30 de dezembro de 2013

Títulos fantásticos


[E ainda bem que o são. Dissuadem-me da leitura.]


porque emigrar é tão natural como natural é o homem, quando não se sente bem e caso possa, levantar o rabinho do catre e procurar outros pastos;
é tão natural quanto natural é o homem possuir um módico de ambição;
é tão natural quanto natural seria [que pelos vistos não é, de facto], atingida a maioridade, perceber que o sonho, aliás como todo o resto, é -- bom, assim-assim ou pesadelo – efémero. Assim sendo o que se deve desejar é que o “curso” da quimera seja ínfima, e de natureza mais evanescente, perto da efemeridade do sonhador;…

27 de dezembro de 2013

O jogo d'A Traça

Um amigo deu-me a conhecer um “jogo” [e depois disso fiquei sabendo que a sua disseminação nas redes sociais tem sido profusa] criado por um tal Pedro Miguel Cruz [designer e investigador da Universidade de Coimbra]. Nele os [curiosos] “jogadores” podem ver a intimidade entre a «classe política» e o universo empresarial. Podem constatar a relação entre a traça e a roupa. Mas o facto de terem de andar às rebajas não é por causa da traça. É por responsabilidade culpa de quem anda às rebajas.
O criador tem mérito. De isso não haja dúvidas. Mas, como não podia deixar de ser [daí a disseminação nas redes], a “coisa” despencou para um lado. E despencou para porque o criador assim pretendeu.
Tudo em benefício da Causa; nada contra a Causa. E nesse sentido, os ursos têm de ser respeitados ou seja, têm de ser tratados como ursos. Não se dão bróculos a ursos; dá-se-lhes guloseimas, mel,…
Raquel Varela [uma réplica pós-moderna de La Pasionária, uma versão em chique] de isso cuidou, com esmero.

22 de dezembro de 2013

Exija o seu cabaz

É um movimento anónimo que convocou os desempregados para a acção de protesto.
O argumento, à pala de Nelson Arraiolos [em Setembro, alegando o «direito à resistência», escreveu ao PR para lhe dizer que deixava de pagar impostos, por não ter dinheiro para o fazer e deu a saber que pretendia entrar no Pingo Doce e "levar um pacote de arroz sem pagar". Esperado, o gerente entregou-lhe um cabaz de Natal], é "se oferecem a um, oferecem a todos"; a justificação que “a Jerónimo Martins do Pingo Doce é a 19ª das 20 maiores empresas portuguesas que fogem aos impostos via Holanda, empobrecendo todos os portugueses que têm de pagar por elas […] até quando finge a caridade, o Pingo Doce e os outros distribuidores, continuam a lucrar nas campanhas de recolha de alimentos com as compras dos clientes […] a fortuna do segundo homem mais rico do país e dono do Pingo Doce, Soares dos Santos, matava a fome a 1.500.000 desempregados

Destas alcateias, de forma inigualável e perpétua, se ocuparam V.Hugo,Tolstoi, Dostoievski, Zola, …, S. Maughan e T. Mann,..., Daniel Goldhagen,... Nada de novo, portanto.


20 de dezembro de 2013

~ Quem se lixa é o perú ~


Imbuído do mais genuíno espírito natalício, hoje, só vou escrever coisas lindas -- ora bolas! afinal Ícaro voou -- apesar de [aguardo que imbuídos do mesmíssimo espírito os meus amigos sejam indulgentes comigo] não isentar o perú ao sacrifício de primeiro lhe pregar uma valente bebedeira e depois tirar-lhe o grugulejo, submetê-lo a uma criteriosa autópsia, desapropiá-lo do esqueleto e das entranhas naturais e encher-lhe o buraco com um cuidado, e delicioso, recheio.

Tradition, assevera(va) Tevye em Fiddler on the roof (Um violino no telhado).Tradition!

…os cordeiros também vão ao sacrifício e não é por isso que os “celerados” perdem o “caminho” ou se desencontram com o “portão”.
Não tenho como não estar imbuído de um pressuroso, e genuíno, espírito natalício.

Não sei com quantas tormentas vencidas e o cavaleiro do Rocinante, massajava-se
«todas as tormentas e dificuldades por que passámos são sinais de que não tardará a serenar o tempo e sair-nos-ão bem as coisas. Não é possível que o Bem e o Mal sejam tão duradouros. Tão constante, persistente e demorado tem sido o Mal que, só pode, o Bem acerca-se

Sabendo que o optimismo é bom quando são os outros a experimentar a crise e sabendo, também, que não foi o gelo acima da linha de água que afundou o Titanic, a miséria «é isso: não imaginar
o nome que transforma a ideia em coisa,

a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar»

O presente é cheio de urgências, sim. «Mas ele que espere», ordenou Vergílio Ferreira. A vida é bela e caso não seja, temos os poetas para assim no-la fazer crer
«É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
[…]
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.»

Vedes?! a vida é bela!
por que hão-de os tolos, brutos e lerdos rumar e subir os degraus do cadafalso, tristes?
Pior que ser tolo ou bruto é sê-lo, infeliz ou triste.

14 de dezembro de 2013

sobre sentimentos de culpa sem sentido

e uns quantos equívocos que sempre fizeram sentido, se percebida a direcção.
Excelente, a entrevista de Vasco Graça Moura

Somos europeus ou vamo-nos tornando europeus?
 
Fui dez anos deputado europeu e os dois mandatos coincidiram com a Europa dos 15 e, depois, com a Europa a 27. Esta alteração do perímetro geográfico teve consequências extremamente complicadas em relação à ideia que eu próprio fazia da Europa. Eu pertenço a uma geração em que não se punha a questão de ser europeu - ser europeu era natural. Mesmo quando Portugal passou a viver, a partir do 25 de Abril, uma nova fase da sua história, não podemos dizer que até então não fôssemos europeus - fomos sempre europeus. Fomos nas instituições culturais e universitárias, na geografia, no período dos Descobrimentos, na circulação de grandes pensadores europeus. Simplesmente, há um período em que parece que isso foi posto entre parêntesis, o que não é totalmente verdade, porque já estávamos na EFTA e esse foi um primeiro passo para entrarmos na Comunidade Económica Europeia (CEE).
Como é que podemos distinguir espírito europeu de identidade europeia?

12 de dezembro de 2013

sobre salivação, muco, babosa, ... Touché

Sobre aproveitacionismo, politicagem e outras "coisas" mais


«A maioria das pessoas não quer nadar antes de o saber fazer. A verdade é que foram concebidas para andar em terra, e não na água. E é claro que não querem pensar; foram concebidas para viver, não para pensar!(...) quem faz do pensar a sua actividade pode até chegar longe, mas a verdade é que trocou a terra pela água, e chega uma altura em que acaba por se afogar»
Haller citando Nietzsche in O Lobo das Estepes / Hermann Hess