(o
primeiro de cinco post)
Se vai a uma missa católica, a
dado momento dará com as pessoas a beijarem-se de forma indiscriminada e fraternal
por mais que antes do ósculo se detestem e depois continuem a odiar-se. Se
encontra duas pessoas à bofetada por causa de uma camisa e lhe dizem que a
bordoada começou por diferenças de opinião quanto à côr, só acredita se fôr
parvo. Como é evidente nem a
beijoquice sinaliza a mais leve diminuição de grau de malevolência ou acrimónia
da parte dos “imbuídos” no primeiro caso nem a côr da camisa dissimula a
disputa pela posse, no segundo caso.
A verdade e a política andam de
más relações e ninguém, tanto quanto saiba, contou com a boa-fé no número das
virtudes políticas. As mentiras sempre foram consideradas como instrumentos
necessários e legítimos, não apenas na profissão de político ou demagogo, mas
também na de homem de Estado. No decurso da história, os investigadores e
aqueles que dizem a verdade estiveram sempre conscientes dos riscos que correm
– enquanto não se misturam nos negócios são cobertos de ridículo e quando se
misturam têm de ser suficientemente ladinos para saber divisar a fronteira,
escolher a ala e, por consequência, passam a dizer a verdade conveniente. A
falsidade deliberada, a vulgar mentira, desempenha o seu papel no domínio dos
enunciados de facto. Aparentemente ninguém acredita que a mentira organizada
seja uma arma apropriada contra a verdade, mas é. Na realidade a mentira
organizada, volvidas quatro décadas de “raciocínio livre”, funciona. Existe um real
antagonismo entre a verdade e a política, mas inexistem provas de que assim
tenha de ser. É uma velha e complicada história, a do conflito entre a verdade
e a política!
O pai, um relapso e contumaz
mentiroso, pergunta a Zósima, o stariets (1)
— E o que é que devo fazer para obter a
salvação?
Zósima responde-lhe
— Sobretudo, nunca minta a si próprio!
F. Dostoievski,«Os Irmãos
Karamazov»
Não é necessário conhecer
todas as estrelas para desenhar uma constelação.
(1) monge



