segundo Alberto Gonçalves
domingo, 12 de abril de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
Entre o que mente e o que fede; entre a rataria e a verminação
Na universidade ensinaram-me que
um sapo transformar-se num príncipe, é um facto.1
É
preciso uma considerável dose de inconsciência para alguém se entregar sem
reservas a qualquer coisa. O entusiasta é, invariavelmente, um ingénuo. Os
crentes, os apaixonados, os discípulos, só percebem uma das faces dos seus
deuses, das suas potestades, dos seus mestres. Ora investigue as suas
admirações, perscrute os beneficiários do seu “culto” e mais dos que se aproveitam
da sua dedicação e verá que sob os mais desinteressados pensamentos deles, existe
sempre narcisismo, o aguilhão da glória, sede de “domínio” e de poder.
Quem
percebe os aspectos de alguém ou algo fica indeciso o torpor e a repulsa — amiúde
arrependido de enlevos e encantos. Basta um momento de atenção para que a “embriaguez” seja
abalada, outro para constatar que tanto ardor só produz uma variedade de
“catarro” e ainda outro para excogitar que no fundo de um suspiro, se esconde sempre
uma careta.
A
vigília altera o sabor dos arroubos.
Entre a babugem e a peralvilhice, que no meio de toda esta badalhoquice
impera, não há alento ou razão para perscrutar algo que mereça loas. Umas
quantas eminências pardas do “pensamento” luso mas que realmente não passam de
reles adelos culturais, arquétipos da flatulência, supinos intérpretes desta original
maneira de existir, dizem que é necessária uma Nova República, leia-se esta democracia regenerada — por causa da “degradação
dos partidos”, “descredibilização dos políticos e política”, para contrariar o “alheamento
dos cidadãos”, pela exigência de uma incontornável “mudança de paradigma” e outras
vacuidades que tais.
Há
um tabelião em cada “santo”, um porteiro em cada mártir e um vendedor em todo o
herói. Foram quarenta e oito anos
de verminação e quarenta e um de rataria — entre vermes e ratos que venha
o diabo, que escolha e os
leve.
“Sacrifícios”, “orações”, chorumelas, arengas,… esterilizadas dos fluidos e dos germes do “bordel”, não existem. Uma Nova República, leia-se, esta democracia regenerada com quem? com esta gente?! Quem está limpo evita falar, diz o que lhe parece de uma vez, evita aparecer, enfim, não se vêm enfiar na choldra 2.
“Sacrifícios”, “orações”, chorumelas, arengas,… esterilizadas dos fluidos e dos germes do “bordel”, não existem. Uma Nova República, leia-se, esta democracia regenerada com quem? com esta gente?! Quem está limpo evita falar, diz o que lhe parece de uma vez, evita aparecer, enfim, não se vêm enfiar na choldra 2.
Há
devoção sem elisão ou eclipse da inteligência?
Sem que o encanto e imbecilidade se
traiam, não há sentimentos puros.
Escolha.
No ensino básico, ensinaram-me que
só nos contos de fadas é que um sapo se
transforma num príncipe.1
1. Ron Carlson, novelista americano
2. é, no fundo, a razão para a recusa de António Guterres. Entre
a irrelevância da mais alta magistratura doméstica (PR), plausível, e a menos
plausível utilidade do presente comissariado ou o hipotético secretariado-geral
da ONU, não teve dúvidas.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Os descamisados doutorados
A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) e a ciência social ao estilo CES (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra) — que a sua própria direcção classifica como “ciência social crítica” ou “ciência cidadã” — estão ligadas por um cordão umbilical que diz muito acerca das debilidades estruturais deste país e do perigo da aposta acrítica na “qualificação” -- o cavalo favorito de António Costa e dos governos socialistas. (…) não é tão bonito investir na educação, na formação, na qualificação, e em outras palavras acabadas em “ão” que enchem a boca e o coração. É, é. Só que, quando juntamos 1) a política de doutoramentos e pós-doutoramentos criada por Mariano Gago e patrocinada pela FCT, 2) as limitações e a falta de competitividade da economia portuguesa e 3) a chegada em força da austeridade e o aumento dramático do desemprego jovem, o resultado deste cocktail só pode ser um: a criação de um exército de descamisados doutorados, completamente dependentes da boa-venturança do senhor professor que dá uma ajudinha para conseguir a bolsa do pós-doc, e que chegam aos 35 e aos 40 anos numa situação lastimável, sem forma de ingressar nos quadros das universidades (fechados e cheios de gente menos competente do que eles), sem uma vida profissional estável e com excesso de qualificações para os empregos disponíveis. Os números não mentem (…) Em 1997, doutoraram-se 579 portugueses; em 2013, doutoraram-se 2668. Ou seja, enquanto o país afocinhava, as qualificações dos portugueses não paravam de subir. Seria fantástico se o sector privado conseguisse absorver um quinhão significativo dos doutorados. Um estudo de 2009 sobre a situação profissional dos doutorados em Portugal indicava a existência de 17.010 a trabalhar em investigação e desenvolvimento. Quantos é que o faziam fora das universidades, em empresas privadas? 196. É esta a força da investigação e do desenvolvimento em Portugal. (…) se olharmos para o domínio específico das ciências sociais, não é difícil adivinhar o credo da última década: “fora da universidade (ou do laboratório associado) não há salvação”.
Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e Carvalho da Silva têm um batalhão de doutorados descamisados, frustrados e politizados às suas ordens, ofertados por Mariano Gago, pela débil economia e pelo país intervencionado. Há que entendê-los: a tentação de criar as condições para que um dia possa nascer um Pablo Iglesias do Mondego é demasiado grande. E é para isso que eles trabalham. “Cientificamente”.
João Miguel Tavares
Não é com palha que se apagam fogos
São ditas e escritas “coisas”
porque sim. Christine Lagarde adora dizê-las — não que as suas palavras
contribuam para alterar o que seja, mas pelo incoercível fascínio à televisão,
ou seja, uma tara; o FMI, idem — via
estudos, avaliações, projecções, correcções,… Em Portugal, diz Christine “é necessário mais investimento público em infra-estruturas
para convencer os investidores privados a assumir riscos” porque “Portugal é um dos países em que a quebra do investimento 1 foi mais
acentuada apenas superado pela Grécia, Irlanda e Espanha”.
Não fossem 1 - o estado de
necessidade do erário público, 2 - os reflexos do investimento no aumento da
dívida pública e, por consequência, i) o
peso do serviço da dívida no orçamento, 3 - a descapitalização e o
endividamento das empresas, 4 - a banca ter substituído a malha do crivo
creditício por outra mais apertada — em parte, por necessidade e outra parte,
por imposição —, etc… e não perscruto como
discordar da “prescrição”. Mais sugere a instituição e Lagarde: reformas
estruturais — exemplifica com o mercado de trabalho e limpeza dos balanços dos bancos.
Ora se isto são as reformas estruturais, “vou ali e não volto”: a
limpeza dos balanços dos bancos está por conta do BCE e o mercado de trabalho
como está, basta - além de não ser o principal constrangimento nem o mais
prejudicial factor.
————
— Em 1937, o secretário do
Tesouro dos EUA, Henry Morgenthau, num discurso perante a Academy of Political
Science disse «Tentámos gastar o mais possível de dinheiro para lutar contra a
crise 2. O resultado é que hoje temos a mesma taxa de desemprego que
quando chegámos ao poder, mas temos uma enorme dívida pública»
Os discípulos de Keynes,
desgostaram. E tinham razão [os EUA saíram do buraco com imenso investimento
público] — dois anos depois, de sopetão, os EUA erigiram o seu gigantesco
complexo militar-industrial, criaram milhões de empregos civis e outros tantos
nas forças armadas: os primeiros, na logística militar [em casa] e os segundos,
[na Europa] como operacionais — uma carabina nas mãos;
— Em assuntos deste âmbito são
dispensáveis “visitas”; possuímos, portas adentro, ao longo da história,
múltiplos desenlaces lastimáveis. Mestre em «gastar por conta» foi, por
exemplo, D. João III. Portugal era, de facto, uma potência (económica) — pelintra, mas potência. Muita gente embarcada,
mas poucas e insuficientes remessas. A
receita diminuta, limitada e baseada essencialmente na agricultura. O défice
aumenta. D. João III inventa impostos — não bastam; D. João III pede dinheiro —
a banqueiros de Antuérpia e Bensançon — a descontar nos “proveitos” futuros do
Brasil, e deu no que deu.
—————
— Segundo o JPMorgan, 30.03.15, citado pela Bloomberg, os bancos centrais estão a imprimir mais de 130
mil milhões de dólares por mês.
É útil? é bom? É, mas tem vida curta e deixa, sempre, um lastro pesado.
