sábado, 11 de abril de 2015

Entre o que mente e o que fede; entre a rataria e a verminação

Na universidade ensinaram-me que um sapo transformar-se num príncipe, é um facto.1
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É preciso uma considerável dose de inconsciência para alguém se entregar sem reservas a qualquer coisa. O entusiasta é, invariavelmente, um ingénuo. Os crentes, os apaixonados, os discípulos, só percebem uma das faces dos seus deuses, das suas potestades, dos seus mestres. Ora investigue as suas admirações, perscrute os beneficiários do seu “culto” e mais dos que se aproveitam da sua dedicação e verá que sob os mais desinteressados pensamentos deles, existe sempre narcisismo, o aguilhão da glória, sede de “domínio” e de poder.
Quem percebe os aspectos de alguém ou algo fica indeciso o torpor e a repulsa — amiúde arrependido de enlevos e encantos. Basta um momento de atenção para que a “embriaguez” seja abalada, outro para constatar que tanto ardor só produz uma variedade de “catarro” e ainda outro para excogitar que no fundo de um suspiro, se esconde sempre uma careta.
A vigília altera o sabor dos arroubos.

Entre a babugem e a peralvilhice, que no meio de toda esta badalhoquice impera, não há alento ou razão para perscrutar algo que mereça loas. Umas quantas eminências pardas do “pensamento” luso mas que realmente não passam de reles adelos culturais, arquétipos da flatulência, supinos intérpretes desta original maneira de existir, dizem que é necessária uma Nova República, leia-se esta democracia regenerada — por causa da “degradação dos partidos”, “descredibilização dos políticos e política”, para contrariar o “alheamento dos cidadãos”, pela exigência de uma incontornável “mudança de paradigma” e outras vacuidades que tais.
Há um tabelião em cada “santo”, um porteiro em cada mártir e um vendedor em todo o herói. Foram quarenta e oito anos de verminação e quarenta e um de rataria — entre vermes e ratos que venha o diabo, que escolha e os leve.
“Sacrifícios”, “orações”, chorumelas, arengas,… esterilizadas dos fluidos e dos germes do “bordel”, não existem. Uma Nova República, leia-se, esta democracia regenerada com quem? com esta gente?! Quem está  limpo evita falar, diz o que lhe parece de uma vez, evita aparecer, enfim, não se vêm enfiar na choldra 2.

Há devoção sem elisão ou eclipse da inteligência?
Sem que o encanto e imbecilidade se traiam, não há sentimentos puros.

Escolha.
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No ensino básico, ensinaram-me que só nos contos de  fadas é que um sapo se transforma num príncipe.1



1. Ron Carlson, novelista americano
2. é, no fundo, a razão para a recusa de António Guterres. Entre a irrelevância da mais alta magistratura doméstica (PR), plausível, e a menos plausível utilidade do presente comissariado ou o hipotético secretariado-geral da ONU, não teve dúvidas.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os descamisados doutorados

A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) e a ciência social ao estilo CES (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra) — que a sua própria direcção classifica como “ciência social crítica” ou “ciência cidadã” — estão ligadas por um cordão umbilical que diz muito acerca das debilidades estruturais deste país e do perigo da aposta acrítica na “qualificação” -- o cavalo favorito de António Costa e dos governos socialistas. (…) não é tão bonito investir na educação, na formação, na qualificação, e em outras palavras acabadas em “ão” que enchem a boca e o coração. É, é. Só que, quando juntamos 1) a política de doutoramentos e pós-doutoramentos criada por Mariano Gago e patrocinada pela FCT, 2) as limitações e a falta de competitividade da economia portuguesa e 3) a chegada em força da austeridade e o aumento dramático do desemprego jovem, o resultado deste cocktail só pode ser um: a criação de um exército de descamisados doutorados, completamente dependentes da boa-venturança do senhor professor que dá uma ajudinha para conseguir a bolsa do pós-doc, e que chegam aos 35 e aos 40 anos numa situação lastimável, sem forma de ingressar nos quadros das universidades (fechados e cheios de gente menos competente do que eles), sem uma vida profissional estável e com excesso de qualificações para os empregos disponíveis. Os números não mentem (…) Em 1997, doutoraram-se 579 portugueses; em 2013, doutoraram-se 2668. Ou seja, enquanto o país afocinhava, as qualificações dos portugueses não paravam de subir. Seria fantástico se o sector privado conseguisse absorver um quinhão significativo dos doutorados. Um estudo de 2009 sobre a situação profissional dos doutorados em Portugal indicava a existência de 17.010  a trabalhar em investigação e desenvolvimento. Quantos é que o faziam fora das universidades, em empresas privadas? 196. É esta a força da investigação e do desenvolvimento em Portugal. (…) se olharmos para o domínio específico das ciências sociais, não é difícil adivinhar o credo da última década: “fora da universidade (ou do laboratório associado) não há salvação”. 
Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e Carvalho da Silva têm um batalhão de doutorados descamisados, frustrados e politizados às suas ordens, ofertados por Mariano Gago, pela débil economia e pelo país intervencionado. Há que entendê-los: a tentação de criar as condições para que um dia possa nascer um Pablo Iglesias do Mondego é demasiado grande. E é para isso que eles trabalham. “Cientificamente”.
João Miguel Tavares

