23/02/2024

Inteligência artificial vs estupidez humana

Desde que regressei do Fórum Económico Mundial deste ano, em Davos, que me tenho sido insistentemente questionado sobre as minhas principais conclusões. Um dos temas mais debatidos este ano foi a inteligência artificial, em particular a IA generativa (GENAI). Com a recente adopção de grandes modelos de linguagem (como o que é utilizado pelo CHATGPT), há muita esperança – e sensacionalismo – sobre a forma de «como a IA pode ajudar a desenvolver a produtividade e o crescimento económico no futuro».

Para analisar esta questão, temos de ter em linha de conta que a estupidez humana é bem mais predominante no mundo do que a IA. A proliferação de mega-ameaças – elementos de uma policrise mais abrangente – confirma que os nossos políticos são demasiado disfuncionais e as nossas medidas políticas demasiado desorientadas para conseguirem enfrentar até os riscos mais sérios e óbvios que se colocam perante o nosso futuro. Estes riscos incluem alterações climáticas, que terão custos económicos avultados, estados colapsados, tornando as vagas de refugiados climáticos ainda maiores e recorrentes, pandemias virulentas, que poderão ter efeitos económicos ainda mais nocivos do que a covid-19.


Para piorar a situação, as perigosas rivalidades geopolíticas estão a evoluir para novas guerras frias, tal como acontece entre os Estados Unidos e a China, e para conflitos armados potencialmente explosivos, tal como é o caso da guerra da Ucrânia e do Médio Oriente. Em todo o mundo, as desigualdades de rendimentos e riqueza são cada vez mais acentuadas, em parte devido à hiper-globalização e às tecnologias de substituição de mão de obra, provocando reações negativas contra a democracia liberal e criando oportunidades para o aparecimento de movimentos populistas, autocráticos e politicamente violentos.

Os níveis insustentáveis de dívida pública e privada ameaçam precipitar o aparecimento de crises da dívida e financeiras e é mesmo possível que venhamos a assistir ao regresso da inflação e a choques na oferta agregada estagflacionários e negativos. A grande tendência mundial está direcionada para o protecionismo, para a desglobalização, para a dissociação e para a desdolarização. Para além disso, as arrojadas novas tecnologias de IA, ao mesmo tempo que contribuem para o crescimento e bem-estar humano, detém também um grande potencial destrutivo. Já estão a ser utilizadas para disseminar a desinformação, as “deepfakes” (manipulações de imagens e sons através da inteligência artificial) e manipulações eleitorais a uma velocidade alucinante, criando também receios relativamente ao desemprego tecnológico definitivo e a desigualdades ainda mais marcantes. O aumento de armas autónomas e os ataques cibernéticos potenciados pela IA são também preocupantes.

Cegos com as maravilhas da IA, os participantes do Fórum realizado em Davos não abordaram grande parte destas mega-ameaças. O que não me surpreende. Pela experiência que tenho, o pensamento do FEM reflete o caminho oposto àquele que o mundo está a seguir. Os decisores políticos e os líderes empresariais participam neste evento com intuito de promover as suas contas e proferir declarações banais. Representam a sabedoria convencional, frequentemente apoiada numa visão de retaguarda sobre os desenvolvimentos macroeconómicos globais.

Por isso, quando alertei para a iminência de uma crise financeira global, na reunião do FEM, realizada em 2006, fui rejeitado por ser alarmista. E em 2007, quando previ que muitos estados-membros da aérea do euro estavam prestes a ter de enfrentar problemas de dívida soberana, fui verbalmente atacado pelo ministro das finanças italiano. Em 2016, quando todos me perguntaram se o colapso do mercado de ações chinês vaticinava uma aterragem difícil que provocaria uma repetição da crise financeira mundial, respondi – acertadamente – que a China teria uma aterragem turbulenta, mas controlada. Entre 2019 e 2021, o tópico efémero em Davos foi a bolha cripto, que começou a rebentar em 2022. A atenção passou então para o hidrogénio renovável, outra tendência que está já a desaparecer.

No que respeita à IA, existe uma enorme probabilidade de a tecnologia vir a mudar o mundo nas próximas décadas. Mas a atenção dada pelo FEM à GENAI já parece deslocada, tendo em conta que as futuras tecnologias e indústrias de IA irão muito para além destes modelos. Analisemos, por exemplo, a atual revolução na robótica e automação, que em breve conduzirá ao desenvolvimento de robots com características semelhantes às humanas, que terão a capacidade de aprender e realizar várias tarefas, tal como nós temos. Ou analisemos o que a IA pode fazer no âmbito da biotecnologia, medicina e, em última instância, da saúde e esperança de vida humanas. Os desenvolvimentos no campo da computação quântica não são menos fascinantes, podendo mesmo vir a fundir-se com a IA para produzir aplicações avançadas de criptografia e cibersegurança.

As mesmas perspetivas de longo prazo deviam ser aplicadas aos debates sobre as alterações climáticas. Parece cada vez mais evidente que o problema não se resolverá com as energias renováveis, cujo crescimento é demasiado lento para que possa ter impacto, ou com tecnologias dispendiosas como a captura e sequestro de carbono ou o hidrogénio renovável. Em alternativa, podemos vir a assistir a uma revolução de energia de fusão, desde que nos próximos 15 anos se construa um reator comercial. Esta fonte abundante de energia barata e renovável, combinada com a dessalinização sem custos e a agro-tecnologia, permitir-nos-ia alimentar os dez biliões de pessoas que habitarão o planeta até ao final deste século.

Da mesma forma, a revolução dos serviços financeiros não girará em torno de tecnologias “blockchain” (tecnologia que usa uma base de dados não centralizada, com informações provenientes de uma grande rede, ligadas por algoritmos de encriptação) ou em criptomoedas. Em vez disso, apresentará o tipo de tecnologia financeira centralizada viabilizada pela IA, que já é aplicada para melhorar os sistemas de pagamento, alocação de empréstimos e crédito, subscrição de seguros e gestão de ativos financeiros. A ciência dos materiais conduzirá a uma revolução no desenvolvimento de novos componentes, produção de tecnologia de impressão 3D, nanotecnologias e biologia sintética. A exploração e extração de recursos do espaço sideral ajudar-nos-á a salvar o planeta e a descobrir formas de desenvolver modos de vida extra-planetários.

Estas e muitas outras tecnologias podem mudar o mundo para melhor, mas apenas se conseguirmos gerir os seus efeitos colaterais negativos. E apenas se forem usadas para resolver todas as mega-ameaças que enfrentamos. Esperemos que um dia a inteligência artificial supere a estupidez humana. Mas não terá hipótese se antes disso nos destruímos a nós próprios.

                                                                         . Nouriel Roubini