quinta-feira, 10 de março de 2016

Do Fossabook


— No pretérito dia 5 de Março, escrevi
«Uma sociedade de ranhosos não pode gerar senão ranhosos — uns mais distintos do que outros, ainda assim ranhosos; o resto é questão de oportunidade. Os que de facto não o são (se ou quando podem) “fogem” e jamais preenchem um minuto das suas vidas com devaneios de retornos. Continuamos mais Armani menos Channel, mais Buck's Twizz menos copo de tinto a ser uma sociedade de ranhosos.»; 
— Ontem, numa nota, “suspirei” por decência;
— Hoje o prestimoso serviço que o Facebook me presta, trouxe-me o que consta na gravura. 

A que título é que tenho de aturar ranhosos?! Só por tara. Ou adicção! 
Aquilo é uma fossa a céu aberto. 
Ranhosos. Irremediavelmente…

 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Decência

Do discurso do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa —, expurgados os empolamentos protocolares, parcimoniosos, as epifanias, os enfeites literários, os estiramentos retóricos e o epiceno “lirismo” — extraio [e tomo a nota devida] o seguinte

«O Presidente da República será um guardião permanente e escrupuloso de uma identidade vivida em Estado de Direito Democrático, representativo, mas também participativo e referendário. […] O poder político democrático não deve impedir, nos seus excessos dirigistas, o dinamismo e o pluralismo da sociedade civil (…) não pode demitir-se do seu papel corretor de injustiças, penhor de níveis equitativos de bem-estar económico e social. […] É no quadro desta Constituição que temos de ir mais longe na qualidade do sistema político na sua moralização e credibilização, nomeadamente pelo combate à corrupção, ao clientelismo, ao nepotismo. […] Preferindo os pequenos gestos que aproximam às grandes proclamações que afastam.»

Carecemos, tanto quanto de pão para a boca, de decência — nas mais altas instâncias e dignitários do Estado, no seio da administração pública, na justiça, … Se, pela natureza das coisas, a decência ao nível da populaça se pode designar como uma quase-utopia a verdade é que em política a prevalência deve ser dos políticos, a verdade é que o exemplo vem de cima. A verdade é que neste momento, nas presentes circunstâncias, não há poderes ou instituições deslegitimadas mas legitimado, e prestigiado, apenas vejo um – o Presidente da República. Pois que logre vencer esse desiderato e, acho, esse será (implícito) um dos seus desejos.

Desconheço se a “exigência” é alta se baixa. Realmente não sei se é pedir pouco, se demais. Mas dá, pelo menos, para notar o nível em que estão as (minhas) ambições e com que alinhavo as minhas expectativas. 

A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública

Marguerite Yourcenar

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Da ondulação no charco



Por “ondas”, isto faz que mexe. Isto e o efeito criado pelo embate de uma pedra na superfície de um lago são a mesma “coisa”. O charco é o que sempre foi. E o efeito é nenhum.


