quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Estrelado, o céu, já está.


É uma felicidade pegada.
O primeiro-ministro da Índia dá os parabéns a António Costa [é pena que Mamnoon Hussain do Paquistão não tenha feito o mesmo atribuía um timbre ecuménico e universalista à nota]. Excelente!

Uma ministra é negra, uma secretária-de-estado distingue-se por ser cega, conseguiram um deputado que se locomove em cadeira de rodas, outro é pederasta,… Tudo circunstâncias, constrangimentos,… enfim, qualidades apreciáveis, distintivas e imarcescíveis para se distinguirem nos desempenhos a que se propõem. Notável! 

É tudo tão extraordinário que já apareceu um “coisa-importante” de Angola [“coisa-nenhuma” fora de Angola] arengando — chamou-lhe tabú — sobre as [presumidas] dificuldades que a senhora ministra –, D. Francisca, dra. e digníssima ex-procuradora da República –, terá experimentado para chegar aonde chegou.
Ouço na TSF, que “é a primeira reacção de Angola…”. Reacção?! a que propósito é que, nestas matérias, interessam as opiniões dos angolanos? sendo certo que a culpa não é do Pita-não-sei-quantos da Corimba mas da garotada, crescida, que enxameia a comunicação social. 
 

domingo, 8 de novembro de 2015

O meu alfabeto

Há largos meses um “amigo”, pretérito, dizia-me em mensagem privada que me lia amiúde, e blá, blá, blá… Ao blá, blá, blá retorqui com a paciência de um missionário que, relativamente à maioria dos assuntos a que se referia, teria sempre de não esquecer que os meus estados de alma são na realidade, e apesar de não o denotar, semelhantes ao de quem se entretém a observar o comportamento de um formigueiro como se se tratasse de um entomólogo. Com excepção do 1 – “observador” — não vá qualquer distracção permitir que as formigas o incomodem — e 2 – das reacções comportamentais do formigueiro, nada importa. A melhor maneira de o fazer entender os meus estados de alma na opinião que publico é entendê-los como um hobby – as “minhas formigas” é a comunidade em que estou inserido, a sociedade com que convivo.
Talvez seja uma defesa, aliás, eu acredito que seja uma defesa. Mas é uma defesa que não me constrange, magoa ou angustia por aí além; sai-me mais cara do que o preço que desejo pagar mas, ainda assim, faço por pagar o menor preço possível.
[Obs.: já o facto de a minha “natureza” não me impelir a procurar retirar vantagens de quem se predispõe a isso ou revela individual ou colectivamente a epigrafada idiotia, é uma coroa de louros com que auto-corôo e guardo ciosamente.]
É evidente que esta “medalha” tem um reverso. O reverso da medalha é que cada vez mais faço uma gestão apertadíssima e casuística das concessões a determinadas virtudes cristãs como sejam, por exemplo, a compaixão, a caridade ou a diligência. …jamais esqueço as lições que sinalizo como boas e entre essas encontram-se várias do Pe António Vieira que revisito
«Nem tudo o que parece misericórdia é misericórdia. Há misericórdias, que são misericórdias e mentiras; parecem misericórdias e são respeitos, interesses, afectos — tão contrários a esta virtude como a todas as outras.» 
                                   in Sermão ao Enterro dos Ossos dos Enforcados

O espectáculo Sócrates que ontem nos foi proporcionado pela comunicação social é um “momento” exemplar. Mais impressivo é, à luz da minha sensibilidade e predisposição, uma impossibilidade. Não há apologética ou repúdio que resistam. Do meu “ponto de observação” toda e qualquer apologética é uma bênção ao chavascal; toda e qualquer verberação é pura idiotia. Nada há a fazer!

sábado, 7 de novembro de 2015

O Trilema de Costa *



Tornam-se  semelhantes  à  sua  sombra  os que  olham durante  muito  tempo  para  os macacos
                       provérbio malabar
                            (citado por André Malraux)

