quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dissolvidos

A história da falência da Throttleman e Red Oak, duas marcas de vestuário português que fecharam as lojas na semana passada, é o melhor exemplo de como, por debaixo da demagogia sobre o Portugal de sucesso, a vida prossegue, inexorável, a matar a pequena e média economia portuguesa.
Antes de mais: a Throttleman foi criada em 1991 por três gestores (Pedro Pinheiro, Eduardo Barros e Nuno Gonçalves) acabados de sair da faculdade. O profeta do cavaquismo industrial, Mira Amaral, pedia, e bem, marcas próprias e redes de lojas nacionais, sobretudo em sectores como o do vestuário onde vendíamos esmagadoramente para subcontratação. Quem ousasse devia até internacionalizar. A Throttleman fez isso mesmo:
lojas nos shoppings ao lado das grandes Zaras, Benettons ou Lacoste. Vendia camisas portuguesas e outro vestuário a preço médio-alto. Chegou a dar emprego a quase 750 pessoas. E chegou a abrir lojas nos Emirados Árabes Unidos e em Angola -- em resumo, fez o que está escrito nos livros de gestão.
Só que a derrocada de 15 de setembro de 2008, nos Estados Unidos, provocou o brutal arrefecimento do consumo mas não o da conta mensal de quem tinha investimentos a pagar. Uma média de 12 milhões de vendas anuais revelavam-se insuficientes. Os 23 milhões de euros de passivo acumulado pela Throttleman e Red Oak levaram então a que, em novembro de 2012, ambas avançassem para o "Processo Especial de Revitalização", um mecanismo criado pelo Estado para ajudar empresas em dificuldades.
Viáveis ou não? Os credores decidiriam. E neste caso as coisas correram de forma extraordinária: em apenas 76 dias conseguiu-se um acordo com cerca de 80% de créditos, incluindo a Segurança Social. Quem faltou? Praticamente apenas o Ministério das Finanças, ainda por cima credor privilegiado.
Aceite pelo tribunal o “Plano de Recuperação”, vida nova? Errado. As Finanças interpõem um recurso judicial que impediu a recuperação de arrancar. Há um ano. Apesar das Finanças e da Segurança Social terem assegurado o ressarcimento de 100% da dívida em 150 prestações, acrescidas de juros a uma média de 6,25%, as Finanças não aceitaram que os juros antigos e as coimas fossem perdoados em 80%.
Uma gota no conjunto de todo o processo.
[Note-se que, entretanto, as Finanças perdoaram 100% dos juros e 90% das coimas, em Dezembro último, a quem pagou impostos em atraso por razões tão absurdas como fugas para off-shores, etc...].
A Throttleman andou 12 meses a lutar com as Finanças em recursos judiciais e depois o processo encalhou no TC. Entretanto, a gestão tornou-se impossível. Há dias anunciou o pedido de insolvência. Tinha 200 trabalhadores.
As Finanças (e todos os outros) vão agora receber zero ou pouco mais.

O vestígio (I)

do «Pleitos» no Twitter


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Já nascem velhos


Desconheço se está a colher algum entusiasmo a perspectiva do aparecimento de uma «nova» força política [na minha área político-ideológica] – Nós, cidadãos. A curiosidade levou-me a ler
1 -- o comunicado que o IDP [Instituto Democracia Portuguesa] fez sobre a expulsão de Capucho do PSD [algo que não lhes respeita mas caso respeitasse deveria ser usado para recordar ao sr. Capucho que exactamente o seu histórico é, na circunstância, agravante ao invés de ser “reclamada” atenuante],
2 -- aporrinhar as retinas com a extensa “nota” ínsita no Público, e soçobrei… já não perdi tempo a ouvir a entrevista do gen. Garcia Leandro a uma rádio.
 
A velhice, no sentido de savoir-faire e sabedoria, deveria ser uma virtude. Ora, com este pessoal, é defeito. Esta gente propõe-se erigir “coisas” novas e mal começam a assentar os primeiros tijolos, adivinha-se “como” e “com que” defeitos vai ficar o murete; das palavras aos actos [por mais prosaicos e irrelevantes que sejam] estão carregados de vícios.
 
Nascem velhos, carregados de vícios e a pigarrear.
Terá sido perguntado a Mendo Castro Henriques se «Nós, cidadãos é…?». A resposta foi um eloquente, esclarecedor e original “Não confirmo, nem desminto”.
Cliché. A langue de bois é uma interminável série de clichés e serve para falar sem nada dizer.
Uma pobreza franciscana.