domingo, 27 de dezembro de 2015

Azar do próprio. Mansidão do rebanho (I)



Quem –, estrangeiro ou português a viver fora da circunscrição há tempo bastante para que tenha perdido a noção de como são e funcionam as “nossas coisas” –, aqui chegue e pegue nos jornais, lê no CM «Burocratas matam David»; pega no DN e vê «PGR abriu inquérito à morte de David Duarte. Negligência médica é outra das hipóteses de acusação» e um texto violento do jornalista Nuno Saraiva [se não me equivoco sub-director da “gazeta”] «Um crime sem perdão» e ainda outro, não menos violento Editorial, no Público, «Um preço demasiado alto para a incúria».
Quem –, estrangeiro ou português a viver fora da circunscrição há tempo bastante para que tenha perdido a noção de como são e funcionam as “nossas coisas” é [não é essa a intenção das “caixas” mas que um dos efeitos é esse, é!] — apesar da natureza do infausto acontecimento que origina tamanha indignação e palavrório — levado a esboçar um sorriso de satisfação e a concluir que a sociedade mexe, se inquieta e que “isto vai ao sítio”. Puro engano! “isto” são quinze dias o que equivale por dizer que existe enquanto os jornalistas constatarem que o sucedido está a render. Mas, se por acaso assim não suceder, do resto — o resto é a monstruosa pirâmide legal acrescida da administrativa, da processual e mais o “diabo-que-os-carregue” — já se encarregaram ao longo destes trinta e muitos anos os nossos lídimos representantes: cerzir a mortalha com que havemos de envolver os restos de uma criatura crente na justiça garantida pelo direito democrático, etecétera e tal… E se carecem de algo é insofismavelmente de crentes mui ciosos da “coisa” em que crêem.

A televisão dá "antena" à sra. D. Zélia Fonseca, mãe do malogrado David Duarte, para rogar a disponibilidade e a boa vontade de um advogado a fim de poder exercer, em termos, o mais elementar dos “ressarcimentos” pelo efectivo desprezo com que o filho foi atirado para dentro de um ataúde. Não admira que a senhora tenha de o fazer: afinal o David Duarte era com grande probabilidade apenas um zé-ninguém que, às tantas, se preocupava em aguentar o viver sem se alapar ao exercício dos seus «direitos» e nunca encontrara uma mezinha eficaz para se esquivar ao pagamento dos impostos, devidos, e contribuições, indevidas.Não espanta, portanto…
mais a mais porque se se tratasse de um qualquer “desvalido”, desajustado, filho de família desestruturada, transviado ou bandido [alegado ou apercebido como regenerável] de preferência se procedesse de África, Médio-Oriente [excepção feita a  israelitas, claro],…enfim, uma vítima da sociedade [as opções erradas do próprio nunca podem entrar nestas “contas”] e que satisfizesse a tipologia dos «enquadráveis» por uma qualquer ONG não teria necessidade de ir à televisão: teria, sem tugir ou mugir, a bater-lhe à porta uma falange (sem aspas) deles. Mas nunca é tarde: trata-se da predisposição para apurar a “técnica” e desempenhar comme il faut o papel.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

«Bolo Podre» e «Roupa Velha»



Jorge Tomé, ex-presidente do Banif, diz que “a venda foi um processo desastroso” e reclama “uma auditoria independente às contas, à (sua) gestão, …”; o Ministério Público encontra-se a analisar, no âmbito das suas competências, os elementos que têm vindo a público;  “O Banif é um assunto chocante e tem que ser explicado", defende Horta Osório, reconhecidíssimo banqueiro da City; perante notícias que dão conta de divisões no seio da administração do BdP, Carlos Costa, esclarece que a decisão foi tomada por unanimidade; António Costa, primeiro-ministro, responsabiliza o anterior Governo pelo arrastar do processo; o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admitiu que “não teria uma solução muito diferente”; o PS, o PCP, o BE e a "melancia do PC" (Verdes) exigiram, à vez [só deve falar um de cada vez], uma comissão parlamentar de inquérito; o PSD, por sua vez, anunciou que “está disponível e pretende mais: pretende que “as averiguações vão até às razões que justificaram a capitalização do banco, em 2012”; o CDS-PP apressou-se a dizer que “natural e absolutamente a favor de uma comissão de inquérito” e que, obviamente, “quanto mais se souber e mais depressa se souber, melhor”; os avençados da opinião e comentarismo escrito e/ou falado engasgam-se de indignação e empurram-se para chegar à frente; os tempos de antena das rádios e das televisões em que os «indiferenciados» podem vociferar e sugerir soluções radicais [eu, cá por mim faria...] é o que se imagina; nas “redes (as)sociais” "esgoelam-se" e são mais os pontos de exclamação do que as letras;…



