30 de março de 2013

Regeneráveis? sim, para abrir a vala seguinte


«Nós também nos deixamos seduzir a tal ponto pelo poder e pelo prestígio que esquecemos a nossa fragilidade intrínseca:pactuamos com o poder, de boa ou má vontade, esquecendo que estamos todos no gueto […] e que, não longe dali, o combóio está à espera»
Primo Levy, Les Naufragés et les Rescapés

Do “varrimento” que quotidianamente faço pela comunicação social sobressaíram, hoje, umas quantas fotografias de uma “manifestação” na península da Coreia, a norte do paralelo 38.
Talvez sugestionado pela quadra cristã que vivemos as fotografias suscitaram-me, simultaneamente, tristeza e comiseração. A minha dúvida é se esses meus viscerais átimos o são devido aos fotografados, se por mim ou se por ambos. Sucede que, sejam lá por quem forem, em conformidade com o que inúmeras vezes expressei, raros  -- as excepções que sendo da regra, não são a regra -- são os «exemplos» por forma a poderem infirmar, ou abrogar, que «o ser humano será a mais imperfeita “criação” do Criador» [na óptica de um crente] ou «o ser humano é o mais defeituoso projecto de evolução» [na perspectiva de um evolucionista]. E não o digo em termos relativos: afirmo-o em termos absolutos. Existam razões para tanto ou não, esteja eu certo ou não, isso será sempre o que menos interessa; interessa sim a iniludível desgraça, miséria e lástima que as fotografias espelham.



Se há que me seja relevado o exagero, mas acabei por me “ver” a recordar Germaine Tillion que em 1944, internada no campo de concentração de Ravensbrück, escreveu uma opereta «Le Verfügbar aux enfers» em que a dado passo do libreto, se ouve
CoroBasta! tu não tens direito ao cartão rosa e ao transporte negro
NénetteNão me interessa; irei para um campo modelo, com todo o conforto, água, gás, electricidade
Corosobretudo gás


29 de março de 2013

sobre Benevolentes


Maria de Médici foi uma marioneta nas mãos de Leonora Galighai e de [marido] Concino Concini. Assim foi até ao Dia dos Tolos ou seja até ao dia em que a esperteza de Leonora Galighai, a do marido e a da própria Maria de Médici cederam à inteligência do cardeal Richelieu e à «fraqueza» de Luis XIII.

23 de março de 2013

Excelentíssima filípica


A paixão de Sócrates

O homem é um colosso. Só alguém tão carismático como José Sócrates poderia regressar menos de dois anos depois. Mas mesmo isso não bastaria se as actuais lideranças políticas fossem fortes. Não o são: no Rato e na Lapa só há pão-de-ló. Em Belém, chá.
 
Só se pode encher o que está vazio. A orfandade de lideranças políticas é um buraco tão monstruoso que lá cabe o PS, o PSD e, vá lá, a União Europeia inteira. Ora, Sócrates é uma caderneta de defeitos mas é um líder, um excelente comunicador e um animal político não apenas feroz, mas também mais eficaz que todos os outros juntos. Não é carnívoro nem herbívoro, segundo a legenda de Marcelo Rebelo de Sousa:
é omnívoro. Um profissional temível entre amadores amáveis.
 
Sócrates será um campeão de audiências (sempre o foi, mesmo em Paris) e de fracturas. O seu carisma e linguajar populista acomodam-se a uma idolatria chavista. É, além disso, um personagem intrigante:
nunca antes nem depois dele se escreveram tantos "perfis psicológicos" sobre um primeiro-ministro. O país tem uma paranóia com ele, entre os que o odeiam e os que o amam. Ele não une, atrai e repele, pelo que divide. Mas vai meter António José Seguro num chinelo e bater em Passos com o outro.

As culpas da Ti’Ângela


Almerindo Marques, ex-presidente da Estradas de Portugal (EP), admitiu que havia pressões do primeiro-ministro para adjudicar «mais e mais obra (…) O primeiro-ministro pressionava as estruturas políticas, o secretário de Estado, Paulo Campos, para me dar instruções a mim».
«Almerindo Marques contou ainda ter feito alertas regulares por carta relativamente aos problemas de tesouraria da Estradas de Portugal. Essas cartas foram enviadas aos secretários de Estado da tutela (Paulo Campos das Obras Públicas e Costa Pina do Tesouro), mas também aos ministros das Finanças e Obras Públicas (Teixeira dos Santos, Mário Lino e António Mendonça). Almerindo Marques também não isenta de culpas a instituição liderada por Oliveira Martins


A dívida pública subiu com um ângulo de ataque igual ou superior ao de um F-35. Dizem certos líricos que, com o incentivo da UE, para atacar os efeitos recessivos na economia causados pelas falências do Lehman Brothers, Freddie Mac,…



E se a ti´Ângela vos tivesse mandado atirar a um poço, iríeis?


