A
“bandeira”. Nada mais do que a “bandeira”.
Incrédulo,
ouço [incrédulo é, claro, forma de dizer; é mais do que incredulidade], «foi uma referência de esquerda». O homenageado não
merece senão a vacuidade «foi uma referência. De esquerda»
[Catarina Martins, BE].
Em
vida terá sido um cidadão exemplar [com toda a falibilidade que o termo possa
encerrar]; foi, e isso sem dúvida, um proeminente académico; da sua “passagem”
legou-nos [boa ou má dependerá da opinião dos sobrevivos] obra. Mas tudo aquilo
importa, apenas e só, se puder ser instituído como referencial (1) -- de esquerda. Nada
mais prevalece. Face à bandeira tudo é acessório.
Algo sobejará se, e apenas,
fôr conforme à simbologia.
Dos
ditirambos que presumo ele não fazia questão há os que, por mais voltas que dê,
me sugerem “cuspo”. Palavras, circunstanciais,
proferidas por quem a tal é instigado. “Cuspo” sobre o estro. Epitáfio sentido,
vénia cativa, penhora solene, prostração… É que por mais que esprema, não
sinto.
É a morte e a sorte **.
O
Sol vale não por lhes ser vital, mas por despontar a oriente [por mais que
sejam os que se extasiam com a cromática do crepúsculo]. Será
na pena e no verbo da intelectualidade [e mais na de pernósticos] o que a
efígie de Che é nos peitilhos das t-shirts
da arraia-miúda.
(1) Qual é o papel da literatura em momentos como este?
«Sou comunista e sou escritor e nunca obedeci a pedidos para fazer dos meus livros instrumentos de combate do PC, mas como a minha ideologia é essa ela projecta-se e essa projecção é útil neste momento porque as massas necessitam do apoio dos intelectuais e eu estou a dá-lo embora dentro da minha linha, que é estética e intimista. Uma vez chateei-me com um tipo do partido que queria que eu pusesse mais sangue, mais vermelho naquilo que escrevia.»
* [ensaio
de] Urbano Tavares Rodrigues, 2003
** [romance]
Fernando Fonseca Santos, 2002