vida, alguns seres viram adejar ao cérebro todo o teatro das suas vidas – uns instantes em que o tempo parece ter sido obliterado pelo que poucos segundos bastam para desfiar uma quantidade de imagens, sentimentos e emoções que equivalem a anos de vida.
O singular não é a precipitação simultânea dos elementos que, ao longo da sua vida se foram encadeando; é a reaparição daquilo que o próprio desconhecia. Em circunstâncias soleníssimas, circunstâncias limite – a morte, por exemplo – o imenso e complicado palimpsesto da memória irrompe e traz todas essas camadas, ignoradas ou ocultadas, a que chamamos «esquecimento».
       
Analogamente, num âmbito assaz diferente, é o que me parece perceber em Paul Ricoeur n’«A Simbólica do Mal». É com os alinhavos dessa tese e é nas fímbrias dessa proposição que parqueio. São as narrativas que formatam as gerações e, por isso, é preciso ir aos palimpsestos levantar as “camadas” para tentar enxergar os caracteres primitivos que neles constam. E outra maneira não há para os fazer ressumbrar.
“É preciso renunciar à quimera de uma filosofia sem pressuposições e partir da linguagem plena.

Partir de um simbolismo já constituído é introduzir uma contingência. Não conheço os símbolos todos. O meu campo de investigação é orientado, e porque é orientado também é limitado. O que é que o orienta? Não é só a minha situação no universo dos símbolos mas, paradoxalmente, a origem histórica, geográfica e cultural da própria questão filosófica.

A nossa filosofia nasceu na Grécia. O filósofo não fala de nenhures, mas antes do fundo da sua memória grega. Há relações de “proximidade” e de “distância” que pertencem inelutavelmente à estrutura da nossa memória cultural. Daí o privilégio de “proximidade” entre as culturas grega e judaica; essas duas culturas constituem o primeiro estrato (camada) da nossa memória filosófica – o encontro da fonte judaica com a origem grega é a intersecção fundamental e fundadora da nossa cultura.

A nossa memória cultural é incessantemente renovada retroactivamente pelas novas descobertas, pelos retornos às fontes, pelas reformas e pelos renascimentos que são bem mais que revivalismos do passado. O nosso helenismo não é exactamente o dos Alexandrinos, nem o dos padres da Igreja, nem o da Escolástica, nem o da Renascença, nem o do Iluminismo. O nosso passado não deixa de mudar de sentido: a apropriação presente do passado modifica aquilo que nos motiva das profundezas do passado.

Há cultural que só se aproximaram nas reflexões dos eruditos e que, na realidade, ainda não produziram um encontro que pudesse transformar radicalmente a nossa tradição – é o caso das civilizações do Extremo-Oriente. É isso que explica que uma fenomenologia orientada pela questão filosófica de origem grega não possa fazer justiça às grandes experiências da Índia e da China. E é aqui que se tornam evidentes não só a contingência da nossa tradição como também o seu limite.”
           
Pelo mesmo diapasão afinou George Steiner  in «No castelo do Barba Azul»
Não é o passado literal que nos governa, salvo, possivelmente, num sentido biológico; são as imagens do passado. Quase sempre essas imagens são tão estruturadas e selectivas quanto os mitos. As imagens e sínteses mentais do passado são impressas, quase à maneira de informação genética, na nossa sensibilidade.

que, bem sopesadas as “coisas”, não diferem substantivamente das volutas interpretativas que o “amigo Ling”, chinês, deu a saber ao “amigo A.D.”, francês, segundo André Malraux em «A tentação do Ocidente» — uma encruzilhada para que nos precipitámos, e face à qual tão indecisos estão os “guias” quanto os “caminheiros” desta jornada.
os europeus, escuto-os, e creio que eles não compreendem o que é a vida. Inventaram o diabo. Felicito-os pela sua imaginação. Mas desde que o diabo morreu, parecem-me vítimas de uma mais alta divindade da desordem: o espírito. 
O vosso é feito de maneira tão singular que da vida apenas podeis conceber fragmentos. Dirigi-vos sempre para um fim e nisso vos empenhais inteiramente. Quereis vencer. Nós não queremos conceber a nossa vida senão no seu conjunto. Sabemos que este todo ultrapassa cada um dos nossos actos. A vida é uma sucessão de possibilidades e a importância que dais a certos actos que vos perturbam, por não terdes sabido compreender que saõ secundários, não provirá de uma inteligência desatenta e talvez mal preparada por uma religião que tão incessantemente vos faz crer na existência particular. A custo compreendeis que para ser é necessário agir e que o mundo vos transforma muito mais do que vós o transformais…As paixões que sentis, em vez de organizarem o mundo em favor do seu objectivo, desagrega-vos. Não agem sobre os «valores», mas sobre a intensidade das coisas. A coerência só existe no reino do espírito, e é esse o vosso drama.
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Tanto que nós pensamos e que falamos e julgamos que somos competentes e na verdade não somos, essa é a comédia, e quando perguntamos como é que vai ser agora? é a tragédia. De que serve a exaltação ante o poder, se não se é imperador? Se tivesse de me submeter à ordem, desejaria que ela fosse feita para mim, e não eu para ela…

É deste láudano que raríssimos são os que tomam, e poucos mais serão os que provam. Mas é este láudano que, nos dias de hoje, tanta falta nos faz!
Nada há mais difícil de reproduzir do que aquilo que um homem pensa.
R. MUSIL – O homem sem qualidades