~ Fragmentos ~
Há coisas [sem importância (?!)] que se me apegam de tal forma que são o
cabo dos trabalhos. Apegam-se-me, talvez por ser suficientemente livre para poder ser incoerente, contraditório,
instável, deambulante, provocador e até insidioso. Ou seja não existe
constrangimento que obrigue a sacudir-me. O trivial é ser dada forma de idílio — uma nova história comparando o presente a um passado, falso, porque
odeiam o mundo tal como ele é. Odeiam-no mais pelo facto de o passado que
promanam ser falso do que pelo insignificante presente. Os epígonos são sempre
mais radicais do que os seus inspiradores.
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“O Passo Suspenso da Cegonha” do grego Theo Angelopoulos é um belo filme.
Uma estória sobre desencontros, buscas e reencontros. Um brilhante e
reconhecido político (Marcello Mastroianni), depois de um discurso no
Parlamento em que apenas afirma a necessidade de ser criado um estado de
silêncio que
nos permita ouvir a música da chuva, abandona, acompanhado pela
mulher (Jeanne Moreau), tudo e todos.
Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos; na verdade é quem vai que leva o objectivo
consigo e peregrina em direcção ao centro da sua vida.
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Em 1983, Lawrence
Kasdan deu-nos «Os amigos de Alex». Vi e dada a ternura que me sobejou da
estreia, revi. Anos depois por não ter sobrepujado a ausência de qualquer coisa
– uma explicação – regressei “aos amigos”: desta vez para procurar ver o que
não foi filmado, o reverso… talvez por não deter, como dizia Wittgenstein, «aquele
ponto de vista estético» que permite «a contemplação do mundo por um olhar
feliz».
“Os amigos” aproveitam o infausto sucedido para recuperar o irrecuperável tempo perdido e restabelecer os antigos laços de amizade, escalavrados. Se Alex tinha sido quem foi — o mais benquisto e brilhante de entre eles — como se fundamenta uma tão impressiva ausência? e o trágico desenlace pessoal – o suicídio? se Alex foi, na morte, a imperativa razão para aquele felicíssimo reencontro porque foi tão funda e efectiva a ausência, em vida? Chateaubriand dizia que se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo de que não se gosta.
“Os amigos” aproveitam o infausto sucedido para recuperar o irrecuperável tempo perdido e restabelecer os antigos laços de amizade, escalavrados. Se Alex tinha sido quem foi — o mais benquisto e brilhante de entre eles — como se fundamenta uma tão impressiva ausência? e o trágico desenlace pessoal – o suicídio? se Alex foi, na morte, a imperativa razão para aquele felicíssimo reencontro porque foi tão funda e efectiva a ausência, em vida? Chateaubriand dizia que se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo de que não se gosta.
Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos.
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(Moses) Herzog [de Bellow] num
dos “bilhetes”, que rabiscava obsessivamente e espalhava à toa, constatava
meio conformado que «migalhas de honestidade é a única coisa que nós, pobres (no
sentido de comum), podemos dar uns aos outros». Discordo. No fundo, não é a
condição de pobreza que os condena: é a cupidez que invariavelmente se lhe alia.
Por esse facto as pessoas acreditam que a explicação é uma necessidade de
sobrevivência e toda a gente tem de explicar a sua condição. As criaturas são
apanhadas nesse torvelinho e é sempre a afundar. Ignoram os “pobres de espírito” que a atitude dos novos tempos transforma a
vida humana numa ninharia que já não é merecedora da angústia de ninguém. A
mistura do luxo com o lixo e amiúde com excrementos é cada vez mais de mais
dificultosa partição porque o “meio”, orgulhoso e displicente, adora a sua
própria vulgaridade. Há um famoso conselho,
alemão, que diz que se deve esquecer o que não se pode suportar. Ora, dilucidada a
questão «o que é, ou não, suportável» estou, desde que não tolha o passo, em desacordo. Absolutamente.
Há o prélio quando, sem partir, se não aguenta
mais onde se está; na verdade, quem permanece possui um objectivo e peregrina
em direcção ao centro da sua vida.
Desconheço antídoto melhor
do que o de Mitridates que aprendeu a conviver com o veneno — enganou os
assassinos que cometeram o erro de o usar pequenas doses. Ficou em conserva em
vez de ser destruído.


