quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A mortalha não deve ser uma fantasia



Tanto dei pelo sucedido que estranhei. E suspeitei. 
Nunca tinha ouvido ou lido o que fosse sobre a pessoa e por isso, desconhecia-lhe a existência. Claro que tenho de confessar o trabalho a que não me prestei em ler sequer a “crónica” de João Miguel Tavares porque essas espécies de mortalhas, que alguns sobrevivos logo tratam de cerzir, me causam “brotoeja” – os “discursos” dizem em excesso: ora sublimam a aspereza das coisas, ora criam artefactos de cerimónia; sou vulnerável, talvez por ser avesso, a uma certa e determinada hipocrisia. 
O desfiar tão abrangente e ditirâmbico quanto apressado ao passamento do senhor, aquele “pleno” jornalístico, a encomiástica parlapatice a puxar ao sentimento… digamos que sou mais de apreciar a discrição e a cordura, o recato, o silêncio e, quantas vezes, a ausência nas exéquias em favor do preito solitário. Hmmm…“cheirou-me”!

Fiquei esclarecido aqui, com «(…) É preciso ler a "esquerda.net" para perceber. E já gora esta entrevista, também.(…)» 

Confirmei a suspeita e, melhor, a intuição não me falhou.

domingo, 20 de setembro de 2015

Raspas


Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete
Vasco Pulido Valente


Tal qual o algodão, fora da cozinha. Não engana.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O jornalismo económico é ralo e falso

O jornalismo é tão falso quanto o é a elite de que pretende fazer parte. Em especial o de economia. Jornalismo, muitas vezes, não é – é mais opinião do que informação. E o bom jornalismo não mistura Igreja e Estado; não mistura opinião e informação.

«Jornalismo de economia não é uma coisa nem a outra»
Delfim Netto

Quem tem opinião é o dono, que é quem paga as contas. Se o jornalista enfia opinião na informação, é porque exerce a atividade de contrabandista – camufla a opinião do patrão ou a sua, que só pode ser a mesma do patrão, por definição. Logo, trata-se de um embuste. 
Não é jornalismo porque, o chamado “jornalismo de economia” não é escrito para informar o leitor, espectador ou ouvinte, mas para informar os economistas dos bancos, que já sabem o que o jornalista lhes quer dizer. Esta mutação dá-se por dois motivos: 1 - o jornalista de economia adoraria ser economista de um banco; 2 - o jornalista de economia não faz a menor ideia do que interessa ao leitor.

Existe ainda outra deformação – os jornalistas de economia pensam que são economistas. Como se de um “economista” se exigisse mais ou diferente do que é exigido a um dentista! De resto, os jornalistas (em geral) nasceram do mesmo ventre – as faculdades de jornalismo que, na grande maioria, são armadilhas. Como é obrigatório ter um diploma — uma aberração corporativa — as faculdades de jornalismo são muitas vezes cafetinas do diploma. Eu finjo que ensino, tu pagas e eu certifico-te o tirocínio quando na verdade, tudo o que é preciso para ser jornalista não exige mais de três meses. O resto é ler Machado de Assis.

E chega-se a outro ponto, capital: a Língua Portuguesa – a de Machado de Assis e António Vieira. Os jornalistas de economia são transgressores contumazes – a maioria não sabe articular, concatenar um texto; não sabem escrever. Além de não escreverem sobre economia porque de economia não entendem patavina. Divulgam press releases. Praticam  jornalismo do “disse que” – fulano disse isto; beltrano disse aquilo;…
Reproduzem o que os economistas do Banco Central e da banca dizem, quando falam entre aspas, porque, quando os economistas dos bancos falam em “off record” dizem o que querem e manipulam os obsequiosos jornalistas para reproduzirem os seus pleitos, e os dos bancos.

Como a economia se transformou na “ciência” dos credores, assim é com o jornalismo: joga na equipa dos que têm a receber. O devedor — o leitor, o espectador, o ouvinte, o povaréu em geral — que se lixe! Outro aspecto que conspurca o jornalismo económico é o proselitismo. O jornalismo é a favor do mais forte, sempre.

