A história da falência da Throttleman e Red Oak, duas marcas de vestuário português que fecharam as lojas
na semana passada, é o melhor exemplo de como, por debaixo da demagogia sobre o
Portugal de sucesso, a vida prossegue, inexorável, a matar a pequena e média economia portuguesa.
Antes
de mais: a Throttleman foi criada em
1991 por três gestores (Pedro Pinheiro, Eduardo
Barros e Nuno Gonçalves) acabados de sair da faculdade. O profeta do
cavaquismo industrial, Mira Amaral, pedia, e bem, marcas próprias e redes de
lojas nacionais, sobretudo em sectores como o do vestuário onde vendíamos
esmagadoramente para subcontratação. Quem ousasse devia até internacionalizar. A
Throttleman fez isso mesmo:
lojas nos shoppings
ao lado das grandes Zaras, Benettons ou Lacoste. Vendia camisas portuguesas e
outro vestuário a preço médio-alto. Chegou a dar emprego a quase 750 pessoas. E
chegou a abrir lojas nos Emirados Árabes Unidos e em Angola -- em resumo, fez o
que está escrito nos livros de gestão.
Só que a derrocada de 15 de setembro de
2008, nos Estados Unidos, provocou o brutal arrefecimento do consumo mas não o
da conta mensal de quem tinha investimentos a pagar. Uma média de 12 milhões de
vendas anuais revelavam-se insuficientes. Os
23 milhões de euros de passivo acumulado pela Throttleman e Red Oak levaram
então a que, em novembro de 2012, ambas avançassem para o "Processo
Especial de Revitalização", um mecanismo criado pelo Estado
para ajudar empresas em dificuldades.
Viáveis
ou não? Os credores decidiriam. E neste caso as coisas correram de forma
extraordinária: em apenas 76 dias conseguiu-se um acordo com cerca de 80% de
créditos, incluindo a Segurança Social. Quem faltou?
Praticamente apenas o Ministério das Finanças, ainda por cima credor
privilegiado.
Aceite
pelo tribunal o “Plano de Recuperação”, vida nova? Errado. As Finanças
interpõem um recurso judicial que impediu a recuperação de arrancar. Há um ano.
Apesar das Finanças e da Segurança Social terem assegurado o ressarcimento de
100% da dívida em 150 prestações, acrescidas de juros a uma média de 6,25%, as
Finanças não aceitaram que os juros antigos e as coimas fossem perdoados em
80%.
Uma
gota no conjunto de todo o processo.
[Note-se que, entretanto, as Finanças perdoaram 100% dos
juros e 90% das coimas, em Dezembro último, a quem pagou impostos em atraso por
razões tão absurdas como fugas para off-shores,
etc...].
A Throttleman andou 12 meses a lutar com as Finanças em
recursos judiciais e depois o processo encalhou no TC.
Entretanto, a gestão tornou-se impossível. Há dias anunciou o pedido de insolvência.
Tinha 200 trabalhadores.
As Finanças (e todos os outros) vão agora receber zero
ou pouco mais.
