sábado, 25 de maio de 2013

Apesar das melhorias em ortografia


«Escravos da mentalidade estrangeira, uns; escravos da falta de mentalidade própria, todos — nenhuns Portugueses, políticos ou não políticos, têm podido falar  nacionalmente ou superiormente a este País. […] Não falamos do País dividindo-o em classes cultas e incultas […] Falamos de Portugal na simples quantidade dos seus habitantes […] metade é monárquica, metade republicana; que são sensivelmente iguais, que são iguais para todos os efeitos práticos […] São estes os factos: o resto é fala política: fica para os maiorais que dela usam e para as rezes que crêem nela.
Da parte monárquica, uma pequena minoria é activa e forma os partidos monárquicos que se manifestam. Da parte republicana, uma minoria maior é activa e forma os partidos republicanos que se manifestam. O resto do País […] é apático e indiferente quanto à manifestação, ou até quanto à consciência das suas tendências. Como a minoria republicana é maior, mais activa e mais coesiva que a minoria monárquica, existe República […] Não existe República por nenhuma outra razão.
Esta condição política do País […] procede da mesma causa, que é o estado mental português […] Somos o país das duas ortografias. Da gente que entre nós sabe escrever, parte escreve em ortografia latina, a outra parte na ortografia do Governo Provisório. A maioria, porém, não sabe ler nem escrever. […] as letras são a sombra dos factos, e lemos mais na leitura do que esperávamos.[…] Porque razão, porém, está a Nação assim dividida contra si mesma? A razão é fácil de ver […] não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos. […]
Há só três bases de governo — a força, a autoridade e a opinião. […] sem força não se pode governar, sem opinião não se pode durar, sem autoridade não se pode obter opinião. […]»

Fernando Pessoa in O INTERREGNO

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fatiar parte da realidade

Se se acredita em magia em algum momento ela resultará. O problema é que os seus efeitos se desvanecem de seguida. Por isso me parece que a questão fundamental não é a magia nem são os mágicos: é a “crença”.
Em parte, assim foi

É vulgar ouvir-se de líricos, nefelibatas, cenobitas e de uns quantos «lettreferits» que o oposto a pessimismo é optimismo. A inversa também é verdadeira. Com excepção da bem intencionada injecção de ânimo aos “fracos” [que até pode ser bonito mas nem sempre faz bem], o contrário de pessimismo é quase sempre a idiotia. Não podia ser diferente já que um dos “selos” da idiotia é a circunscrição da realidade a contrários.
Em parte, assim continua a ser

Um sinal destes tempos de crise é alguém dizer, como na anedota, «caroço de azeitona» e apanharem logo uma bebedeira.
Quem e por que gritam, alguns, «caroço de azeitona»?
A ‘taxa sobre os pensionistas’ pode não vir a ser igual para todos. Ainda que o tecto máximo [dos cortes] se fixe nos 10%, o Governo admite excepções. Caso das subvenções vitalícias de titulares de cargos públicos e políticos. Por exemplo, os deputados e os juízes do Tribunal Constitucional poderão ficar sujeitos a cortes de 20% [o dobro dos demais pensionistas do Estado]. A comunicação social faz constar que a medida tem sido muito contestada inclusivé no seio da coligação governamental.
Em parte, assim é

Porque se bebe a mentira que nos lisonjeia ou que [aparentemente] mais convém a largos sorvos e a verdade que nos é amarga ou se cospe ou se engole gota a gota…
chore aos berros como as crianças. Até se estafar. Verá que depois adormece.

domingo, 12 de maio de 2013

outras lambisgóias


Carlos Abreu Amorim disse qualquer coisa de Vitor Gaspar. Verberou as acções e os resultados de Gaspar; exigiu o desterro de Gaspar. Não admira que tenha dito o que disse, o tenha feito nesta ocasião e admira menos se se considerar o contexto e o local onde disse. Carlos Abreu Amorim é apenas mais um desses espertalhões que se mantêm à tona da água porque, apesar do seu volume, possuem uma densidade inferior ao do fluido em que estão mergulhados. O resto é a Natureza que faz conforme explicou Arquimedes.
Carlos Abreu Amorim foi anos a fio um «blasfemo» pelas mesmíssimas razões que outros são «corporativos», «ladrões»,… a  massa é a mesma apesar das barricadas em que se acolhem serem diferentes. Da necessidade de exposição das suas opiniões até às proclamadas preocupações cívicas com o bem público tudo é instrumento, tudo tem um fito. E somente um.
Enquanto o predomínio na sociedade for desta sorte de lambisgóias, nunca chegaremos a porto seguro senão a reboque de algo exógeno -- inopinado e improvável -- ou de alguém interessado, mas estrangeiro.
«Todo o bom produto gera a sua contrafacção. A obscenidade é o erotismo dos pobres [de espírito]; a esperteza é a inteligência dos hábeis [para os que a praticam]; a abjecção é a admiração para os estúpidos ou para os escassos em dignidade»

sábado, 11 de maio de 2013

Obtusos, obviamente


«A verdade não é o que é demonstrável, mas o que é inevitável»
Saint-Exupéry

De que se fala agora? o que desaustina essa gente?!

Sobre a Segurança Social, a 11 de Maio de 2006  insurgi-me contra opiniões de «especialistas» que preconizavam o incremento de políticas efectivas de apoio à natalidade como solução a prazo para a sustentabilidade da Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações. [Nessa ocasião uns farsolas, a nível autárquico e governamental, atribuiam umas centenas de euros a casais que procriassem. Uma forma de atirar dinheiro ao charco, uma esperteza, um logro.] Temos o destino traçado (com o risco, óbvio, de se estarem a criar expectativas fundadas em “comportamentos” passados) até 2013... Sem remissão!