sábado, 7 de novembro de 2015

O Trilema de Costa *



Tornam-se  semelhantes  à  sua  sombra  os que  olham durante  muito  tempo  para  os macacos
                       provérbio malabar
                            (citado por André Malraux)

Considerando que até à decisão definitiva do CC do PCP [domingo, 08.11] a situação pode, com propriedade, ser considerada de impasse; dado que a trambiquice de A. Costa depende da aquiescência das outras duas “seitas” [BE e PCP] e conhecidos os fundamentos sobre os quais A. Costa alicerça a ecuménica táctica político-partidária de congraçar em redor da fogueira três comparsas [e um assistente, PEV], parece-me que o desafio não é dilemático (dilema), mas trilemático (trilema**) – pelo número de “factores” operativos.
... pela similitude figurativa ou caricatural [isto não é o esquiço de uma tese de doutoramento] e para fazer as honras ao Barão de Münchausen (Karl Friedrich) — um Fernão Mendes Pinto, prussiano, com tiques e manhas de McGyver — celebrizado em Inglaterra pelo “aventureiro” Rudolph Erich Raspe que fez publicar em Inglaterra «Os relatos do Barão de Münchausen». 
Na minha modesta opinião, António Costa vem arremedando bem o prussiano, moderno, para que não subsistam dúvidas quanto ao propósito e “relação” do texto. Das proezas, perspicácia e heroísmos do indómito Barão consta no “livro de bordo”, por exemplo – cap.II, 1º vol.
— “perde o cavalo (1), encontra um lobo (2) e faz com que a fera lhe puxe o trenó” —


Parti de Roma numa jornada em direcção à Rússia com a ideia de que a geada e a neve deveriam ter melhorado as estradas, descritas por todos os viajantes como incomumente ruins. Fui a cavalo. Trajava roupas leves e quanto mais avançava rumo a nordeste, mais sentia a inconveniência delas. O que não deve ter sofrido num clima tão hostil aquele pobre velho que eu vi na Polónia, abandonado à própria sorte, deitado na estrada, desamparado, trémulo de frio e com escassos recursos para cobrir a nudez! Apiedei-me daquela pobre alma… coloquei o meu manto sobre ele e imediatamente ouvi uma voz dos céus, que me abençoava pela caridade, dizendo – “Serás em devido tempo recompensado por isso, meu filho”. (…) Segui o meu caminho. O país estava coberto de neve e eu não conhecia a estrada. Cansado, desmontei e conduzi o meu cavalo para algo que parecia um tronco de árvore pontiagudo que sobressaía na neve (…) Sem muitas considerações, apanhei uma de minhas pistolas, rebentei as rédeas, trouxe de volta o cavalo e prossegui (…) Descobri que, viajar a cavalo no inverno, é bastante desusado (…) submeti-me ao costume do país, apanhando um simples trenó de apenas um cavalo e dirigi-me para São Petersburgo. Não me recordo com exactidão mas lembro-me que no meio da floresta, descobri um temível lobo no meu encalço; seguia-me à velocidade que a fome de um inverno rigoroso o compelia. Não havia possibilidade de escapar (…) deitei-me no trenó e para segurança fiz o cavalo correr. O lobo esqueceu-me inteiramente e, passando por mim, caiu furiosamente sobre o cavalo, retalhando-o. (…) ergui a cabeça e, aterrorizado, vi que o lobo tinha despedaçado o corpo do cavalo. Não havia muito que iniciara o banquete.

Aproveitando-me da situação, caí sobre ele com o cabo do chicote. Este ataque, inesperado, assustou o lobo que saltou com todas as suas forças, abandonando a carcaça e tomando o lugar do cavalo no trenó; eu açoitava-o continuamente. (…) Chegámos ambos a São Petersburgo em alta velocidade e para grande surpresa dos espectadores.

Consta que, nas campanhas militares contra os turcos, o desapiedado Barão de Münchhausen se terá atolado nas areias movediças de uma determinada zona pantanosa. Não existindo algo suficientemente resistente a que se agarrasse e não havendo a quem pedir ajuda, o barão desatolou-se e apareceu para contar. Desatolou-se das areias movediças puxando-se pelos seus próprios cabelos. 

O resto fica por conta da imaginação do(s) leitor(es).

* "alusão" ao Trilema de Münchausen

** situação embaraçosa, da qual só se pode sair por um de três modos – cada qual mais difícil ou inaceitável do que o alternativo.
 
(1) – leia-se “eleições” ou  PàF à escolha
(2) – leia-se PCP

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Momentos de glória



Que o apenso anda num contínuo êxtase, é evidente. Não é caso para menos. Assistem-lhe inúmeras razões para se sentir a levitar. Disso não tem o apêndice que exibir o mais leve embaraço ou a mais breve angústia. Afinal não é o apenso que preenche a plateia.
Vivem na literatura descrições ou apreciações, inultrapassáveis, desse imperecível pathos. Por exemplo, F. Dostoievski  em «Os Demónios» consignou-o assim

«(…) imaginemos uma nulidade a vender bilhetes numa estação dos caminhos-de-ferro. Pois bem. Essa nulidade, com o tempo, terá tendência a comportar-se como Júpiter   pour nous montrer son pouvoir. Semelhante tendência pode elevar-se ao que eu chamo êxtase administrativo.»