Não é com palha que se apagam fogos

São ditas e escritas “coisas” porque sim. Christine Lagarde adora dizê-las — não que as suas palavras contribuam para alterar o que seja, mas pelo incoercível fascínio à televisão, ou seja, uma tara; o FMI, idem — via estudos, avaliações, projecções, correcções,… Em Portugal, diz Christine “é necessário mais investimento público em infra-estruturas para convencer os investidores privados a assumir riscos” porque “Portugal é um dos países em que a quebra do investimento 1 foi mais acentuada apenas superado pela Grécia, Irlanda e Espanha”.
Não fossem 1 - o estado de necessidade do erário público, 2 - os reflexos do investimento no aumento da dívida pública e, por consequência, i) o peso do serviço da dívida no orçamento, 3 - a descapitalização e o endividamento das empresas, 4 - a banca ter substituído a malha do crivo creditício por outra mais apertada — em parte, por necessidade e outra parte, por imposição —, etc… e não perscruto como discordar da “prescrição”. Mais sugere a instituição e Lagarde: reformas estruturais — exemplifica com o mercado de trabalho e limpeza dos balanços dos bancos. Ora se isto são as reformas estruturais, “vou ali e não volto”: a limpeza dos balanços dos bancos está por conta do BCE e o mercado de trabalho como está, basta - além de não ser o principal constrangimento nem o mais prejudicial factor.
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— Em 1937, o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Morgenthau, num discurso perante a Academy of Political Science disse «Tentámos gastar o mais possível de dinheiro para lutar contra a crise 2. O resultado é que hoje temos a mesma taxa de desemprego que quando chegámos ao poder, mas temos uma enorme dívida pública»
Os discípulos de Keynes, desgostaram. E tinham razão [os EUA saíram do buraco com imenso investimento público] — dois anos depois, de sopetão, os EUA erigiram o seu gigantesco complexo militar-industrial, criaram milhões de empregos civis e outros tantos nas forças armadas: os primeiros, na logística militar [em casa] e os segundos, [na Europa] como operacionais — uma carabina nas mãos;
— Em assuntos deste âmbito são dispensáveis “visitas”; possuímos, portas adentro, ao longo da história, múltiplos desenlaces lastimáveis. Mestre em «gastar por conta» foi, por exemplo, D. João III. Portugal era, de facto, uma potência (económica)  — pelintra, mas potência. Muita gente embarcada, mas poucas  e insuficientes remessas. A receita diminuta, limitada e baseada essencialmente na agricultura. O défice aumenta. D. João III inventa impostos — não bastam; D. João III pede dinheiro — a banqueiros de Antuérpia e Bensançon — a descontar nos “proveitos” futuros do Brasil, e deu no que deu.
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Segundo o JPMorgan, 30.03.15, citado pela Bloomberg, os bancos centrais estão a imprimir mais de 130 mil milhões de dólares por mês.
É útil? é bom? É, mas tem vida curta e deixa, sempre, um lastro pesado.
— Guan Jianzhong, presidente da Dagong Rating Agency, fez avisos sérios e que deviam emudecer um bando de papagaios, certificados, que por aí andam palrando sem proveito algum para a sociedade [é a minha insignificante opinião]
«vamos enfrentar uma nova crise financeira mundial nos próximos anos (…) todos os sinais de alerta estão presentes: volume crescente de dívidas e um progresso económico instável das economias nos EUA, Europa, China e outros países em desenvolvimento (…) Os países desenvolvidos, incluindo os EUA e a União Europeia, continuam a ser os grandes consumidores (…) estes países excederam o potencial para a produção de bens, criando uma bolha (…) apenas irão crescer se houver procura para o consumo, num contexto em que o principal potenciador deste consumo é o crédito - os EUA, a Europa e o Japão estão a aumentar o consumo através do crescimento do crédito o que representa um risco exacerbado através das políticas de expansão monetária e do recurso à impressora por parte dos principais bancos centrais»
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«De tempos em tempos, os homens tropeçam na verdade mas a maioria deles levanta-se e segue em frente como se nada tivesse acontecido» escreveu Winston Churchill. O problema não são os “tropeços” ou tropeções que os homens dão [quem anda à chuva pode molhar-se e quem se molha, seca-se] e ainda menos é “a maioria levantar-se e seguir em frente” [quem quer bolota, trepa]; o problema é que, depois, decidem  fazer “como se nada tivesse acontecido” [aconteceu por responsabilidade ou culpa de “outrém”, certamente].


