sábado, 20 de fevereiro de 2016

Ao sol, coçando o saco

~ Fragmentos ~

Há coisas [sem importância (?!)] que se me apegam de tal forma que são o cabo dos trabalhos. Apegam-se-me, talvez por ser suficientemente livre para poder ser incoerente, contraditório, instável, deambulante, provocador e até insidioso. Ou seja não existe constrangimento que obrigue a sacudir-me. O trivial é ser dada forma de idílio uma nova história comparando o presente a um passado, falso, porque odeiam o mundo tal como ele é. Odeiam-no mais pelo facto de o passado que promanam ser falso do que pelo insignificante presente. Os epígonos são sempre mais radicais do que os seus inspiradores.
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“O Passo Suspenso da Cegonha” do grego Theo Angelopoulos é um belo filme. Uma estória sobre desencontros, buscas e reencontros. Um brilhante e reconhecido político (Marcello Mastroianni), depois de um discurso no Parlamento em que apenas afirma a necessidade de ser criado um estado de silêncio que nos permita ouvir a música da chuva, abandona, acompanhado pela mulher (Jeanne Moreau), tudo e todos.

Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos; na verdade é quem vai que leva o objectivo consigo e peregrina em direcção ao centro da sua vida.
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Em 1983, Lawrence Kasdan deu-nos «Os amigos de Alex». Vi e dada a ternura que me sobejou da estreia, revi. Anos depois por não ter sobrepujado a ausência de qualquer coisa – uma explicação – regressei “aos amigos”: desta vez para procurar ver o que não foi filmado, o reverso… talvez por não deter, como dizia Wittgenstein, «aquele ponto de vista estético» que permite «a contemplação do mundo por um olhar feliz».
“Os amigos” aproveitam o infausto sucedido para recuperar o irrecuperável tempo perdido e restabelecer os antigos laços de amizade, escalavrados. Se Alex tinha sido quem foi — o mais benquisto e brilhante de entre eles — como se fundamenta uma tão impressiva ausência? e o trágico desenlace pessoal – o suicídio? se Alex foi, na morte, a imperativa razão para aquele felicíssimo reencontro porque foi tão funda e efectiva a ausência, em vida? Chateaubriand dizia que se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo de que não se gosta.

Na verdade partimos porque já não aguentamos mais onde estamos.
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(Moses) Herzog [de Bellow] num dos “bilhetes”, que rabiscava obsessivamente e espalhava à toa, constatava meio conformado que «migalhas de honestidade é a única coisa que nós, pobres (no sentido de comum), podemos dar uns aos outros». Discordo. No fundo, não é a condição de pobreza que os condena: é a cupidez que invariavelmente se lhe alia. Por esse facto as pessoas acreditam que a explicação é uma necessidade de sobrevivência e toda a gente tem de explicar a sua condição. As criaturas são apanhadas nesse torvelinho e é sempre a afundar. Ignoram os “pobres de espírito” que a atitude dos novos tempos transforma a vida humana numa ninharia que já não é merecedora da angústia de ninguém. A mistura do luxo com o lixo e amiúde com excrementos é cada vez mais de mais dificultosa partição porque o “meio”, orgulhoso e displicente, adora a sua própria vulgaridade. Há um famoso conselho, alemão, que diz que se deve esquecer o que não se pode suportar. Ora, dilucidada a questão «o que é, ou não, suportável» estou, desde que não tolha o passo, em desacordo. Absolutamente.

Há o prélio quando, sem partir, se não aguenta mais onde se está; na verdade, quem permanece possui um objectivo e peregrina em direcção ao centro da sua vida.

Desconheço antídoto melhor do que o de Mitridates que aprendeu a conviver com o veneno — enganou os assassinos que cometeram o erro de o usar pequenas doses. Ficou em conserva em vez de ser destruído.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Escrever frente ao espelho



Se a memória não me atraiçoa foi Roland Barthes [outros há, mas Barthes é Barthes. Ou não?!] que defendia que «não se trata de escrever bem ou escrever mal, mas simplesmente escrever». Se Barthes o disse quem sou eu para duvidar ou (tentar) defender diferente?

