O jornalismo é tão falso
quanto o é a elite de que pretende fazer parte. Em especial o de economia. Jornalismo,
muitas vezes, não é – é mais opinião do que informação. E o bom jornalismo não
mistura Igreja e Estado; não mistura opinião e informação.
«Jornalismo de economia não é
uma coisa nem a outra»
Delfim Netto
Quem tem opinião é o dono, que
é quem paga as contas. Se o jornalista enfia opinião na informação, é porque
exerce a atividade de contrabandista – camufla a opinião do patrão ou a sua,
que só pode ser a mesma do patrão, por definição. Logo, trata-se de um embuste.
Não é jornalismo porque, o
chamado “jornalismo de economia” não é escrito para informar o leitor,
espectador ou ouvinte, mas para informar os economistas dos bancos, que já
sabem o que o jornalista lhes quer dizer. Esta mutação dá-se por dois motivos: 1
- o jornalista de economia adoraria ser economista de um banco; 2 - o jornalista
de economia não faz a menor ideia do que interessa ao leitor.
Existe ainda outra deformação
– os jornalistas de economia pensam que são economistas. Como se de um
“economista” se exigisse mais ou diferente do que é exigido a um dentista!
De resto, os jornalistas (em
geral) nasceram do mesmo ventre – as faculdades de jornalismo que, na grande
maioria, são armadilhas. Como é obrigatório ter um diploma
— uma aberração corporativa — as faculdades de jornalismo são muitas vezes cafetinas
do diploma. Eu finjo que ensino, tu pagas
e eu certifico-te o tirocínio quando na verdade, tudo o que é preciso para ser
jornalista não exige mais de três meses.
O resto é ler Machado de Assis.
E chega-se a outro ponto, capital: a Língua Portuguesa – a de
Machado de Assis e António Vieira. Os
jornalistas de economia são transgressores contumazes – a maioria não sabe
articular, concatenar um texto; não sabem escrever. Além de não
escreverem sobre economia porque
de economia não entendem patavina. Divulgam
press releases. Praticam
jornalismo do “disse que” – fulano disse isto; beltrano disse aquilo;…
Reproduzem
o que os economistas do Banco Central e da banca dizem, quando falam
entre aspas, porque, quando os
economistas dos bancos falam em “off record” dizem o que querem e manipulam os
obsequiosos jornalistas para reproduzirem
os seus pleitos, e os dos bancos.
Como a economia se transformou
na “ciência” dos credores, assim é com o jornalismo: joga na equipa dos que têm
a receber. O devedor — o leitor, o espectador, o ouvinte, o povaréu em geral —
que se lixe! Outro aspecto que conspurca o jornalismo económico é o
proselitismo. O jornalismo é a favor do mais forte, sempre.
A maioria dos jornalistas de
economia só passou o Equador para irem à Disneyland, mas pensa que capta os
sentimentos mais profundos da City ou de Wall Street. Assim como aquele
argentino que usava guarda-chuva sempre que no Times a previsão era de chuva.
Para contar as excepções
chegam os dedos das mãos. Sem repetição.
Paulo Henrique Amorim in «O IVº Poder/Uma
outra história»