domingo, 9 de março de 2014

(O poder d)a fé


«(…) grupos de extrema-direita obrigaram ao cancelamento de um encontro de famílias muçulmanas no parque de diversões da Lego, em Inglaterra (…) reflectir sobre a intolerância. Felizmente, não é preciso. A Federação Muçulmana de Investigação de Desenvolvimento (MRDF), organizadora do encontro, é presidida pelo religioso Haitham al-Haddad, o qual declarou numa ocasião, ao que parece evocando o Corão, que os judeus "descendem de macacos e de porcos". Noutra ocasião, o ilustre clérigo escreveu que a homossexualidade é um "crime" e que os actos homossexuais são "mais graves do que o homicídio". Numa terceira ocasião, defendeu o direito de os maridos espancarem as mulheres, espécie a que, de resto, o iluminado sacerdote recusa a participação na vida pública. (…) pérolas de sabedoria amplamente divulgadas na internet, em texto e, para os cépticos, em vídeo. Mesmo assim, a "extrema-direita" é, aos olhos de inúmeros ocidentais, a extremista nesta história. Quem disse que no Ocidente não há crentes?»
Alberto Gonçalves

«Se queremos depurar a Modernidade da referência religiosa teremos de perguntar se é possível e se é conveniente [tendo em conta que a herança cristã afecta na essência a figura dos Direitos Humanos]. (…) é impossível viver sem referentes simbólicos, nem é conveniente. Impõe-se a segunda estratégia: repensar a laicidade.»
Reyes Mate
A herança do esquecimento / La presencia pública de la religión en la sociedad contemporánea

sábado, 8 de março de 2014

O fado (a letra, à esquerda)

(segundo Adam Smith)

«As grandes nações não empobrecem devido à prodigalidade e má gestão da iniciativa privada se bem que, por vezes, empobreçam em virtude da prodigalidade e má gestão dos poderes públicos. A totalidade ou a quase totalidade das receitas públicas é em alguns países utilizada para a manutenção de de mãos improdutivas.
São dessa espécie as pessoas que compõe uma corte numerosa e esplêndida, uma grande igreja, grandes armadas e exércitos que em tempo de paz nada produzem e em tempo de guerra não compensam a despesa feita com a sua manutenção, nem mesmo enquanto dura a guerra»

Adam também percebeu que o Estado pode fazer, e fará, algumas coisas melhor do que a iniciativa privada
«Na Turquia otomana, o serviço de combate a incêndios estava entregue a companhias privadas que acorriam ao sinistro quando soava o alarme. Elas competiam entre si e negociavam o preço com os donos da casa a arder no próprio local. Enquanto negociavam o incêndio atingia proporções maiores e o que estava em jogo consumia-se. Ou propagava-se.»
Esta é uma das partes que, na versão comercial, são obliteradas. Por conveniência ideológica, claro

Como pegam os chineses, na guitarra

Consta que sabem pouco de fado. Talvez por isso entendam que a melhor maneira de acomodar as coisas é «não dizer nada e fazer negócios».
A intervenção do Estado é como a menina que tinha um caracol na testa
-- quando era boa, era muito, muito boa;
quando era má, era muito, muito má

Há russos e já não há cossacos

Gostava de ser como a Constança «não-faz-uma-pequena-ideia» Cunha e Sá, mas não sou. É assim e não lamento. Cada qual é o que é ou consegue ser, dá o que entende dever dar e o resto são batatas.
Não escrevi uma letra sobre a actual concussão ucraniana. Não o fiz e estou em crer não farei por uma razão, simples: da fauna e da estepe pônticas pouco sei ou nada…
[e se há coisa que recuso são “especializações”, intensivas, wikipédicas]
…sei de «Taras Bulba» e o que me ensinou de Vassili Grossman, Tzvetan Todorov em «Memória do Mal, Tentação do Bem»;
sei «Almas Mortas» e «O nariz» de Gogol;
sei ainda que da Rússia/russos há, nos EUA, qualquer coisa como quinhentos e cinquenta mil milhões de dólares e que um general russo em 1992 terá afirmado
«em cinco, dez, quinze, … anos, a Ucrânia ou melhor, a Ucrânia Oriental, voltará para nós. A Ucrânia Ocidental que vá para o inferno»;
tomei boa nota de que os bens russos com maiores Índices de Vantagem Comparativa Revelada são

assim como tomei nota da persistente “indigência” russa no sector agropecuário.
 

É de facto muito pouco para que alguém normal faça uma piccola ideia, convenhamos, embora me pareça ser o bastante para quem sabendo somar, corra riscos de errar ou fazer figuras tristes.

sábado, 1 de março de 2014

Devia ser uma vergonha. Mas não é.

