domingo, 20 de setembro de 2015
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
O jornalismo económico é ralo e falso
O jornalismo é tão falso
quanto o é a elite de que pretende fazer parte. Em especial o de economia. Jornalismo,
muitas vezes, não é – é mais opinião do que informação. E o bom jornalismo não
mistura Igreja e Estado; não mistura opinião e informação.
«Jornalismo de economia não é
uma coisa nem a outra»
Delfim Netto
Quem tem opinião é o dono, que
é quem paga as contas. Se o jornalista enfia opinião na informação, é porque
exerce a atividade de contrabandista – camufla a opinião do patrão ou a sua,
que só pode ser a mesma do patrão, por definição. Logo, trata-se de um embuste.
Não é jornalismo porque, o
chamado “jornalismo de economia” não é escrito para informar o leitor,
espectador ou ouvinte, mas para informar os economistas dos bancos, que já
sabem o que o jornalista lhes quer dizer. Esta mutação dá-se por dois motivos: 1
- o jornalista de economia adoraria ser economista de um banco; 2 - o jornalista
de economia não faz a menor ideia do que interessa ao leitor.
Existe ainda outra deformação
– os jornalistas de economia pensam que são economistas. Como se de um
“economista” se exigisse mais ou diferente do que é exigido a um dentista!
De resto, os jornalistas (em
geral) nasceram do mesmo ventre – as faculdades de jornalismo que, na grande
maioria, são armadilhas. Como é obrigatório ter um diploma
— uma aberração corporativa — as faculdades de jornalismo são muitas vezes cafetinas
do diploma. Eu finjo que ensino, tu pagas
e eu certifico-te o tirocínio quando na verdade, tudo o que é preciso para ser
jornalista não exige mais de três meses.
O resto é ler Machado de Assis.
E chega-se a outro ponto, capital: a Língua Portuguesa – a de
Machado de Assis e António Vieira. Os
jornalistas de economia são transgressores contumazes – a maioria não sabe
articular, concatenar um texto; não sabem escrever. Além de não
escreverem sobre economia porque
de economia não entendem patavina. Divulgam
press releases. Praticam
jornalismo do “disse que” – fulano disse isto; beltrano disse aquilo;…
Reproduzem
o que os economistas do Banco Central e da banca dizem, quando falam
entre aspas, porque, quando os
economistas dos bancos falam em “off record” dizem o que querem e manipulam os
obsequiosos jornalistas para reproduzirem
os seus pleitos, e os dos bancos.
Como a economia se transformou
na “ciência” dos credores, assim é com o jornalismo: joga na equipa dos que têm
a receber. O devedor — o leitor, o espectador, o ouvinte, o povaréu em geral —
que se lixe! Outro aspecto que conspurca o jornalismo económico é o
proselitismo. O jornalismo é a favor do mais forte, sempre.
A maioria dos jornalistas de
economia só passou o Equador para irem à Disneyland, mas pensa que capta os
sentimentos mais profundos da City ou de Wall Street. Assim como aquele
argentino que usava guarda-chuva sempre que no Times a previsão era de chuva.
Para contar as excepções
chegam os dedos das mãos. Sem repetição.
Paulo Henrique Amorim in «O IVº Poder/Uma
outra história»
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
A toda a hora vai o enxurro humano polindo as pedras
Pelos “ecos” que me chegam, a
sondagem publicada hoje gerou um estado de catatonia, colectiva – uns, excitados
com coisa alguma, roem as unhas para não sair às ruas a vitoriar o que não
existe e os outros, revoltados por coisa alguma, contam até vinte e dois antes
de abrirem as bocas para expelir a bílis ou expirar «a poeira marxista» * que
ainda não pousou por completo e lhes embaça a visão. Quiçá, logo à noite por
volta das 22 horas, os excitados d’agora estejam menos estouvados e os agora revoltados,
um pouco mais galhofeiros.
Nada, dos gorjeios – a
dialéctica e a retórica eleitoral, me interessam porque, com rigor, nada
daquilo é senão circo. Nos circos é que há ursos ou não havendo, os ursos preenchem a plateia! Também é facto que o meu desinteresse não deslegitima o interesse
dos outros. Desgraçadamente, os pobres daqui, dali e dacoli, teimam em não perceber que a única coisa que podem
compartilhar são migalhas de honestidade. Sucede que nem com eles próprios são
honestos — pelo menos para quem, como eu, entende que «mastigar, engolir e
simultaneamente ter pena do que se está a comer» é de uma “dimensão”
inatingível. Ou dispensável!