Num dos raros e esparsos períodos ou parágrafos em que Eduardo Prado Coelho era Eduardo Prado Coelho ou seja, em que Eduardo Prado Coelho escreveu liberto da(s) grilheta(s) analítica(s) quer dizer, em que Eduardo Prado Coelho escreveu sem estar às cavalitas das citações«A citação é um incitamento porque retirar as palavras do contexto, é abrir espaço para dizer mais» — leio (enfio cada barrete! daqueles que vão até aos pés) 
«Só que o acontecer é fractal: uma viagem é uma soma de dias, cada dia uma soma de horas, cada hora uma soma de minutos, cada minuto uma apoteose de gestos, palavras, deliberações, quimeras, estados mentais conscientes ou inconscientes, segundo uma rede de intermináveis interferências.»
EPC in «Tudo o que não escrevi», Paris – 13.12.1991

Isto é escrita? Escrita é, sem dúvida; porém, má. É uma forma presumida de gastar tinta, grafando palavras com nexo (ao menos isso) para preencher papel.
Seria (o que faz a memória!) uma fortíssima razão para um saudoso professor meu (Chico Barbosa – gilé) de Português (e Francês e História), nos idos dos meus 3º e 4º anos de liceu perdão, colégio, caso se tratasse de uma redacção, a fazer regressar às minhas mãos com um risco oblíquo de alto a baixo, a tinta vermelha, sublinhando um sentencioso e irrefragável «palha» (em letras garrafais).

Mas se Barthes estava repleto de razão — aquém todas as outras que a intelectualidade possui, mas sempre cuida de dissipar —, bem, concluo da maneira seguinte
Não sei se escrevo bem, se escrevo mal. Pois não importa: escrevo. À Barthes! Mas há uma lição, imperecível, que retive, com gratidão
Escreve, sim, mas nunca percas de vista o espelho
E mais não me ensinaram, nem para isso tiveram ocasião. E não aprendi porque o meu “destino” foram as ciências (cada vez menos) exactas (como tem vindo a ser demonstrado). Ufff… um alívio – não há espaço para tergiversações, nem margem para indulgências nem “volutas” para líricos que vão além da beleza intrínseca.
Há conceitos, graças a Deus!

Não fossem os espelhos… 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Uma anedota de país



Há muitas páginas escritas sobre a função do riso em situações trágicas. E há quase tantas páginas escritas sobre o que acontece quando a tragédia é o comunismo e os infelizes que o sofrem recorrem ao humor para mitigar o infortúnio. A URSS é o caso clássico e extremo.
 
Como é que lidam com as infestações de ratos no Kremlin?
Metade morre de fome e a metade restante foge num ápice.

De 1917 a 1989, produziram-se, no devido anonimato, largos milhares de anekdoty sobre a miséria em vigor e os psicopatas que a impunham

Lenine morreu, mas a sua causa viverá!
Por acaso, eu preferia ao contrário.
 
No meio da opressão, o contraste entre os objectivos proclamados dos regimes marxistas e os seus grotescos resultados favorece a galhofa melancólica — se rir não é o melhor remédio, é frequentemente o alívio possível. Assim foi na URSS, assim foi nos "satélites" da URSS e nas metástases do Terceiro Mundo. Há meses, a New Yorker compilou diversas anedotas representativas da sobrevivência na Venezuela, o farol dos povos do século XXI. Eis uma. 
 
Cansado de esperar em fila por alimentos básicos, um homem diz ao amigo que vai matar Maduro. Horas depois, regressa.
"Conseguiste?", pergunta o amigo.
"Não, a fila era ainda maior..."

Um país sabe que iniciou a descida aos abismos sem retorno previsto no momento em que as piadas acerca dos senhores no poder se multiplicam. O exemplo português é o mais recente e um dos mais fulminantes — algumas semanas chegaram para que uma maioria parlamentar alucinada, um governo de desavergonhados e a nulidade que preside ao arranjo nos orientassem rumo ao desastre. Cada dia, enquanto os serviçais da nulidade exaltam o progresso e culpam tudo o que se move pelo atraso, Portugal retrocede um trimestre ou dois, proeza que não tarda a elevar-nos ao glorioso panteão dos indigentes da Terra. 
O humor não tardou. Um destes dias, o pequeno autarca transformado em Grande Líder por seitas de irresponsáveis naturalmente acrescentou pedagogia ao destrambelhamento económico. Decidido a justificar o saque fiscal para satisfazer clientelas, o dr. Costa recomendou que não fumássemos, não andássemos de carro e não contraíssemos empréstimos. Antes que divagasse contra o álcool, o bife e a água quente, certos cidadãos menos anestesiados criaram no Twitter a conta Costa 
 
"Não gaste de uma vez os 60 cêntimos de aumento nas pensões"
"Poupe no IMI e more numa tenda"
"Ande à chuva de boca aberta"
"Aproveite as inundações e desloque-se de canoa"
"Faça xixi no banho e economize no autoclismo"

E é isto. Encontramo-nos em via acelerada para o tipo de sociedade em que apenas as graçolas nos protegem da insanidade e da prepotência. Trata-se, claro, de uma protecção em última instância inútil, e em primeira débil: por "violação das regras", a referida conta depressa desapareceu do Twitter. O comunismo garante a liberdade de expressão, não a liberdade após a expressão - já rezava a anedota, e bem precisamos que as anedotas rezem.