É espantoso como Portugal se levanta num só [sem exagero] quando deseja que haja chinfrim, nada se apure [isento de “mas” e/ou "ses"] e ninguém seja penalizado. Igual só no jantar da Consoada – bacalhau cozido com batatas e couves,…, sonhos. E está feito.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Azar do próprio. Mansidão do rebanho



Era David Duarte por baptismo e tinha 29 anos de idade, mas podia ser David Oliveira e ter 60. Para o caso quer o nome quer a idade são detalhes sem a mínima importância.
Já uma hemorragia cerebral resultante da ruptura de um aneurisma é um azar – fatal na medida em que todos, algum dia, estamos sujeitos; acontecer a um fim-de-semana é azar duplo. Mas terminar no hospital de São José/Lisboa e, apesar da urgência, ser atirado para uma fila de espera a aguardar por intervenção cirúrgica que, segundo justificação prestada por quem de direito, não foi possível porque aos fins-de-semana não há neurocirurgiões disponíveis, não é azar; é mansidão. É mansidão enquanto causa e é mansidão enquanto consequência. E como mansos que somos, admitimos (atribuindo-lhe maior, menor ou nenhuma relevância) tudo. 
1 – admitimos com naturalidade e como fatalismo que os canalhas [no caso Luís Cunha Ribeiro (Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo – ARSLVT), Teresa Sustelo (Centro Hospitalar de Lisboa Central) e Carlos Martins (Centro Hospitalar de Lisboa Norte)] se dêem ao luxo de uma conferência de imprensa para apresentar condolências à família [mas algum destes canalhas se condoeu com o que quer que seja e não diga respeito a alguém que lhes seja muito próximo?!]; 
2 – apresentem as demissões dos respectivos cargos como se uma demissão equivalesse a uma remissão para não dizer uma penitência [mas a demissão resolve alguma coisa? em termos efectivos penaliza-os em algo?! Não e não!] e, pior ainda, 
3 – admitimos que os canalhas se permitam proferir «A ARSLVT e estes hospitais tomaram medidas de imediato para repor uma situação que há anos funcionava de outra forma e que, nos últimos anos, por cortes que tivemos na saúde, levou a que estes hospitais não tivessem recursos humanos para dar respostas a situações como esta» 
que mais não é senão fazer política em proveito próprio, e em cima do cadáver do David Duarte. Entre isto e cuspir-lhe para cima a diferença está no gesto, apenas. 
[Então estes canalhas não encontraram, em quatro anos, ocasião de apelar à dignidade para se demitirem denunciando publicamente a situação?!]

 E nós? Nós somos um rebanho de mansos. Definitivamente.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Hoje, terrorista; herói, amanhã

A primeira reacção, instintiva, é de raiva; a seguir sobrevém uma sensação de impotência que inúmeras vezes se expressa através de ironia ou sarcasmo para finalmente, me dar a contar até… tantos quantos leve a razão a sugerir qualquer coisa que não catilinárias — tipo «A raiva e o Orgulho» [Oriana Fallaci], «J’Accuse» [Émile Zola] ou … [justificar-se-iam se por acaso gerassem proveitos!]. Pela inconsequência e estultícia.
«O ministro da Justiça belga afirmou que 1os serviços de informação da Bélgica sabiam onde estava, na noite de 15 para 16 de Novembro, Salah Abdeslam o principal suspeito dos atentados de Paris, e 2a polícia não interveio por ser de noite. Uma Lei de 1967 proíbe, com excepção de casos de "flagrante delito" ou "incêndio", buscas entre as 21h. e as 5h. — em situações de terrorismo, a  permissão de buscas 24 horas por dia, necessita de uma alteração ao Código Penal belga.»
Não espanta por razões que não devem ser imputadas ao “terrorista”, mas têm de ser assacadas aos donos da albergaria; não espanta porque adiante, Salah Abdeslam, em território sírio, iraquiano ou qualquer outro, quiçá venha a ser saudado como “herói” de uma “luta” [é forma de designar porquanto a escumalha – esta sorte de operacionais que nelas medram – para mais nada serve/servirá, jamais serviu, que não providenciar os meios para a festa de outros]. E, por essa razão, o mundo absolvê-lo-á dos alegados “crimes”.

Quantos crimes de ódio/sangue carregava às costas Yasser Arafat? Inúmeros.
Que sanções sofreu? A que justificou a visita de Mário Soares ao quartel-general da Autoridade Palestiniana, em Ramalah, e dois ósculos, fraternais, e a garantia de uma fortuna pessoal considerável que, consta, a consternada [pelas vítimas] e pesarosa [pela ausência do amansa clitóris] viúva trata de dar o melhor “destino” – boulevard acima, trottoir abaixo.
Quantas vidas ceifaram Al Megrahi e Lamin Jalifa Fhimah [ou Abdullah al-Senussi –, cunhado de Muammar Khadafi e ex-chefe dos serviços secretos da Líbia – e Nasser Ali Ashour –, responsável da secreta líbia] no atentado de Lockerbie? Um Boeing 747, cheio – 259 passageiros e tripulantes; 11 pessoas em terra. 
Que castigos sofreram? Al Megrahi, de uma pena de 27 anos de prisão, cumpriu oito – por razões humanitárias; Jalifa Fhimah foi absolvido; Nasser Ali Ashour está detido na Líbia.

