quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Repetir a dose



(p´ra não esquecer)
 

Há nove anos, segundo este livro de bordo, não me esqueci de fazer figas. Pelos vistos tinha — e comprovou-se! — fortes razões para. Por acaso, mas só por acaso, estávamos no vestíbulo de um quinquénio glorioso – do PS sob a batuta de Sócrates.
Hoje, entre outras coisas, não me esquecerei de fazer figas. Por acaso, apenas por acaso, estamos no proémio [por enquanto a prefaciar a “obra”] de novo período glorioso – do PS sob a batuta de António Costa.
Desejo portanto que a todos faça o melhor proveito e que, a mim, cause semelhantes prejuízos – não os lamentarei. Saúde!





 



domingo, 27 de dezembro de 2015

Azar do próprio. Mansidão do rebanho (I)



Quem –, estrangeiro ou português a viver fora da circunscrição há tempo bastante para que tenha perdido a noção de como são e funcionam as “nossas coisas” –, aqui chegue e pegue nos jornais, lê no CM «Burocratas matam David»; pega no DN e vê «PGR abriu inquérito à morte de David Duarte. Negligência médica é outra das hipóteses de acusação» e um texto violento do jornalista Nuno Saraiva [se não me equivoco sub-director da “gazeta”] «Um crime sem perdão» e ainda outro, não menos violento Editorial, no Público, «Um preço demasiado alto para a incúria».
Quem –, estrangeiro ou português a viver fora da circunscrição há tempo bastante para que tenha perdido a noção de como são e funcionam as “nossas coisas” é [não é essa a intenção das “caixas” mas que um dos efeitos é esse, é!] — apesar da natureza do infausto acontecimento que origina tamanha indignação e palavrório — levado a esboçar um sorriso de satisfação e a concluir que a sociedade mexe, se inquieta e que “isto vai ao sítio”. Puro engano! “isto” são quinze dias o que equivale por dizer que existe enquanto os jornalistas constatarem que o sucedido está a render. Mas, se por acaso assim não suceder, do resto — o resto é a monstruosa pirâmide legal acrescida da administrativa, da processual e mais o “diabo-que-os-carregue” — já se encarregaram ao longo destes trinta e muitos anos os nossos lídimos representantes: cerzir a mortalha com que havemos de envolver os restos de uma criatura crente na justiça garantida pelo direito democrático, etecétera e tal… E se carecem de algo é insofismavelmente de crentes mui ciosos da “coisa” em que crêem.

A televisão dá "antena" à sra. D. Zélia Fonseca, mãe do malogrado David Duarte, para rogar a disponibilidade e a boa vontade de um advogado a fim de poder exercer, em termos, o mais elementar dos “ressarcimentos” pelo efectivo desprezo com que o filho foi atirado para dentro de um ataúde. Não admira que a senhora tenha de o fazer: afinal o David Duarte era com grande probabilidade apenas um zé-ninguém que, às tantas, se preocupava em aguentar o viver sem se alapar ao exercício dos seus «direitos» e nunca encontrara uma mezinha eficaz para se esquivar ao pagamento dos impostos, devidos, e contribuições, indevidas.Não espanta, portanto…
mais a mais porque se se tratasse de um qualquer “desvalido”, desajustado, filho de família desestruturada, transviado ou bandido [alegado ou apercebido como regenerável] de preferência se procedesse de África, Médio-Oriente [excepção feita a  israelitas, claro],…enfim, uma vítima da sociedade [as opções erradas do próprio nunca podem entrar nestas “contas”] e que satisfizesse a tipologia dos «enquadráveis» por uma qualquer ONG não teria necessidade de ir à televisão: teria, sem tugir ou mugir, a bater-lhe à porta uma falange (sem aspas) deles. Mas nunca é tarde: trata-se da predisposição para apurar a “técnica” e desempenhar comme il faut o papel.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

«Bolo Podre» e «Roupa Velha»



