sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Filoxera

Não será apenas com cicuta que se ataca a filoxera como não é a tiro que se combate uma praga de gafanhotos - digo eu que não sou entomólogo nem instruído em toxicologia ou parasitologia.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um caldeirão por um pote

[Por economia, este texto não deve ser lido por quem acredite na estória da Bela Adormecida]

As afirmações coléricas e irresponsáveis que Mário Soares proferiu, ontem, à saída do E.P. de Évora aonde foi visitar o correligionário Sócrates são muito impressivas e, como exporei, sintomáticas.

Há exactamente um ano escrevi «[Poder] levar a mão ao pote» para, entre outras, dizer que [a verdade deve ser clamada quaisquer que sejam as circunstâncias] Mário Soares sabe mais a dormir do que os pascácios que por aí pululam [na comunicação social] com os olhos arregalados.

O caldeirão é vosso

Me parece que poucas vezes depois de 1974 houve luta pelo poder mais encarniçada e "surda" do que a que vivenciamos presentemente. A ferocidade com que o PS surge a cerrar fileiras e a terçar armas em redor de Sócrates não é inusitada e a razão por que surge o PS a arguir, desabridamente -- por um lado, contra a judicatura em geral e contra o juiz Carlos Alexandre em particular e por outro lado, a pretender que a prisão de Sócrates seja “tratada”, “discutida”, “escrutinada” [ao contrário de todos os outros partidos com excepção de Marinho Pinto que, conjunturalmente, vê posto em causa muito do que almeja] numa perspectiva política --, nada tem de estranho, inédito e menos tem de inopinado.

A unidade não é o indivíduo mas um indivíduo social, um indivíduo que ocupa uma determinada posição na ordem social. Para compreendermos o indivíduo, temos de o estudar no seu enquadramento de grupo; para compreender o grupo, temos de estudar os indivíduos cujas acções o constituem
Solomon Asch (1952)

A cólera de Soares depois de ter ouvido Sócrates em “confissão” denota numa perspectiva meramente indiciária um mau sinal para Sócrates e, por consequência, para o PS – abreviando: ter-lhe-á sido confessado que meteu o pé na poça e azar, foi apanhado; por consequência ou i) a pressão e a confusão política se instalam de modo a lançar na opinião pública consistentes dúvidas e temor(es) ou ii) no estrito âmbito judicial, ele, Sócrates está feito e o PS receberá a factura, diferida, nas legislativas de 2015.
Nisto bate o ponto.

Daí a urgência da visita de ontem. Não podia ser hoje porque António Costa está à espera de “instruções” por forma a, sem precipitações, saber "como" e "com quem" deve preencher os orgãos partidários que vão a congresso no próximo fim-de-semana.

Em qualquer sociedade, o padrão de vida das pessoas e as suas condições de vida assumem as formas que assumem, não tanto porque alguém toma uma série de decisões a esse respeito, mas, em grande parte, porque se aceitam como adquiridos certos mecanismos, princípios, pressupostos – chame-se-lhes o que se quiser… há um poder inerente em mecanismos e pressupostos siciais anínimos – nas “instituições sociais”- e não apenas nos indivíduos ou grupos. O poder reside mais na rotina sem incidentes do que no exercício cosnciente a activo da vontade.
John Westergaar e Henrietta Resler (1976)

O que se joga?