A maioria dos jornalistas de economia só passou o Equador para irem à Disneyland, mas pensa que capta os sentimentos mais profundos da City ou de Wall Street. Assim como aquele argentino que usava guarda-chuva sempre que no Times a previsão era de chuva.

Para contar as excepções chegam os dedos das mãos. Sem repetição.

Paulo Henrique Amorim in «O IVº Poder/Uma outra história»

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A toda a hora vai o enxurro humano polindo as pedras


Pelos “ecos” que me chegam, a sondagem publicada hoje gerou um estado de catatonia, colectiva – uns, excitados com coisa alguma, roem as unhas para não sair às ruas a vitoriar o que não existe e os outros, revoltados por coisa alguma, contam até vinte e dois antes de abrirem as bocas para expelir a bílis ou expirar «a poeira marxista» * que ainda não pousou por completo e lhes embaça a visão. Quiçá, logo à noite por volta das 22 horas, os excitados d’agora estejam menos estouvados e os agora revoltados, um pouco mais galhofeiros.

Nada, dos gorjeios – a dialéctica e a retórica eleitoral, me interessam porque, com rigor, nada daquilo é senão circo. Nos circos é que há ursos ou não havendo, os ursos preenchem a plateia! Também é facto que o meu desinteresse não deslegitima o interesse dos outros. Desgraçadamente, os pobres daqui, dali e dacoli, teimam em não perceber que a única coisa que podem compartilhar são migalhas de honestidade. Sucede que nem com eles próprios são honestos — pelo menos para quem, como eu, entende que «mastigar, engolir e simultaneamente ter pena do que se está a comer» é de uma “dimensão” inatingível. Ou dispensável!

Já que a felicidade, hoje, figurativamente e não só, se baseia numa “mecânica” de natureza hedónica o que há a fazer é «abrir a braguilha e agarrar a felicidade». Não a larguem! A minha “felicidade” joga-se, e as preocupações esgotam-se, nisto – «A Arábia Saudita dispôs-se pagar a construção de 200 mesquitas na Alemanha, mas indisponibiliza-se para receber refugiados». O que me perturba é ter a certeza de que o homem procura sempre uma filosofia onde caiba o seu temperamento, os seus erros e até os seus crimes. Caso não exista, inventa-a. Estou como Saul Bellow “entre o imperialismo deles e o nosso, prefiro o nosso. As alternativas, especialmente as alternativas desejáveis, só crescem em árvores imaginárias”.


* E.Prado Coelho designou-a por «inconsciente neo-realista»
— a poeira que 30% prolonga por afecto, 30% rejeita por inteligência
e 30% não aceita nem enjeita.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Gente pia



A senhora, setenta e três anos de idade, telefonou.
Fez, em primeiro lugar, à sua maneira e como é recomendável a todas as criaturas pias, a verberação da insensibilidade dos homens e não desaproveitou a oportunidade para desfiar a ladainha contra a ganância humana; depois, com a alma meio-lavada, presumo, fez o laudatório apropriado, suplicou a quem, como ela, espírito amargurado, voz trémula, olhos macerados pelas lágrimas vertidas, consternada com as imagens e relatos que vê e ouve nas televisões quer saber como proceder para receber uma mãe ou um adolescente porque tem uma pequena casinha, vazia, para os acolher. 
Aos setenta e três anos de idade, a senhora ainda não percebe como pode existir quem assista a tudo sem deixar tocar-se, profundamente. E pretende ajudar!

É uma pena, digo eu, que a nobre senhora, setenta e três anos de idade e uma casinha, desimpedida e fechada, tenha desperdiçado um regaço de oportunidades para remir ou expiar eventuais ofensas e omissões suas com
1 - mães e/ou adolescentes não sírios, eritreus, afegãos ou somalis, mas seus concidadãos e igualmente desvalidos; 2 - ao Deus dará, sem eira nem beira, mas decentes; 3 - a encostarem-se em vãos de escadas a embrulharem-se em papel de jornal e/ou caixas de papelão.
Com certeza que sempre houve um punhado deles, que não desmereceriam a casinha da senhora amargurada da casinha desimpedida e fechada.

É escusado!
são tão pios quanto desprezíveis.