«Nós também nos deixamos seduzir a tal ponto
pelo poder e pelo prestígio que esquecemos a nossa fragilidade intrínseca:pactuamos com o
poder, de boa ou má vontade, esquecendo que estamos todos no gueto […]
e que, não
longe dali, o combóio está à espera»
Primo Levy, Les Naufragés et
les Rescapés
Do
“varrimento” que quotidianamente faço pela comunicação social sobressaíram, hoje, umas quantas fotografias de uma “manifestação” na península da Coreia, a
norte do paralelo 38.
Talvez
sugestionado pela quadra cristã que vivemos as fotografias suscitaram-me,
simultaneamente, tristeza e comiseração. A minha dúvida é se esses meus viscerais
átimos o são devido aos fotografados, se por mim ou se por ambos. Sucede que,
sejam lá por quem forem, em conformidade com o que inúmeras vezes expressei,
raros -- as excepções que sendo da
regra, não são a regra -- são os «exemplos» por forma a poderem infirmar, ou
abrogar, que «o ser humano será a mais imperfeita “criação” do Criador» [na
óptica de um crente] ou «o ser humano é o mais defeituoso projecto de evolução»
[na perspectiva de um evolucionista]. E não o digo em termos relativos:
afirmo-o em termos absolutos. Existam razões para tanto ou não, esteja eu certo
ou não, isso será sempre o que menos interessa; interessa sim a iniludível
desgraça, miséria e lástima que as fotografias espelham.
Se
há que me seja relevado o exagero, mas acabei por me “ver” a recordar Germaine
Tillion que em 1944, internada no campo de concentração de Ravensbrück,
escreveu uma opereta «Le Verfügbar aux enfers» em que a dado passo do libreto, se ouve
Coro – Basta! tu não tens direito ao cartão rosa e ao transporte negro
Nénette – Não me interessa; irei para um campo modelo, com todo o conforto, água, gás, electricidade
Coro – sobretudo gás