Alberto Gonçalves

domingo, 31 de janeiro de 2016

Creditam a farronca ou não?!


Não temo o plural majestático. No fundo, é deste tipo de controvérsia que gostamos. É por uma polémica com adornos destes que ansiamos. É imbecil das fímbrias até ao tutano, mas é por dissensos destes que aspiramos. O facto é que se assim não fosse os políticos — todos, considerados isoladamente ou em corpos — não se permitiriam vocalizar justificações, explicações e o mais que os carregue desta forma infantil, absolutamente idiota.

O PS, repleto de gente imaginativa — tão imaginativa que parte sempre do princípio de que os outros são tolos e por isso qualquer coisa basta —, justificou a falta de pano para fazer o lençol, mais ou menos, assim 
«As “dúvidas” de Bruxelas quanto à inscrição contabilística das medidas», segundo A. Costa, «devem-se ao anterior governo: a Comissão Europeia estava convencida que os cortes de salários e a sobretaxa [do IRS] eram definitivos.»
«E o que diziam aos portugueses?» pergunta-se-lhe. E ele responde «Diziam que, por serem extraordinárias, eram temporárias.» 
Mas a quem disseram a verdade, afinal? Mesmo supondo verdadeiras as “acusações” o facto é que, por mais voltas que sejam dadas à poia conspirativa, 1 – disseram a verdade aos portugueses, e, 2 – o que Pedro Passos Coelho, ou alguém por ele, disse aos de Bruxelas interesse nada: rigorosamente nada.

É desnecessário acrescentar o que seja, mas se —, por razões de que não me apercebo —, fôr então o caso muda de figura e pelo menos no que respeita à ideia que encerram do povaréu, têm razão: repristinam, e os receptores têm o que merecem. 
Se para os pretendidos efeitos não fôr suficiente tomar o rebanho indígena por uma embrulhada de idiotas inermes, e proceder em conformidade nas palavras e nos actos, atesta-se menoridade intelectual e a incapacidade técnica “dos de Bruxelas” e toca para a frente. 
Estes calhordas não têm limites.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Engraçados increpadores


Em conformidade com as regras de um determinado normativo litúrgico e respeitando escrupulosamente as recomendações inscritas nos manuais da logística insurgente um certo komentariado rabisca por quanto é muro, parede, porta, …, espalha(m) como mancha de óleo nas “redes sociais” que 1 – a grande derrotada foi Maria de Belém e 2 – aprofundam a azia contra a sua candidatura. Que foi fraccionista, de facção, divisionista, etc., dizem/escrevem. Há até guardiões desaustinados que verberam e proferem impropérios contra a «fraude», imagine-se. Ora, quer uma quer a outra coisa, são falsas. Não, não foi! O grande derrotado foi Sampaio da Nóvoa.

Seria ou não em Sampaio da Nóvoa que os votos em Marisa Matias [da rafeirada que se sente representada por aquela «Sociedade Protectora»], em Edgar Silva [nem que para isso tivessem de votar com máscaras cirúrgicas de protecção], parte dos 4% em Maria de Belém e outros tantos dos “brincalhões”, “rebeldes” e “do-contra-porque-sim” em Vitorino Silva, se concentrariam? Seria. Pois o facto é que os votos de Henrique Neto, Vitorino Silva, Edgar Silva, Marisa Matias, Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa, somados, nada obtinham. O resto, na fonte e no percurso, foi táctica.

O que lhes tem falhado, então? Tem falhado, sempre, aquele número de não amestrados, de indomesticáveis que lhes permita encerrar o “ciclo” — o “ciclo” de resultados formalmente inatacáveis que lhes permita instituir «a política como ela deveria ser» em substituição d«a política como ela é» determinada por alguém saído do seu alfobre [aonde são produzidos «o melhor que tem a sociedade civil» para posterior transplante]  e que, por sua vez, lhes permitisse instalar um regime que estaria entre uma democracia popular e uma democracia popular.

É exactamente sobre isso o “lamento«Ciclo Incompleto» de hoje, do libérrimo Rui Tavares, no Público.