para que o pote seja nosso

Joga-se ter o pote nas mãos que, convenhamos, é substancialmente diferente de poder levar a mão ao pote.
Tudo corria mais ou menos de feição até suceder isto. Era possível contar 1 - com maioria absoluta em 2015 e caso António Guterres persistisse por muito mais tempo em titubear 2 -  fazer de Sócrates candidato à presidência da República em 2016 e elegê-lo. A acrescer à 3 - maioria dos municípios, que detêm, 4 - à presidência das duas Juntas Metropolitanas, 5 - à chefia do governo dos Açores, que detêm, 6 - à chefia do governo da Madeira que ganhariam ou, do mal o menos, retirariam ao PSD, 7 - a mudança do governador do BdP, 8 -  o poder de delimitar o exercício normal da PGR ou no limite convidá-la subrepticiamente à demissão, 9 - a alteração de forças no Tribunal Constitucional como consequência directa do resultado eleitoral e 10 - por fim o poder efectivo de intervir de forma explicíta ou não em mudar pedras e garantir fidelidades no topo e nas estruturas intermédias do aparelho da administração pública central.
As razões políticas que fundamentam a importância que tudo aquilo tem são, parecem-me, óbvias e outra(s) há, digamos sócio-económicas, menos óbvias ou imperceptíveis tais como
a)      apesar do delay que o PR, Cavaco Silva, acabou por impôr [ao não antecipar as eleições legislativas] no exercício de negociar os fundos estruturais europeus, os pacotes financeiros da Política de Coesão para 2014-2020 e agora
b)      os milhares de milhão do designado Plano Juncker que por cá aportarão
estas, são as vitais. E nesta guerra ainda lhes é possível cantar vitória, evidentemente.

Em política não se toma partido sobre «algo» baseado em valores ou ideias. Políticanão é isso. Política é poder e poder é a capacidade que alguém tem de determinar as acções dos outros ou seja, fazer com que os outros [por ameaça, manipulação, coacção ou “comissão”] façam o que se pretende que seja feito. A política trata de pessoas e meios e não de valores ou fins. O que trata de valores e fins é a filosofia, a religião,…

O resto são contos de fadas.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Agonia

O moribundo voltou aos espasmos

«Todo o PS está contra esta bandalheira (…) É tudo uma malandrice. A campanha contra ele é uma infâmia. Uma malandrice daqueles tipos que actuam e que não fizeram nada.  Afinal, o que é que ele fez? Isto não tem nada a ver com os socialistas. Tem que ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar.»

Postura

filosófica. Um bocadito cansativa, penso mas... enfim, os filósofos são macambúzios, contemplativos e matutam em francês. Outros há que ainda tocam piano... até os há que extenuados de tanta reflexão, imaginem, lhes dá para a porrada (em mulheres). Dizem...



sábado, 22 de novembro de 2014

Anormal é a singularidade

assim como a excepcionalidade.

Anormal é a detenção do antigo primeiro-ministro, José Sócrates, ser facto singular e apreendida como excepcional. Isso é que não é normal. De quando em vez [mais as vezes em que não do que as vezes em que sim, infelizmente] sucedem “coisas” [anormais pelo impacto que percepcionamos, terem] que
1 - esculpem a validade da “luta”
em 21.03.2013 [e foi a última vez que me dediquei a tal pústula] escrevi que «uma sociedade que admite que uma criatura [José Sócrates] deste quilate moral se mantenha à tona, não desmerece o que vive por mais que esbraveje, blasfeme ou escoucinhe.» e
2 – sugerem e sugestionam, erradamente, que a incisão bastará para repor [na sociedade] o primado da normalidade. Antes assim que o contrário ou nada, claro, mas não basta - a massa submersa continua a ser muito maior do que a emersa.

O "velho" Eurípides, contemporâneo de Sócrates, cogitou a aquiescência dos deuses à elasticidade humana
«Onde estão os limites da insolente impudência do homem? Se a vileza e a vida humana aumentarem nas devidas proporções, se o filho crescer sempre em iniquidade mais do que o pai, os deuses terão de acrescentar outro mundo a este de modo a que todos os pecadores possam ter espaço suficiente.»
Ora, para que este mundo nos baste, é necessário de forma estrenue retirar espaço à vileza. Um marco não basta para definir as estremas; sempre pode vir alguém que os mude. Para já, por agora, mas não mais do que isso

- Porreiro, pá!

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um excelente texto de Helena Matos