quinta-feira, 27 de março de 2014

A leiloeira


A República foi entregue a uma leiloeira ou melhor, transformaram a república numa leiloeira.
A questão é de preço. Tudo se reduz à dilucidação, primeiro, e à homologação, depois, entre quem está ou não em condições de satisfazer o lance mínimo.
Daí em diante tudo decorre de acordo com as regras d(ess)a modalidade de negociação.
Tudo é bem transaccionável e o património não transaccionável, o intangível -- moral, ética, justiça, licitude, legalidade, igualdade,… -- não é pr’aqui chamado.
O privilégio de aceder à licitação não é para quem quer e menos é para quem deseje; é para quem pode.
A “política”, o core business da leiloeira é o tangível, evidentemente. O restante, o património intangível fica à porta.
Portas adentro a "política" é igual a poder e poder significa a capacidade que alguém tem de determinar as suas acções ou a capacidade de fazer com que os outros, mediante manipulação, coacção ou comissão, façam o que tem de ser feito – negócios.
Daí o reservado direito à admissão.

sábado, 22 de março de 2014

Sal na ferida


«[…]
Este livro foi escrito há décadas.
O texto está exactamente como saiu em 1975 na Holanda. Nunca foi editado em Portugal.
Porquê?
Ninguém o queria. Diziam que não era oportuno o ponto de vista social, político e histórico. Entretanto a situação mudou. O sonho desapareceu, já não há razão para sonhar. (…) aceita-se uma visão mais sombria do 25 de Abril.
Era muito curioso?
Sim, era, sou-o ainda, muito particularmente no que respeita à evolução da sociedade portuguesa, que continua a ser para mim motivo de espanto. Parece existir nela uma componente de fatalismo e desleixo, de desinteresse, contrária à atitude normal de desenvolvimento e melhoramento. É um pouco como se o país sofresse da doença de Pfeiffer e se deixasse abater pelo cansaço.
Viajamos dos Descobrimentos para a Primeira República, da ruralidade até África e, finalmente, à Revolução dos Cravos. Uma oportunidade para rever a história de Portugal?
A visão da história ensinada nas escolas continua a ser a visão cosmética, sem rugas nem defeitos, com os bons dum lado e os maus do outro. O cidadão adulto e consciente, interessado pelo país em que nasceu, beneficia quando se põe a par de diferentes versões dos acontecimentos. Não serão necessariamente as melhores, mas ajudam a alargar o campo de visão. Em geral, as pessoas têm aquela história que aprenderam na escola, um bocadinho romantizada, com heróis, milagres, uma noção romântica do que a história foi.
Qual acha que vai ser a reacção dos portugueses a esta história?
As pessoas até aos 40, 50 anos vão ficar tristes ou assustadas com a revelação. Depois, os mais velhos, dos 60 anos para cima, vão-se dividir em duas categoria: aqueles que, contra toda a evidência, continuarão a acreditar que houve uma revolução muito bem feita e muito feliz, e os outros, que se vão dar conta de que nem tudo o que reluz é ouro.
Sair de Portugal sempre foi uma vontade?
Por volta dos 15 anos já tinha uma ideia fixa de ir embora.
Não lhe custou?
Não. Da primeira vez estive 14 anos sem voltar a Portugal. Quando voltei, por um mês, só tive uma vontade: a de ir embora outra vez. Isto em 1974.
Hoje não tem vontade de ficar?
Não. Consigo viver períodos de três meses em Portugal, mas não mais.
[…]»

quarta-feira, 12 de março de 2014

Manifestamente anti-manifestança


…quando caí na real espraiava-me em [longas] considerações e juízos sobre o Manifesto dos 70; ia lançado em apreciações sobre os reais e ponderosos fitos de Bagão Félix, Ferreira Leite, Capucho, Sevinate Pinto,… na homologação do panfleto. Para quê?

A natureza do Manifesto dos 70 é económico-financeira. É! e será assim tão difícil perceber que rebater o «Manifesto dos 70» pelo flanco económico-financeiro, impugnando-o, é meter o pé na argola?

O que não dizem os “manifestantes”
O que os inquieta, os efeitos que pretendem não estão escritos; nunca os escreverão.
O problema é político, tem tudo a ver connosco e pouco com a União Europeia, com os trilhos da economia mundial, etc.; o problema é a «Reforma do Estado» que a ser feita, quando fôr feita, para obter resultados benéficos e palpáveis em diversos domínios, terá de ser incisiva, profunda e que por isso, terá de quebrar a espinha a uma série de corporações [da justiça à banca passando pelas forças armadas], de reorganizar e rever de alto a baixo, do topo às freguesias, o próprio Estado, o organograma político-administrativo do país.

Ora a reforma do Estado pode ser mascarada, pode até ser remetida para as calendas desde que o(s) constrangimentos financeiros permitam a transigência.