«Escravos
da mentalidade estrangeira, uns; escravos da falta de mentalidade própria,
todos — nenhuns Portugueses, políticos ou não políticos, têm podido falar nacionalmente ou superiormente a este País. […]
Não falamos do País dividindo-o em classes cultas e incultas […] Falamos de
Portugal na simples quantidade dos seus habitantes […] metade é monárquica,
metade republicana; que são sensivelmente iguais, que são iguais para todos os
efeitos práticos […] São estes os factos: o resto é fala política: fica para os
maiorais que dela usam e para as rezes que crêem nela.
Da
parte monárquica, uma pequena minoria é activa e forma os partidos monárquicos
que se manifestam. Da parte republicana, uma minoria maior é activa e forma os
partidos republicanos que se manifestam. O resto do País […] é apático e
indiferente quanto à manifestação, ou até quanto à consciência das suas
tendências. Como a minoria republicana é maior, mais activa e mais coesiva que
a minoria monárquica, existe República […] Não existe República por nenhuma
outra razão.
Esta
condição política do País […] procede da mesma causa, que é o estado mental
português […] Somos o país das duas ortografias. Da gente que entre nós sabe
escrever, parte escreve em ortografia latina, a outra parte na ortografia do
Governo Provisório. A maioria, porém, não sabe ler nem escrever. […] as letras
são a sombra dos factos, e lemos mais na leitura do que esperávamos.[…] Porque
razão, porém, está a Nação assim dividida contra si mesma? A razão é fácil de
ver […] não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito
missional de nós mesmos. […]
Há
só três bases de governo — a força, a autoridade e a opinião. […] sem força não
se pode governar, sem opinião não se pode durar, sem autoridade não se pode
obter opinião. […]»
Fernando Pessoa in
O
INTERREGNO