Jorge Tomé, ex-presidente do Banif, diz que “a venda foi um processo desastroso” e reclama “uma auditoria independente às contas, à (sua) gestão, …”; o Ministério Público encontra-se a analisar, no âmbito das suas competências, os elementos que têm vindo a público;  “O Banif é um assunto chocante e tem que ser explicado", defende Horta Osório, reconhecidíssimo banqueiro da City; perante notícias que dão conta de divisões no seio da administração do BdP, Carlos Costa, esclarece que a decisão foi tomada por unanimidade; António Costa, primeiro-ministro, responsabiliza o anterior Governo pelo arrastar do processo; o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admitiu que “não teria uma solução muito diferente”; o PS, o PCP, o BE e a "melancia do PC" (Verdes) exigiram, à vez [só deve falar um de cada vez], uma comissão parlamentar de inquérito; o PSD, por sua vez, anunciou que “está disponível e pretende mais: pretende que “as averiguações vão até às razões que justificaram a capitalização do banco, em 2012”; o CDS-PP apressou-se a dizer que “natural e absolutamente a favor de uma comissão de inquérito” e que, obviamente, “quanto mais se souber e mais depressa se souber, melhor”; os avençados da opinião e comentarismo escrito e/ou falado engasgam-se de indignação e empurram-se para chegar à frente; os tempos de antena das rádios e das televisões em que os «indiferenciados» podem vociferar e sugerir soluções radicais [eu, cá por mim faria...] é o que se imagina; nas “redes (as)sociais” "esgoelam-se" e são mais os pontos de exclamação do que as letras;…



É espantoso como Portugal se levanta num só [sem exagero] quando deseja que haja chinfrim, nada se apure [isento de “mas” e/ou "ses"] e ninguém seja penalizado. Igual só no jantar da Consoada – bacalhau cozido com batatas e couves,…, sonhos. E está feito.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Azar do próprio. Mansidão do rebanho



Era David Duarte por baptismo e tinha 29 anos de idade, mas podia ser David Oliveira e ter 60. Para o caso quer o nome quer a idade são detalhes sem a mínima importância.
Já uma hemorragia cerebral resultante da ruptura de um aneurisma é um azar – fatal na medida em que todos, algum dia, estamos sujeitos; acontecer a um fim-de-semana é azar duplo. Mas terminar no hospital de São José/Lisboa e, apesar da urgência, ser atirado para uma fila de espera a aguardar por intervenção cirúrgica que, segundo justificação prestada por quem de direito, não foi possível porque aos fins-de-semana não há neurocirurgiões disponíveis, não é azar; é mansidão. É mansidão enquanto causa e é mansidão enquanto consequência. E como mansos que somos, admitimos (atribuindo-lhe maior, menor ou nenhuma relevância) tudo. 
1 – admitimos com naturalidade e como fatalismo que os canalhas [no caso Luís Cunha Ribeiro (Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo – ARSLVT), Teresa Sustelo (Centro Hospitalar de Lisboa Central) e Carlos Martins (Centro Hospitalar de Lisboa Norte)] se dêem ao luxo de uma conferência de imprensa para apresentar condolências à família [mas algum destes canalhas se condoeu com o que quer que seja e não diga respeito a alguém que lhes seja muito próximo?!]; 
2 – apresentem as demissões dos respectivos cargos como se uma demissão equivalesse a uma remissão para não dizer uma penitência [mas a demissão resolve alguma coisa? em termos efectivos penaliza-os em algo?! Não e não!] e, pior ainda, 
3 – admitimos que os canalhas se permitam proferir «A ARSLVT e estes hospitais tomaram medidas de imediato para repor uma situação que há anos funcionava de outra forma e que, nos últimos anos, por cortes que tivemos na saúde, levou a que estes hospitais não tivessem recursos humanos para dar respostas a situações como esta» 
que mais não é senão fazer política em proveito próprio, e em cima do cadáver do David Duarte. Entre isto e cuspir-lhe para cima a diferença está no gesto, apenas. 
[Então estes canalhas não encontraram, em quatro anos, ocasião de apelar à dignidade para se demitirem denunciando publicamente a situação?!]

 E nós? Nós somos um rebanho de mansos. Definitivamente.