— Guan Jianzhong, presidente da Dagong Rating Agency, fez avisos sérios e que deviam
emudecer um bando de papagaios, certificados, que por aí andam palrando sem
proveito algum para a sociedade [é a minha insignificante opinião]
«vamos enfrentar uma nova
crise financeira mundial nos próximos anos (…) todos os sinais de alerta estão
presentes: volume crescente de dívidas e um progresso económico instável
das economias nos EUA, Europa, China e outros países em desenvolvimento (…) Os
países desenvolvidos, incluindo os EUA e a União Europeia, continuam a ser os
grandes consumidores (…) estes países excederam o potencial para a produção de
bens, criando
uma bolha (…) apenas irão crescer se houver procura para o
consumo, num contexto em que o principal potenciador deste
consumo é o crédito - os EUA, a Europa e o Japão estão a
aumentar o consumo através do crescimento do crédito o que representa um risco exacerbado
através das políticas de expansão monetária e do recurso à
impressora por parte dos principais bancos centrais»
————
«De tempos em tempos, os homens tropeçam
na verdade mas a maioria deles levanta-se e segue em frente como se nada
tivesse acontecido» escreveu Winston Churchill. O problema não são os “tropeços” ou tropeções que
os homens dão [quem anda à chuva pode molhar-se e quem se molha, seca-se] e ainda
menos é “a maioria levantar-se e seguir em frente” [quem quer bolota, trepa]; o
problema é que, depois, decidem fazer “como
se nada tivesse acontecido” [aconteceu por responsabilidade
ou culpa de “outrém”, certamente].
1. «o investimento caiu 30,3%
entre 2010 e 2013, recuperando 8,6% entre 2013 e 2016», CE
2. Grande Depressão, 1929
terça-feira, 7 de abril de 2015
Merchandising
A sociedade ilegal, sente-se — haja
mais ou menos escuta, mais ou menos arguido. E sente-se que trata de igual para
igual com a sociedade legal. É fatal que a partir do momento em que 1 - a
democracia se restringe ao sufrágio universal, 2 - não existem contrapoderes,
efectivos e 3 - a obscuridade dissimula o(s) seu(s) criador(es), predomina a
solidariedade entre os detentores do poder.
E a nada disto se põe fim
porque no fundo no fundo — da comunicação social [que sobrevive e tem dono]
passando pela opinião publicada [que justifica a avença] à opinião pública [que
é o que sempre foi: uma mole de videirinhos por circunstância, voluntária e gratamente imbecilizada] — pouco
mais exige neste, naquele ou naqueloutro casos de [alegada] corrupção [ou crime
consumado] senão um exutório colectivo e uns poucos bodes expiatórios.
Portugal funciona de uma forma
mafiosa — ligações de interesses cruzados; trocas de poder e posições; trocas
de dinheiro sem transparência… tudo enquadrado por instrumentos de influência
que obstam a que quem quer que seja «faça fogo sobre o quartel-general»; em
Portugal existe há décadas uma sociedade invisível no interior da sociedade
visível. E nunca parou de crescer a expensas da segunda.
A "sinopse" é [entre
as dezenas de casos conhecidos e mais as centenas que escapam à "malha"; é
fácil perceber que, muito do investigado, o é apenas e só no contexto das trocas
de poder e posições] prova disso — independentemente de ser ou não feita prova
de crime.
1.António Figueiredo, presidente do IRN, telefona a Vaz das Neves, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Vaz das Neves oferece-lhe apoio “em tudo o que seja necessário”, “pessoal e institucionalmente”; 2.Antero Luís, director do SIS, janta na embaixada da República Popular da China com empresários chineses, o empresário Artur Varum, António Figueiredo e Jaime Gomes — antigo sócio de Miguel Macedo — ex-ministro; Horácio Pinto, líder do SIS, não comparece — está de férias. O jantar é para captar interessados na compra dos terrenos da Feira Popular de Lisboa; 3.António Figueiredo liga a José M.Barbosa — advogado e consultor na CML; Barbosa diz que Figueiredo lhe telefonou [de um número que não era dele] dando conta que os chineses queriam comprar os terrenos da Feira Popular. Barbosa conhece Zhu por intermédio de António Figueiredo; 4.Antero Luis, director SIS, acompanha “de perto a acção desenvolvida” por António Figueiredo com o empresário angolano, Eliseu Bumba.
(…)
António Figueiredo alega que não faz mais do que Paulo Portas, e outros
~ promover Portugal ~
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