Faz uma semana, o Público (1) — num cioso serviço à «causa» —, deu
à estampa a missiva (espontânea) que o sr. [prof. dr.] José Mattoso, historiador,
resolveu endereçar a uma das mais refulgentes estrelas do firmamento político
indígena, Rui Tavares, ideólogo e dirigente do não menos promissor
partido-sindicato, Livre/Tempo de Avançar.
Não comentarei a espontaneidade
e as demais razões –, todas genuínas e profundas, aliás – do ridículo exercício porque,
a respeito, tudo remete para, pelo menos, António Gramsci – Escritos
Políticos/ Os dirigentes e as massas – ou Norberto Bobbio –
Os
intelectuais e o Poder/Da presença da cultura e da responsabilidade dos
intelectuais – e isso é, convenhamos, o mesmo que “fustigar-me” com
a beleza de uma crisálida embebida em âmbar.
Comento o que destaquei na
dita (a) e
somente para denunciar o cinismo e a hipocrisia subjacente a cada palavra e
gesto desta progressista gente. Confessa-se alquebrado e desesperançado o Senhor
Professor Doutor, historiador, Mattoso com o futuro. É, além de uma pena, 1 – literalmente
a confissão de que apendeu pouco com a História em que se especializou e 2 – caso
eu, ou outrém reconhecidamente menos progressista, escrevesse algo do género «Para qualquer
lado que me volte — educação, assistência,
economia, religião institucional, relações internacionais, adequação dos
recursos naturais às necessidades básicas, saúde pública, clima, valores,
dignidade humana — as perspectivas globais
do nosso futuro parecem-me aterradoras» seria de imediato apodado de
retrógado ou, dependendo do contexto, de irresponsável pelo teor apocalíptico
ou prédica distópica.
Entre outras a CARTA também comprova
que, à esquerda e à direita, a clarividência não é um substantivo «epiceno»,
digamos assim.
(1) o
que vale mesmo é que toda esta rapaziada, «engajada», dos jornais e do
esclarecimento, à minha pala deixou, há muitos anos, de poder pôr à mesa um
pickle; quanto mais um bife! E maior é a satisfação em saber que, nesse sentido,
a mais profunda vontade deles é uma impossibilidade. Há, como é notório, excepções.
Mas sou eu que as determino, absolutamente; e sem que para isso tenha de pagar.