Já que a felicidade, hoje, figurativamente
e não só, se baseia numa “mecânica” de natureza hedónica o que há a fazer é «abrir
a braguilha e agarrar a felicidade». Não a larguem! A minha “felicidade” joga-se,
e as preocupações esgotam-se, nisto – «A Arábia Saudita dispôs-se pagar a
construção de 200 mesquitas na Alemanha, mas indisponibiliza-se para receber
refugiados». O que me perturba é ter a certeza de que o
homem procura sempre uma filosofia onde caiba o seu temperamento, os seus erros e até os seus crimes. Caso não exista, inventa-a. Estou como Saul Bellow “entre
o imperialismo deles e o nosso, prefiro o nosso. As alternativas, especialmente
as alternativas desejáveis, só crescem em árvores imaginárias”.
* E.Prado
Coelho designou-a por «inconsciente neo-realista»
— a poeira que 30% prolonga
por afecto, 30% rejeita por inteligência
e 30% não aceita nem enjeita.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Gente pia
A senhora, setenta e três anos
de idade, telefonou.
Fez, em primeiro lugar, à sua
maneira e como é recomendável a todas as criaturas pias, a verberação da insensibilidade
dos homens e não desaproveitou a oportunidade para desfiar a ladainha contra a ganância
humana; depois, com a alma meio-lavada, presumo, fez o laudatório apropriado, suplicou
a quem, como ela, espírito amargurado, voz trémula, olhos macerados pelas
lágrimas vertidas, consternada com as imagens e relatos que vê e ouve nas televisões
quer saber como proceder para receber uma mãe ou um adolescente porque tem uma
pequena casinha, vazia, para os acolher.
Aos setenta e três anos de
idade, a senhora ainda não percebe como pode existir quem assista a tudo sem
deixar tocar-se, profundamente. E pretende ajudar!
É uma pena, digo eu, que a nobre
senhora, setenta e três anos de idade e uma casinha, desimpedida e fechada,
tenha desperdiçado um regaço de oportunidades para remir ou expiar eventuais ofensas
e omissões suas com
1 - mães e/ou adolescentes não
sírios, eritreus, afegãos ou somalis, mas seus concidadãos e igualmente desvalidos;
2 - ao Deus dará, sem eira nem beira, mas decentes; 3 - a encostarem-se em vãos
de escadas a embrulharem-se em papel de jornal e/ou caixas de papelão.
Com certeza que sempre houve
um punhado deles, que não desmereceriam a casinha da senhora amargurada da
casinha desimpedida e fechada.
É escusado!
são tão pios quanto
desprezíveis.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Do livro de Job
— O segundo discurso de Elifaz
Merkel era um monstro. Foi, decerto,
a mais caricaturada das personalidades públicas. Os menos imaginativos [ou
serão os mais pícaros?] preenchiam-lhe o espaço entre o nariz
e o bordo labial com um bigode à Hitler [por que não à Charlie
Chaplin/Charlot?]. Por cá, quantas certidões de óbito
foram lavradas à Europa e que aguardam a ausência de sinais vitais para serem
assinadas?
De repente, zás! tudo muda. Angela
é amiga dos refugiados. Uma santa! A chanceler devolveu uma "ideia de
Europa", à Europa. Os jornalecos e os pasquineiros de serviço
grafam títulos do tipo
«Merkel quer abrir
as portas, mas a UE resiste»
— A paciência de Job
A carneirada cresce e vacila
com frequência apreciável. A facilidade com que neste aprisco se odeia e ama é
impressionante. É!
É com a “parecerística” desta
borra social, adestrada, habilitada e homologada pelos opinólogos da
circunvizinhança, que tenho de viver! É! Ainda é como Fernando
Pessoa, constatou
«Nada podemos esperar do esforço instintivo da sociedade nem do esforço infecundo das vontades individuais. A nossa ruína cultural é o mal que nos mina. O nosso homem das classes médias — e as classes médias são o esteio de um país — é mal culto, ignorante, instintivo ou profissionalmente atado. Quem há culto (entre nós), a si próprio se cultiva, e as mais das vezes mal.»Tal e qual!
«Nada podemos esperar do esforço instintivo da sociedade nem do esforço infecundo das vontades individuais. A nossa ruína cultural é o mal que nos mina. O nosso homem das classes médias — e as classes médias são o esteio de um país — é mal culto, ignorante, instintivo ou profissionalmente atado. Quem há culto (entre nós), a si próprio se cultiva, e as mais das vezes mal.»Tal e qual!
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