segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sampaio de névoa

«Tantos anos de disputas, tantas subtilezas, não deitam uma oitava de verdadeiro espírito filosófico, quero dizer de um juízo prudente e crítico, capaz de fazer observações úteis e discorrer com fundamento sobre as causas de qualquer efeito natural. A três ou quatro palavras se reduz toda a sua filosofia natural. Pasma um homem de ver a facilidade com que explicam qualquer fenómeno que se oferece»
Luis António Verney

Para fazer umas quantas "profecias" não é preciso ser lince até porque as velhas brigadas pesam sobre as novas e as novas ainda não arrecadaram alentos para definir o  roteiro da demanda e, simultaneamente, tirar aqueles de cima.
Sabendo-se que a fé, bem ou mal fundamentada, é uma espécie de elixir que presta para a alma e também para o corpo; sabendo-se que a popularidade é como as urtigas - nascem em qualquer canto, medram e frutificam sem auxílio de mão estranha e sabendo-se que é nas ruas que se formam e se consagram as reputações dos Alcibíades, nada é de espantar.

Cumpridas as formalidades do estilo e pouco depois de ter sido dado o sinal chegou, por convite, cravo vermelho na mão, o “núncio” do Advento, o arauto das boas-venturanças, o cruzado contra o «capitalismo selvagem» fadado a ser uma desinência da Democracia em nome de uma «nova política» que nos revelará o «homem novo».

Sampaio da Nóvoa, apresentou-se «aqui-estou-eu-que-posso,-se-quiser,-deitar-a-porta-abaixo;-arcar-com-patrulhas;-pôr-em-debandada-umas-dúzias;-varrer-a-feira-a-pau,-com-o-desassombro-de-quem- está-resolvido-em-tirar-a-limpo-e-acabar- com-“pendências”-etc.», e
1 - “a todas as esquerdas, a todas as forças de mudança existentes em Portugal”, 2 - “É tempo de abrir um tempo novo para Portugal”, 3 - sempre, mas sempre, a partir da liberdade de Abril, que não é vazia, que é compromisso, justiça social”, 4 - [a liberdade] “não se conforma com o estado de emergência, com uma crise que se perpetua, torna permanente a dívida - uma dívida que tem de ser renegociada -, que se transformou em política, numa política errada de austeridade, uma crise que atinge os fundamentos da democracia, tornando os povos reféns de interesses inomináveis”, 5 - “A mudança terá de ser radical, ir às raízes e as nossas raízes comuns estão em Abril, na liberdade, uma liberdade cheia, uma liberdade de direitos”, 6 - “Não quero ver a minha pátria à beira de um rio triste, não quero perder Portugal nem por silêncio nem por renúncia”, 7 - “neste tempo tão duro ninguém tem o direito de ficar em silêncio”, 8 - “Temos de dizer presentes, de nos fazer presentes”, 9 - “Temos de inventar a democracia democrática, aberta a pessoas e movimentos
disse.

O efeito produzido por estas proclamações de Sansão em atitude de derrubar as colunas do templo não se descreve, tamanha a pobreza. É a língua-de-pau com que o gado exulta.
Na realidade não aquece nem arrefece; na realidade será mais um “desencantado” com os cravos, que não desabrocharão. Nada obsta que uma criatura “expoente da coltura”, “referência da academia” ou referente académico, “ex-reitor da Universidade de Lisboa” lograsse mais, garatujando um texto diferente, mais rico do que aquela paupérrima colagem de textículos, pilhérias, motejos, etc… que, aliás, abundam nos cartazes das passeatas da CGTP/PC/BE e nas pontas das línguas dos vociferadores.
Enfim… a imaginação transporta-os a mundos ignotos, arrebatam-se no maravilhoso e místico; são tão “transcendentes” como os prosadores e os poetastros que do ininteligível fazem a suprema lei do bom gosto e do bom senso, sendo sublimes porque ninguém os entende, nem eles a si próprios.


Desgraçada miséria!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Filoxera

Não será apenas com cicuta que se ataca a filoxera como não é a tiro que se combate uma praga de gafanhotos - digo eu que não sou entomólogo nem instruído em toxicologia ou parasitologia.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um caldeirão por um pote

[Por economia, este texto não deve ser lido por quem acredite na estória da Bela Adormecida]

As afirmações coléricas e irresponsáveis que Mário Soares proferiu, ontem, à saída do E.P. de Évora aonde foi visitar o correligionário Sócrates são muito impressivas e, como exporei, sintomáticas.

Há exactamente um ano escrevi «[Poder] levar a mão ao pote» para, entre outras, dizer que [a verdade deve ser clamada quaisquer que sejam as circunstâncias] Mário Soares sabe mais a dormir do que os pascácios que por aí pululam [na comunicação social] com os olhos arregalados.

