A
multidão procura os assassinos de César e depara com um indivíduo furtivo.
Alguém
pergunta: «Quem és tu?»
O
desconhecido: «Sou Cássio»
A
multidão: «É o conspirador. Matem-no!»
O
desconhecido: «Sou Cássio… o poeta»
A
multidão: «matem-no! pelos maus versos»
Júlio César,
Shakespeare
(adaptação livre)
Em coisas sobre as quais os tolinhos pensam que a decisão advém e/ou
depende da força com se expressa o que designam por colectivo, mas que eu
prefiro designar por multidão, convém não perder de vista as “lições”
implícitas às aventuras de Gargântua e Pantagruel, narradas por Rabelais [Pantagruel, Gargântua e Livro(s) IIIº, IVº e Vº], nomeadamente
[o que gosto deste advérbio] a carta de
Gargântua ao filho e o Elogio das dívidas.
Rabelais,
Pantagruel, sabia muito da natureza humana e por consequência essas dóceis,
serenas ou iracundas criaturas fizeram-no sorrir. Admito que sem prazer algum. A representação dos que agem
como náufragos, que se imaginam a afundar-se por não terem obtido uma réstia de
poder que se veja ou uma bolsa de proventos que se note e que, ainda por cima,
não enxergam meia-dúzia de palmos de terra firme frente ao nariz é feita por
lanígeros.
Viajando
num barco que transportava um rebanho e
o respectivo pastor, Panurgo, farto da “insolência” do pastor, pegou numa ovelha
e lançou-a borda fora. Logo, de imediato as outras a seguiram e morreram
afogadas.
Em 1994, a revista Fortune, em
Editorial, a propósito dos “emergentes”, escrevia mais ou menos assim «a boa altura
para comprar é quando o sangue jorra pelas ruas»; a Investor´s
Guide, da Fortune, em 1993, sobre a oportunidade de uma ida aos saldos,
escrevia «há
que comprar no momento em que a esperança deixou de existir»; Pedro
Santos Guerreiro, um dia destes, botou «Há dez anos já íamos todos morrer. Há dez
anos já tínhamos pântano político e tanga no Estado. Há dez anos as reformas já
eram todas para já e acabavam sendo nunca. Há dez anos as mesmas pessoas de
hoje enchiam a boca de feitos e esvaziavam a mão de defeitos. Há dez anos já
havia todas as mentiras, todos os mentirosos e todos a quem mentiam. Há dez
anos já havia interesses, lóbis, corrupção, desigualdades, pobreza,
proteccionismo, impunidade, compadrio, desesperança, défice, dívida, partidos
políticos e políticos partidos. Há dez anos Portugal já era o
que ainda era. E já havia génio. Inquietação. Vontade contra a moinha.
Insatisfação com a insatisfação. E já havia zanga, fúria, urros, hurras. […] Em cinco Governos, apenas um cumpriu a legislatura. Houve maioria
absolutas, relativas, coligações, dissoluções, escolhas sem eleições. As
retomas nunca chegaram, o défice foi sempre manipulado, a dívida foi sempre
escondida, a competitividade foi fraca, a economia foi fraca,... Os negócios
foram fortes.»
Como é evidente as serenas
criaturinhas de Panurgo são insensíveis a devaneios deste teor. Mas não é isso
que causa dificuldades de digestão; é a percepção de que nunca o desejam saber.
O ideal seria, portanto, que sempre que alguém se predispusesse a juntar-se a
multidões [insurgentes ou reivindicativas], se dispusesse antes a 1 – saber o
que pretende e 2 – não alimentar esperanças em resultados. O(s) Panurgo(s) existem;
nunca a balir ou no meio de multidões.
~ À guisa de rogo ~
Que,
por indulgência, me sejam relevadas [algumas d]as singelas instigações. 1 – a intenção
é [juízo em causa própria] a melhor, 2 – devem-se ao facto de a minha [rudimentar]
instrução [mais a não certificada] ter calcorreado sempre mais os caminhos do
nominalismo, entenda-se realismo empírico, do que os do platonismo.