«Tantos anos de
disputas, tantas subtilezas, não deitam uma oitava de verdadeiro espírito filosófico,
quero dizer de um juízo prudente e crítico, capaz de fazer observações úteis e
discorrer com fundamento sobre as causas de qualquer efeito natural. A três ou quatro palavras se
reduz toda a sua filosofia natural. Pasma um homem de ver a facilidade
com que explicam qualquer fenómeno que se oferece»
Luis António
Verney
Para fazer umas quantas "profecias" não é
preciso ser lince até porque as velhas brigadas pesam sobre as novas e as novas ainda não arrecadaram alentos
para definir o roteiro da demanda e, simultaneamente, tirar aqueles de cima.
Sabendo-se que a fé, bem ou mal fundamentada,
é uma espécie de elixir que presta para a alma e também para o corpo; sabendo-se
que a popularidade é como as urtigas - nascem em qualquer canto, medram e
frutificam sem auxílio de mão estranha e sabendo-se que é nas ruas que
se formam e se consagram as reputações dos Alcibíades, nada é de espantar.
Cumpridas as formalidades do estilo e
pouco depois de ter sido dado o sinal chegou, por convite, cravo
vermelho na mão, o “núncio” do Advento, o arauto das boas-venturanças, o cruzado
contra o «capitalismo selvagem» fadado a ser uma desinência da Democracia em
nome de uma «nova política» que nos revelará o «homem novo».
Sampaio da Nóvoa,
apresentou-se «aqui-estou-eu-que-posso,-se-quiser,-deitar-a-porta-abaixo;-arcar-com-patrulhas;-pôr-em-debandada-umas-dúzias;-varrer-a-feira-a-pau,-com-o-desassombro-de-quem-
está-resolvido-em-tirar-a-limpo-e-acabar- com-“pendências”-etc.», e
1 -
“a todas as
esquerdas, a todas as forças de mudança existentes em Portugal”, 2 - “É tempo de abrir um tempo novo para Portugal”,
3 - “sempre, mas sempre, a partir da liberdade de Abril, que
não é vazia, que é compromisso, justiça social”, 4 - [a liberdade] “não se conforma com o estado de emergência,
com uma crise que se perpetua, torna permanente a dívida - uma dívida que tem
de ser renegociada -, que se transformou em política, numa política errada de
austeridade, uma crise que atinge os fundamentos da democracia, tornando os
povos reféns de interesses inomináveis”, 5
- “A mudança
terá de ser radical, ir às raízes e as nossas raízes comuns estão em Abril, na
liberdade, uma liberdade cheia, uma liberdade de direitos”, 6 - “Não quero ver a minha pátria à beira de um rio triste,
não quero perder Portugal nem por silêncio nem por renúncia”, 7 - “neste tempo tão duro ninguém tem o direito
de ficar em silêncio”, 8 - “Temos de dizer presentes, de nos fazer presentes”,
9 - “Temos de
inventar a democracia democrática, aberta a pessoas e movimentos”
disse.
O efeito produzido por estas
proclamações de Sansão em atitude de derrubar as colunas do templo não se descreve,
tamanha a pobreza. É a língua-de-pau com que o gado exulta.
Na realidade não aquece nem arrefece; na
realidade será mais um “desencantado” com os cravos, que não desabrocharão. Nada obsta que uma criatura “expoente
da coltura”, “referência da academia” ou referente académico,
“ex-reitor da Universidade de Lisboa” lograsse mais, garatujando um texto
diferente, mais rico do que aquela paupérrima colagem de textículos, pilhérias,
motejos, etc… que, aliás, abundam nos cartazes das passeatas da CGTP/PC/BE e nas pontas das línguas dos vociferadores.
Enfim… a imaginação transporta-os a mundos
ignotos, arrebatam-se no maravilhoso e místico; são tão “transcendentes” como os prosadores e os poetastros que do ininteligível
fazem a suprema lei do bom gosto e do bom senso, sendo sublimes porque ninguém
os entende, nem eles a si próprios.
Desgraçada miséria!