Quanto mais exemplos se podem arranjar?!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Como não fechar a janela?!



Ando muito distraído. Ou desapegado. 
Foi da “visita” ao blog «Quarta República», lendo um post do dr. J.M.Ferreira de Almeida — Escândalo? Que escândalo? —, que soube que Pacheco Pereira apoia Marisa Matias. Ou para lá caminha. Tal como J.M.Ferreira de Almeida também eu me questiono — Escândalo porquê?

Em primeiro lugar pretendo reafirmar que Pacheco Pereira sempre me provoca a “lembrança” dos contínuos recados que Ovídio enviava para Roma, lá do exílio em Constança, sempre “martirizando-se” com as vidas dos romanos e, sempre, rogando a melhor compreensão do imperador para a sua condição.

José Pacheco Pereira é [responsabilidade a que é alheio] presumidamente um “aristocrata” [diz não o reconhecer, mas continua a dar-lhe imenso jeito] que “ideologicamente” e no final das contas andou de escantilhão da extrema-esquerda para o centro e agora, por culpa do mundo com excepção de si próprio, passa [fiel às suas mais profundas e íntimas pulsões] do “centro” à “extrema-qualquer-coisa” [desde que sugira rebeldia pois tem sido essa suposta aversão racional ao «mainstream» que, afinal, lhe garante de há sete anos para cá as avenças que pelos vistos, os intendentes do dr. Balsemão, entendem conveniente e justificado pagar-lhe].
Antes desta “fase” Pacheco Pereira foi um eficiente prosélito cavaquista – tão convicto que mal se apanhou supondo que mandava qualquer coisa, daquele fervilhante cérebro logo eclodiu a peregrina ideia de condicionar os movimentos dos da comunicação social pelos corredores da AR — sim, mas à vez e se autorizados. Mas disto toda a gente se esqueceu. Ou faz por não lembrar [antes que me esqueça: é claro que durante estes anos foi o Estado a providenciar-lhe a “paparoca”]. 
Pelo meio, o que faz a criatura pela alta cultura desta nação? 
Frui [com todo o direito, convenhamos] de uma biblioteca [importante] em parte legada e outra parte por si aumentada e actualizada, quer dizer não é nem mais nem menos do que um “bibliófilo” [bom proveito lhe faça]; tem uma tara pela recolecta de papelada [há quem coleccione isqueiros, outros caricas, selos e até há quem recolha lixo enfim, antes isso que dar cabeçadas em paredes e muros] e é um obstinado quanto à realização da obra-prima da sua vida [coisa que ele supõe o alcandorará ao panteão dos inesquecíveis como Ian Kershaw, que escreveu a mais reconhecida biografia de Adolf Hitler ou Sir Martin Gilbert, que escreveu a mais reconhecida biografia de Winston Churchill ou mesmo do “colega” Edward Gibbon, que escreveu a monumental e mais reconhecida História do Império Romano] – a biografia do «Barreirinhas». 
(Juro que desconheço se fez filhos e se plantou, pelo menos, uma árvore). 
Há porém um erro de avaliação, crasso: para todos os efeitos [acho desnecessária a justificação] comparar qualquer dos biografados, citados, com o Barreirinhas Cunhal – a mais estimada “trilobite” [fóssil] de Pacheco Pereira – é o mesmo que, em termos absolutos, comparar a “obra” do abade da minha paróquia ao cardeal Joseph Ratzinger [isto se o abade em causa não fôr o abade de Baçal, por exemplo]. Por fim:
— Qual é para a comunidade o «valor acrescentado» quer das munificentes darandinas pachequianas quer dos pereiricos pigarreios televisivos, semanais? Nenhum. 
— O que vale o apoio de Pacheco Pereira? O voto dele, creio. E a lisonja ou os aplausos que, nestas coisas, estão garantidos aos idiotas úteis.

Contas feitas e memórias invocadas, Pacheco Pereira a única vez [na sua vida] em que se propôs ser [Presidente da Comissão Política Distrital do PSD/ Lisboa] o que queria ser [contando para isso com o “peso e importância” da sua pessoa] foi a votos, e perdeu.
Todas as outras chegou aonde chegou [deputado municipal, da república e europeu] não pelo apreço à sua pessoa ou reconhecimento pela sua “valia”, mas por imposição das regras consignadas. Ou seja ninguém votou no PSD por causa dele; votaram nele por causa do PSD. 
O José Pacheco é mais um dos que só não relincha por modéstia. Dá um uso frenético à facúndia sem que disso a sociedade extraia a mais pequena vantagem. 

Não o criaram?! Pois agora aturem-no.