
“«O
silêncio dos melhores é cúmplice do alarido dos piores». Trata-se de um admirável e corajoso artigo de
Natália Correia que bem corresponde
às palavras com que o Cinatti mo envia dizendo que a autora é «hoje o único homem a falar
duro semanalmente» em Portugal. É um apelo à responsabilidade dos
intelectuais, ao espírito de livre crítica (…) Importa muitíssimo meditar sobre ele, comentá-lo, para que não se perca no alarido que a
autora denuncia. Mas, antes de mais, importa acentuar que a autora pressupõe a existência de um grupo de pessoas suficientemente
independentes de juízo (…) Sob esse aspecto, sou
mais pessimista do que ela. Se alguma coisa há em que a vida portuguesa
poreje verrinosamente o veneno de séculos de imperialismo, nepotismo, autoritarismo
e subserviência, pequenas cobardias e perfídias quotidianas, etc, etc., é precisamente
essa: a mesquinha falta de consenso acerca de quem sejam os melhores
(…). E isto
em princípio nada tem que ver com partidarismos ou oportunismos políticos, é mais fundo do que isso: radica num ódio raivoso a tudo e todos que
sejam independentes e livres, a tudo o que se distinga por uma altitude de
espírito, uma real qualidade. (…) Ora graves
vícios de pensamento e de acção não se perdem miraculosamente por obra e
graça de uma benfajeza revolução. (…) é o
contrário que se verifica
(…)”
Jorge
de Sena in
Rever Portugal (Textos Políticos e Afins)
"Aquilo, meu
filho, é um país de filhos da puta
que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas (...) E tudo, meu caro, deve
ser medido por esta triste verdade, que, como estudioso de Portugal, V. deve ter sempre em mente: aquilo foi sempre um país de filhos da puta,
apenas com algumas honrosas excepções, entre as quais me conto. Puta que os pariu, com perdão de algumas
senhoras decentes que não tiveram culpa de dar à luz os cabrões que deram.
Podre, irrecuperavelmente podre, é que aquilo é."
Jorge de Sena,
1972, carta
dirigida a Vittorio Cattaneo