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O Ministério da Educação do Brasil tem (para discussão pública!) um projecto designado «Base Nacional Comum Curricular» que propõe eliminar do plano de estudos até ao “ensino médio” a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa — Gil Vicente, Camões, Fernando Pessoa, Pe. António Vieira, Eça de Queirós, …ficam ao critério do gosto, humor ou ideologia do professor. Porquê? Porque Portugal foi o colonizador, explorou (as riquezas) escravizou (indígenas e as populações negras de África) e por consequência, está na hora de dar voz à cultura dos oprimidos. Por cá alguém sentiu agitação na superfície da água do charco? Não… meia-dúzia de maluquitos a atirar umas pedritas, se tanto. Já o contrário seria motivo para espanto, convenhamos. A “onda” é a citação a esmo [dos mais ilustres e representativos dignitários do Estado ao mais imbecil “zé-mané”] de Sérgio Godinho, Jorge Palma, António Zambujo, Anselmo Ralph,… — vultos da cultura lusa, contemporânea. Se não é verdade então o equívoco não é meu: é, a título de exemplo, do futuro Presidente da República, prof. dr. Marcelo Rebelo de Sousa. As explicações, embora implícitas, constam do programa das “festividades” para o dia da sua posse.
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A endocrinologista Isabel do Carmo, ex-terrorista [devia estar a redigir, para edição póstuma, uma espécie de «Memórias do Cárcere»], tratou de esclarecer o pagode que o neoliberalismo faz mal. Faz sempre mal — nos países ricos produz obesos; nos países pobres produz esfaimados, esquálidos; nos países remediados lixa a classe média. O “capitalismo” é a peste, concordo. É de tal forma nefasta e insidiosa que para fazer pela vida cria o rentabilissimo anti-capitalismo. De tal forma que por exemplo, em França, François Maspero criou uma editora cujo core business era fomentar o comunismo pela edição de “pensadores” marxistas, exclusivamente. A revolução tropeçou mas François Maspero, enriqueceu. No final das contas o resultado é: não é à “peste” que deve ser assacada a idiotia das manadas.
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As frenéticas e brilhantes mentes do Bloco de Esquerda resolveram celebrar o júbilo com um cartaz que presumiram, erradamente, ser provocador. Não é nem para a Igreja que reagiu pelo porta-voz da Conferência Episcopal mais por obrigação do que por acusar a estocada. Digo eu cristão, e católico (na medida em que não renunciei o sacramento baptismal).
Há uma série de nuances que as mentes brilhantes não apreenderam i) lá vai o tempo em que os ápodos eram (não só na dialéctica e “retórica”) sua quase propriedade, ii) lá vai o tempo em que existia, à esquerda, no que concerne à opinião, comentário, mostra, narrativa, repto,…um quase monopólio, iii) lá vai o tempo em que os «opostos» (para início de “conversa”) postergavam (por comodismo e/ou afectação/afecção pequeno-burguesa) a responder em “moeda conversível” a invectivas da retórica erística como reaccionário, retrógrado e demais epítetos, iv)… até lá vai o tempo em que informação credível significava imprensa/comunicação social.
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As bestas não perceberam que por mais pedrinhas que atirem não há como provocar um maremoto — um charco não é um oceano — ... pedrinha a pedrinha, o mais que conseguirão é criar um monte de pedras no lugar do charco. Ou secar o charco. Com a quantidade de calhaus que por aí vagueia, não admira.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Ao sol, coçando o saco

~ Fragmentos ~

Há coisas [sem importância (?!)] que se me apegam de tal forma que são o cabo dos trabalhos. Apegam-se-me, talvez por ser suficientemente livre para poder ser incoerente, contraditório, instável, deambulante, provocador e até insidioso. Ou seja não existe constrangimento que obrigue a sacudir-me. O trivial é ser dada forma de idílio uma nova história comparando o presente a um passado, falso, porque odeiam o mundo tal como ele é. Odeiam-no mais pelo facto de o passado que promanam ser falso do que pelo insignificante presente. Os epígonos são sempre mais radicais do que os seus inspiradores.
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“O Passo Suspenso da Cegonha” do grego Theo Angelopoulos é um belo filme. Uma estória sobre desencontros, buscas e reencontros. Um brilhante e reconhecido político (Marcello Mastroianni), depois de um discurso no Parlamento em que apenas afirma a necessidade de ser criado um estado de silêncio que nos permita ouvir a música da chuva, abandona, acompanhado pela mulher (Jeanne Moreau), tudo e todos.

Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos; na verdade é quem vai que leva o objectivo consigo e peregrina em direcção ao centro da sua vida.
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Em 1983, Lawrence Kasdan deu-nos «Os amigos de Alex». Vi e dada a ternura que me sobejou da estreia, revi. Anos depois por não ter sobrepujado a ausência de qualquer coisa – uma explicação – regressei “aos amigos”: desta vez para procurar ver o que não foi filmado, o reverso… talvez por não deter, como dizia Wittgenstein, «aquele ponto de vista estético» que permite «a contemplação do mundo por um olhar feliz».
“Os amigos” aproveitam o infausto sucedido para recuperar o irrecuperável tempo perdido e restabelecer os antigos laços de amizade, escalavrados. Se Alex tinha sido quem foi — o mais benquisto e brilhante de entre eles — como se fundamenta uma tão impressiva ausência? e o trágico desenlace pessoal – o suicídio? se Alex foi, na morte, a imperativa razão para aquele felicíssimo reencontro porque foi tão funda e efectiva a ausência, em vida? Chateaubriand dizia que se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo de que não se gosta.

Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos.
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(Moses) Herzog [de Bellow] num dos “bilhetes”, que rabiscava obsessivamente e espalhava à toa, constatava meio conformado que «migalhas de honestidade é a única coisa que nós, pobres (no sentido de comum), podemos dar uns aos outros». Discordo. No fundo, não é a condição de pobreza que os condena: é a cupidez que invariavelmente se lhe alia. Por esse facto as pessoas acreditam que a explicação é uma necessidade de sobrevivência e toda a gente tem de explicar a sua condição. As criaturas são apanhadas nesse torvelinho e é sempre a afundar. Ignoram os “pobres de espírito” que a atitude dos novos tempos transforma a vida humana numa ninharia que já não é merecedora da angústia de ninguém. A mistura do luxo com o lixo e amiúde com excrementos é cada vez mais de mais dificultosa partição porque o “meio”, orgulhoso e displicente, adora a sua própria vulgaridade. Há um famoso conselho, alemão, que diz que se deve esquecer o que não se pode suportar. Ora, dilucidada a questão «o que é, ou não, suportável» estou, desde que não tolha o passo, em desacordo. Absolutamente.

Há o prélio quando, sem partir, se não aguenta mais onde se está; na verdade, quem permanece possui um objectivo e peregrina em direcção ao centro da sua vida.

Desconheço antídoto melhor do que o de Mitridates que aprendeu a conviver com o veneno — enganou os assassinos que cometeram o erro de o usar pequenas doses. Ficou em conserva em vez de ser destruído.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Escrever frente ao espelho



Se a memória não me atraiçoa foi Roland Barthes [outros há, mas Barthes é Barthes. Ou não?!] que defendia que «não se trata de escrever bem ou escrever mal, mas simplesmente escrever». Se Barthes o disse quem sou eu para duvidar ou (tentar) defender diferente?

Num dos raros e esparsos períodos ou parágrafos em que Eduardo Prado Coelho era Eduardo Prado Coelho ou seja, em que Eduardo Prado Coelho escreveu liberto da(s) grilheta(s) analítica(s) quer dizer, em que Eduardo Prado Coelho escreveu sem estar às cavalitas das citações«A citação é um incitamento porque retirar as palavras do contexto, é abrir espaço para dizer mais» — leio (enfio cada barrete! daqueles que vão até aos pés) 
«Só que o acontecer é fractal: uma viagem é uma soma de dias, cada dia uma soma de horas, cada hora uma soma de minutos, cada minuto uma apoteose de gestos, palavras, deliberações, quimeras, estados mentais conscientes ou inconscientes, segundo uma rede de intermináveis interferências.»
EPC in «Tudo o que não escrevi», Paris – 13.12.1991

Isto é escrita? Escrita é, sem dúvida; porém, má. É uma forma presumida de gastar tinta, grafando palavras com nexo (ao menos isso) para preencher papel.
Seria (o que faz a memória!) uma fortíssima razão para um saudoso professor meu (Chico Barbosa – gilé) de Português (e Francês e História), nos idos dos meus 3º e 4º anos de liceu perdão, colégio, caso se tratasse de uma redacção, a fazer regressar às minhas mãos com um risco oblíquo de alto a baixo, a tinta vermelha, sublinhando um sentencioso e irrefragável «palha» (em letras garrafais).

Mas se Barthes estava repleto de razão — aquém todas as outras que a intelectualidade possui, mas sempre cuida de dissipar —, bem, concluo da maneira seguinte
Não sei se escrevo bem, se escrevo mal. Pois não importa: escrevo. À Barthes! Mas há uma lição, imperecível, que retive, com gratidão
Escreve, sim, mas nunca percas de vista o espelho
E mais não me ensinaram, nem para isso tiveram ocasião. E não aprendi porque o meu “destino” foram as ciências (cada vez menos) exactas (como tem vindo a ser demonstrado). Ufff… um alívio – não há espaço para tergiversações, nem margem para indulgências nem “volutas” para líricos que vão além da beleza intrínseca.
Há conceitos, graças a Deus!

Não fossem os espelhos…