1. «o investimento caiu 30,3% entre 2010 e 2013, recuperando 8,6% entre 2013 e 2016», CE
2. Grande Depressão, 1929

terça-feira, 7 de abril de 2015

Merchandising

A sociedade ilegal, sente-se — haja mais ou menos escuta, mais ou menos arguido. E sente-se que trata de igual para igual com a sociedade legal. É fatal que a partir do momento em que 1 - a democracia se restringe ao sufrágio universal, 2 - não existem contrapoderes, efectivos e 3 - a obscuridade dissimula o(s) seu(s) criador(es), predomina a solidariedade entre os detentores do poder.
E a nada disto se põe fim porque no fundo no fundo — da comunicação social [que sobrevive e tem dono] passando pela opinião publicada [que justifica a avença] à opinião pública [que é o que sempre foi: uma mole de videirinhos por circunstância,  voluntária e gratamente imbecilizada] — pouco mais exige neste, naquele ou naqueloutro casos de [alegada] corrupção [ou crime consumado] senão um exutório colectivo e uns poucos bodes expiatórios.
Portugal funciona de uma forma mafiosa — ligações de interesses cruzados; trocas de poder e posições; trocas de dinheiro sem transparência… tudo enquadrado por instrumentos de influência que obstam a que quem quer que seja «faça fogo sobre o quartel-general»; em Portugal existe há décadas uma sociedade invisível no interior da sociedade visível. E nunca parou de crescer a expensas da segunda.

A "sinopse" é [entre as dezenas de casos conhecidos e mais as centenas que escapam à "malha"; é fácil perceber que, muito do investigado, o é apenas e só no contexto das trocas de poder e posições] prova disso — independentemente de ser ou não feita prova de crime.

1.António Figueiredo, presidente do IRN, telefona a Vaz das Neves, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Vaz das Neves oferece-lhe apoio “em tudo o que seja necessário”, “pessoal e institucionalmente”; 2.Antero Luís, director do SIS, janta na embaixada da República Popular da China com empresários chineses, o empresário Artur Varum, António Figueiredo e Jaime Gomes — antigo sócio de Miguel Macedo — ex-ministro; Horácio Pinto, líder do SIS, não comparece — está de férias. O jantar é para captar interessados na compra dos terrenos da Feira Popular de Lisboa; 3.António Figueiredo liga a José M.Barbosa — advogado e consultor na CML; Barbosa diz que Figueiredo lhe telefonou [de um número que não era dele] dando conta que os chineses queriam comprar os terrenos da Feira Popular. Barbosa conhece Zhu por intermédio de António Figueiredo; 4.Antero Luis, director SIS, acompanha “de perto a acção desenvolvida” por António Figueiredo com o empresário angolano, Eliseu Bumba.
(…)
António Figueiredo alega que não faz mais do que Paulo Portas, e outros 
                      ~ promover Portugal ~