O Expresso faz a capa do «Caderno de Economia» com a seguinte “nova”
«As seguradoras ensinam empresas a não pagar TSU»
«Há empresas a contratar seguros de capitalização para pagar parte do salário, bónus e prémios dos seus quadros superiores, evitando assim pagar taxa social única (TSU). Os valores aplicados neste tipo de produtos livram a entidade empregadora dos 23,75% de contribuição para a Segurança Social e o trabalhador dos outros 11%
 -- Uma população de pensionistas, reformados, jovens desempregados, trabalhadores cada vez pior pagos, crânios a emigrar, etc…a passar mal e umas centenas, poucos milhares, talvez, de recalcitrantes e empanzinados “neoliberais” a gozar o pagode. Inacreditável, intolerável; uma vergonha!
Será mais ou menos esta a fúria e o asco verbalizados por pessoas com causas, militantes,… enfim, por crentes.
 
A opção é legítima pelo que me parece que quem o faz, faz muito bem. É opção porque o governo não regulamentou, por resolução, portaria ou despacho, a Lei. O que não foi feito a tempo e horas parece estar, agora, a ser preparado a trouxe-mouxe.
 
Da intencionalidade, do propósito do governo não tenho a mais pequena dúvida. O mesmo sucede quanto aos propósitos das “distracções”, cirúrgicas, com que as oposições de quando em vez brindam os governos… não sou crédulo nem crente.
 
Se constatas que o teu inimigo está a cometer uma asneira, deixa-lo cometer a asneira até ao fim. Cometida, apontas-lhe a falta e a intenção [exista intenção, malévola, ou não].
 
Entre os propósitos de uns e outros há, porém, um segmento comum – os que estão em condições de usufruir da vantagem. Por isso é que Francisco Louçã há anos, dedo em riste, acusava Sócrates e Teixeira dos Santos do piorio -- pelo acobertamento que davam a subscritores de PPR’s --… sem que, para isso, tivesse de dar a saber que ele próprio possuía umas dezenas de milhar de euros nesse “instrumento”.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dissolvidos

A história da falência da Throttleman e Red Oak, duas marcas de vestuário português que fecharam as lojas na semana passada, é o melhor exemplo de como, por debaixo da demagogia sobre o Portugal de sucesso, a vida prossegue, inexorável, a matar a pequena e média economia portuguesa.
Antes de mais: a Throttleman foi criada em 1991 por três gestores (Pedro Pinheiro, Eduardo Barros e Nuno Gonçalves) acabados de sair da faculdade. O profeta do cavaquismo industrial, Mira Amaral, pedia, e bem, marcas próprias e redes de lojas nacionais, sobretudo em sectores como o do vestuário onde vendíamos esmagadoramente para subcontratação. Quem ousasse devia até internacionalizar. A Throttleman fez isso mesmo:
lojas nos shoppings ao lado das grandes Zaras, Benettons ou Lacoste. Vendia camisas portuguesas e outro vestuário a preço médio-alto. Chegou a dar emprego a quase 750 pessoas. E chegou a abrir lojas nos Emirados Árabes Unidos e em Angola -- em resumo, fez o que está escrito nos livros de gestão.
Só que a derrocada de 15 de setembro de 2008, nos Estados Unidos, provocou o brutal arrefecimento do consumo mas não o da conta mensal de quem tinha investimentos a pagar. Uma média de 12 milhões de vendas anuais revelavam-se insuficientes. Os 23 milhões de euros de passivo acumulado pela Throttleman e Red Oak levaram então a que, em novembro de 2012, ambas avançassem para o "Processo Especial de Revitalização", um mecanismo criado pelo Estado para ajudar empresas em dificuldades.
Viáveis ou não? Os credores decidiriam. E neste caso as coisas correram de forma extraordinária: em apenas 76 dias conseguiu-se um acordo com cerca de 80% de créditos, incluindo a Segurança Social. Quem faltou? Praticamente apenas o Ministério das Finanças, ainda por cima credor privilegiado.
Aceite pelo tribunal o “Plano de Recuperação”, vida nova? Errado. As Finanças interpõem um recurso judicial que impediu a recuperação de arrancar. Há um ano. Apesar das Finanças e da Segurança Social terem assegurado o ressarcimento de 100% da dívida em 150 prestações, acrescidas de juros a uma média de 6,25%, as Finanças não aceitaram que os juros antigos e as coimas fossem perdoados em 80%.
Uma gota no conjunto de todo o processo.
[Note-se que, entretanto, as Finanças perdoaram 100% dos juros e 90% das coimas, em Dezembro último, a quem pagou impostos em atraso por razões tão absurdas como fugas para off-shores, etc...].
A Throttleman andou 12 meses a lutar com as Finanças em recursos judiciais e depois o processo encalhou no TC. Entretanto, a gestão tornou-se impossível. Há dias anunciou o pedido de insolvência. Tinha 200 trabalhadores.
As Finanças (e todos os outros) vão agora receber zero ou pouco mais.