O caldeirão é vosso

Me parece que poucas vezes depois de 1974 houve luta pelo poder mais encarniçada e "surda" do que a que vivenciamos presentemente. A ferocidade com que o PS surge a cerrar fileiras e a terçar armas em redor de Sócrates não é inusitada e a razão por que surge o PS a arguir, desabridamente -- por um lado, contra a judicatura em geral e contra o juiz Carlos Alexandre em particular e por outro lado, a pretender que a prisão de Sócrates seja “tratada”, “discutida”, “escrutinada” [ao contrário de todos os outros partidos com excepção de Marinho Pinto que, conjunturalmente, vê posto em causa muito do que almeja] numa perspectiva política --, nada tem de estranho, inédito e menos tem de inopinado.

A unidade não é o indivíduo mas um indivíduo social, um indivíduo que ocupa uma determinada posição na ordem social. Para compreendermos o indivíduo, temos de o estudar no seu enquadramento de grupo; para compreender o grupo, temos de estudar os indivíduos cujas acções o constituem
Solomon Asch (1952)

A cólera de Soares depois de ter ouvido Sócrates em “confissão” denota numa perspectiva meramente indiciária um mau sinal para Sócrates e, por consequência, para o PS – abreviando: ter-lhe-á sido confessado que meteu o pé na poça e azar, foi apanhado; por consequência ou i) a pressão e a confusão política se instalam de modo a lançar na opinião pública consistentes dúvidas e temor(es) ou ii) no estrito âmbito judicial, ele, Sócrates está feito e o PS receberá a factura, diferida, nas legislativas de 2015.
Nisto bate o ponto.

Daí a urgência da visita de ontem. Não podia ser hoje porque António Costa está à espera de “instruções” por forma a, sem precipitações, saber "como" e "com quem" deve preencher os orgãos partidários que vão a congresso no próximo fim-de-semana.

Em qualquer sociedade, o padrão de vida das pessoas e as suas condições de vida assumem as formas que assumem, não tanto porque alguém toma uma série de decisões a esse respeito, mas, em grande parte, porque se aceitam como adquiridos certos mecanismos, princípios, pressupostos – chame-se-lhes o que se quiser… há um poder inerente em mecanismos e pressupostos siciais anínimos – nas “instituições sociais”- e não apenas nos indivíduos ou grupos. O poder reside mais na rotina sem incidentes do que no exercício cosnciente a activo da vontade.
John Westergaar e Henrietta Resler (1976)

O que se joga?

para que o pote seja nosso

Joga-se ter o pote nas mãos que, convenhamos, é substancialmente diferente de poder levar a mão ao pote.
Tudo corria mais ou menos de feição até suceder isto. Era possível contar 1 - com maioria absoluta em 2015 e caso António Guterres persistisse por muito mais tempo em titubear 2 -  fazer de Sócrates candidato à presidência da República em 2016 e elegê-lo. A acrescer à 3 - maioria dos municípios, que detêm, 4 - à presidência das duas Juntas Metropolitanas, 5 - à chefia do governo dos Açores, que detêm, 6 - à chefia do governo da Madeira que ganhariam ou, do mal o menos, retirariam ao PSD, 7 - a mudança do governador do BdP, 8 -  o poder de delimitar o exercício normal da PGR ou no limite convidá-la subrepticiamente à demissão, 9 - a alteração de forças no Tribunal Constitucional como consequência directa do resultado eleitoral e 10 - por fim o poder efectivo de intervir de forma explicíta ou não em mudar pedras e garantir fidelidades no topo e nas estruturas intermédias do aparelho da administração pública central.
As razões políticas que fundamentam a importância que tudo aquilo tem são, parecem-me, óbvias e outra(s) há, digamos sócio-económicas, menos óbvias ou imperceptíveis tais como
a)      apesar do delay que o PR, Cavaco Silva, acabou por impôr [ao não antecipar as eleições legislativas] no exercício de negociar os fundos estruturais europeus, os pacotes financeiros da Política de Coesão para 2014-2020 e agora
b)      os milhares de milhão do designado Plano Juncker que por cá aportarão
estas, são as vitais. E nesta guerra ainda lhes é possível cantar vitória, evidentemente.

Em política não se toma partido sobre «algo» baseado em valores ou ideias. Políticanão é isso. Política é poder e poder é a capacidade que alguém tem de determinar as acções dos outros ou seja, fazer com que os outros [por ameaça, manipulação, coacção ou “comissão”] façam o que se pretende que seja feito. A política trata de pessoas e meios e não de valores ou fins. O que trata de valores e fins é a filosofia, a religião,…

O resto são contos de fadas.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Agonia

O moribundo voltou aos espasmos

«Todo o PS está contra esta bandalheira (…) É tudo uma malandrice. A campanha contra ele é uma infâmia. Uma malandrice daqueles tipos que actuam e que não fizeram nada.  Afinal, o que é que ele fez? Isto não tem nada a ver com os socialistas. Tem que ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar.»

Postura

filosófica. Um bocadito cansativa, penso mas... enfim, os filósofos são macambúzios, contemplativos e matutam em francês. Outros há que ainda tocam piano... até os há que extenuados de tanta reflexão, imaginem, lhes dá para a porrada (em mulheres). Dizem...