Considerando que até à decisão definitiva do CC do PCP [domingo, 08.11] a situação pode, com propriedade, ser considerada de impasse; dado que a trambiquice de A. Costa depende da aquiescência das outras duas “seitas” [BE e PCP] e conhecidos os fundamentos sobre os quais A. Costa alicerça a ecuménica táctica político-partidária de congraçar em redor da fogueira três comparsas [e um assistente, PEV], parece-me que o desafio não é dilemático (dilema), mas trilemático (trilema**) – pelo número de “factores” operativos.
... pela similitude figurativa ou caricatural [isto não é o esquiço de uma tese de doutoramento] e para fazer as honras ao Barão de Münchausen (Karl Friedrich) — um Fernão Mendes Pinto, prussiano, com tiques e manhas de McGyver — celebrizado em Inglaterra pelo “aventureiro” Rudolph Erich Raspe que fez publicar em Inglaterra «Os relatos do Barão de Münchausen». 
Na minha modesta opinião, António Costa vem arremedando bem o prussiano, moderno, para que não subsistam dúvidas quanto ao propósito e “relação” do texto. Das proezas, perspicácia e heroísmos do indómito Barão consta no “livro de bordo”, por exemplo – cap.II, 1º vol.
— “perde o cavalo (1), encontra um lobo (2) e faz com que a fera lhe puxe o trenó” —


Parti de Roma numa jornada em direcção à Rússia com a ideia de que a geada e a neve deveriam ter melhorado as estradas, descritas por todos os viajantes como incomumente ruins. Fui a cavalo. Trajava roupas leves e quanto mais avançava rumo a nordeste, mais sentia a inconveniência delas. O que não deve ter sofrido num clima tão hostil aquele pobre velho que eu vi na Polónia, abandonado à própria sorte, deitado na estrada, desamparado, trémulo de frio e com escassos recursos para cobrir a nudez! Apiedei-me daquela pobre alma… coloquei o meu manto sobre ele e imediatamente ouvi uma voz dos céus, que me abençoava pela caridade, dizendo – “Serás em devido tempo recompensado por isso, meu filho”. (…) Segui o meu caminho. O país estava coberto de neve e eu não conhecia a estrada. Cansado, desmontei e conduzi o meu cavalo para algo que parecia um tronco de árvore pontiagudo que sobressaía na neve (…) Sem muitas considerações, apanhei uma de minhas pistolas, rebentei as rédeas, trouxe de volta o cavalo e prossegui (…) Descobri que, viajar a cavalo no inverno, é bastante desusado (…) submeti-me ao costume do país, apanhando um simples trenó de apenas um cavalo e dirigi-me para São Petersburgo. Não me recordo com exactidão mas lembro-me que no meio da floresta, descobri um temível lobo no meu encalço; seguia-me à velocidade que a fome de um inverno rigoroso o compelia. Não havia possibilidade de escapar (…) deitei-me no trenó e para segurança fiz o cavalo correr. O lobo esqueceu-me inteiramente e, passando por mim, caiu furiosamente sobre o cavalo, retalhando-o. (…) ergui a cabeça e, aterrorizado, vi que o lobo tinha despedaçado o corpo do cavalo. Não havia muito que iniciara o banquete.

Aproveitando-me da situação, caí sobre ele com o cabo do chicote. Este ataque, inesperado, assustou o lobo que saltou com todas as suas forças, abandonando a carcaça e tomando o lugar do cavalo no trenó; eu açoitava-o continuamente. (…) Chegámos ambos a São Petersburgo em alta velocidade e para grande surpresa dos espectadores.

Consta que, nas campanhas militares contra os turcos, o desapiedado Barão de Münchhausen se terá atolado nas areias movediças de uma determinada zona pantanosa. Não existindo algo suficientemente resistente a que se agarrasse e não havendo a quem pedir ajuda, o barão desatolou-se e apareceu para contar. Desatolou-se das areias movediças puxando-se pelos seus próprios cabelos. 

O resto fica por conta da imaginação do(s) leitor(es).

* "alusão" ao Trilema de Münchausen

** situação embaraçosa, da qual só se pode sair por um de três modos – cada qual mais difícil ou inaceitável do que o alternativo.
 
(1) – leia-se “eleições” ou  PàF à escolha
(2) – leia-se PCP

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Momentos de glória



Que o apenso anda num contínuo êxtase, é evidente. Não é caso para menos. Assistem-lhe inúmeras razões para se sentir a levitar. Disso não tem o apêndice que exibir o mais leve embaraço ou a mais breve angústia. Afinal não é o apenso que preenche a plateia.
Vivem na literatura descrições ou apreciações, inultrapassáveis, desse imperecível pathos. Por exemplo, F. Dostoievski  em «Os Demónios» consignou-o assim

«(…) imaginemos uma nulidade a vender bilhetes numa estação dos caminhos-de-ferro. Pois bem. Essa nulidade, com o tempo, terá tendência a comportar-se como Júpiter   pour nous montrer son pouvoir. Semelhante tendência pode elevar-se ao que eu chamo êxtase administrativo.»