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

À espera de um céu estrelado





O que destinei para Escrito nas estrelas (III) foi titulado «(talvez)  O “azar” que António Costa quis torcer». Mas foi varrido pelo cachão de acontecimentos. As minhas “cogitações” tornaram-se inapropriadas. Não faltarão ocasiões para debater ou adejar sobre se 1 – António Costa os verga, 2 – se se verga ou 3 – se nos deixa a todos mais ou menos vergados (o mais provável!). Aguardarei que o céu fique novamente estrelado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Escrito nas estrelas (II)


(o terceiro de cinco post) 


A sanha de António Costa e o ódio (sem aspas) a Passos Coelho [e Paulo Portas]


Em 06.06.2011, na sequência do “despacho” de Sócrates, anotei
«Se algo de essencial mudar, será [infelizmente] mais por imposições externas do que por opção colectiva.[…] preferia que fosse por opção. […] No “consulado” agora rejeitado fez “escola” uma forma criminosa de utilização dos meios e bens públicos. […] o problema é que se este período foi assim tão nefasto, foi por nunca ter deixado de encontrar lastro na sociedade […]»
22.11.2013
O desassossego não é propriamente com as aflições dos «zés-ninguém» ou os “ataques miseráveis” do governo à Constituição da República e aos direitos consignados. O “problema” é que estão negociados e homologados pela UE os pacotes financeiros da Política de Coesão para o período 2014-2020. E são mais de 20MM €. O cerne [omitido, evidentemente] é «quem acede directamente ao pote». Daí a pressa.
Em política não se toma partido sobre «algo» baseado em valores ou ideias. Não é disso que trata a política. Política é poder e poder é a capacidade que alguém tem de fazer com que os outros [por ameaça, manipulação, coacção ou “comissão”] façam o que quer que seja feito. A política trata de pessoas e meios; não de valores ou fins. O que trata de valores e fins é a filosofia, a religião,…
24.08.2014
No átrio de um promissor, fecundo e florescente período em que o PS, — que detém a maioria dos municípios, a presidência da Associação Nacional de Municípios, a maioria e a presidência de uma (de duas) Juntas Metropolitanas — de olhos esbugalhados, vê a franca possibilidade de acrescentar em 2015, uma maioria absoluta (que equivale a determinar o primeiro-ministro e o governo), possuir a palavra com maior peso na eleição (por maioria de 2/3) de dez (de treze) dos juízes do Tribunal Constitucional, e como em Portugal o impossível é plausível, em 2016, encastelar a Presidência da República.
Antecipo que o empenhamento do PS será, doravante, indómito e arrebatador.

Se fizermos um “balanço” há que concluir que não há, até ao momento e com rigôr, algo que altere a “situação” apesar de o PS não ter logrado a maioria absoluta (mas foi obtê-la às “esquerdas”. Porquê à(s) esquerda(s)?) nem a Presidência da República que se decidirá em Janeiro de 2016.
Porque foi A. Costa buscar respaldo às esquerdas, e não se dispôs a negociar com o PSD? (que me parece seria o expectável por parte da maioria dos eleitores do PS)

O ódio que na realidade existe em relação a Pedro Passos Coelho quer por parte da fina flor do entulho socialista quer por parte do equivalente nas fileiras do PSD e do CDS tem vários nomes dos quais se destaca – Grupo Espírito Santo/Banco Espírito Santo. Outros há mas, digamos, são “sinónimos” a que se recorre na falta da palavra exacta – são Transportes Aéreos de Portugal, CP, Carris, Metropolitano de Lisboa, STCP,…Quem não perceber isto…anda por aí, mas por ver andar os outros.
Equivalente, a este amor e dedicação tão profundos, só encontro entre 1977 e 1981, o que foi dedicado pelo PC [e respectivos satélites políticos e sindicais] a Francisco Sá Carneiro (acima de qualquer outro) e, menos, a António Barreto (“glorificado” em pichagens de norte a sul do país, por tudo quanto era parede ou muro).
À época a razão para tamanha dedicação também teve nome – Reforma Agrária. 

Este, GES/BES, foi o seu pecado mortal. Pedro Passos Coelho teve a coragem (honra lhe seja!) de ir à incubadora e em vez de criar condições para permitir que a serpente visse abrolhar a criaturinha, em vez de se deixar compungir com o silvo da serpente pelo contrário detonou o gâmeta (BES) e estoirou com a incubadora (GES).
Com Pedro Passos Coelho na presidência do PSD, em princípio, jamais haverá condições para negócios entre o PS e o PSD (com ou sem CDS/PP a reboque). Como é evidente nunca será isso que será dado a saber à opinião pública. O pomo da discórdia não é (já não é há muito) ideológico.
Infelizmente, em Portugal, são mais as marcas pessoais que determinam o caminho do que as marcas político-ideológicas, a resolução dos reais problemas da sociedade e as necessidades dos cidadãos. O que não é, aliás, novidade: é tradição.