Nove em cada dez estrelas usam a têvê


Como 1 -  [na perspectiva da estação televisiva] se reconstrói uma imagem e faz a “estrela”, 2 -  [na perspectiva do “candidato”] se põe em marcha uma candidatura.

Louçã tem de se distanciar quanto antes da imagem de trauliteiro, de entrincheirado ideológico sem propostas consentâneas com o normativo democrático vigente nem plausibilidade. Ou seja, o indómito revolucionário metamorfoseia-se numa borboletinha.

O «posto» já provoca muitos “movimentos” se bem que, até lá, alguém terá de ceder o passo e/ou perder a ideia. Movimentações dos potenciais ou putativos candidatos quer dos diligentes quebras-gelo, parte-pedra, guardas-chuva,… todos esses «operacionais» -- Jorge Coelho, Marques Mendes, Santos Silva, Ferreira Leite, Rui Tavares, Fernando Rosas,… -- se albergam [na primeira fase procedimental] por debaixo da figura do comentadeiro e/ou paineleiro [desconheço a autoria das felizes designações].
Guterres*, Louçã, Carvalho da Silva, Sócrates que gerarão uma resistência no fluxo de trânsito à esquerda [ou não, dependendo sempre do que resultar de uma primeira volta que exija uma segunda] e um pouco ou nada provável Durão Barroso**, à “direita”.


*ao contrário de Marcelo, acho, não será. Vejo-o a sonhar com a cadeira de secretário-geral da ONU
**a deserção para Bruxelas, o sofrível desempenho na presidência da comissão europeia e sobretudo a disponibilidade na invasão do Iraque de Saddam retiraram-lhe, para sempre, quaisquer hipóteses de alguma vez vir a ser eleito.

22 de março de 2013

Liberaquê?!



«Tenho um pedido a fazer. Peço, rogo, imploro – de joelhos, se fôr preciso – a todos os críticos da actual maioria, sejam eles socialistas, comunistas, bloquistas ou sindicalistas, que parem de utilizar o adjectivo “liberal” para classificar qualquer acção deste governo. (…) O liberalismo deste governo habita num único lugar: nas cordas vocais de Pedro Passos Coelho. O que é que tivemos durante 21 meses de governação alegadamente de direita? Um garrote fiscal colocado à volta de trabalhadores e empresas para sacar tudo o que tilinta em nome de um Estado irreformável.»
João Miguel Tavares

21 de março de 2013

Redução ao absurdo


A «coisa» não me merece nem merecerá mais do que este “registo” [para memória futura]. De isso que se ocupem António José Seguro e todos os que, futuramente, se sintam instigados pelas suas acções ou com as suas pretensões [como será a de candidato presidencial]. A valoração que faço da «coisa» bem como da «caixa» [jornalística], reduz-se a um argumento -- [reductio ad absurdum]. Mantenho que uma sociedade que admite, que uma criatura deste quilate moral se mantenha à tona, não desmerece o que de facto vive por mais que blasfeme, esbraveje ou escoucinhe.

O "velho" Eurípides, contemporâneo de Sócrates, questionou bem a aquiescência dos deuses à elasticidade humana
«Onde estão os limites da insolente impudência do homem? Se a vileza e a vida humana aumentarem nas devidas proporções, se o filho crescer sempre em iniquidade mais do que o pai, os deuses terão de acrescentar outro mundo a este de modo a todos os pecadores poderem ter espaço suficiente. Até onde pode avançar a mente do homem?»

20 de março de 2013

A multiplicação dos génios


Na conversa mole com que diligentemente a comunicação social nos brinda e para a qual são, prioritariamente, convocados conhecidos líricos, «lettreferits» e um ou outro cenobita [estes em ocasiões solenes, obviamente] ou seja os do costume, pouco ou nada presta.

Sobre a duração dos ciclos de euforia e pânico que precedem ou se mantêm durante ciclos económicos de crescimento e depressão ou recessão convém não perder de vista que as suas durações acabam por equivaler ao tempo que as pessoas necessitam para se esquecerem da última catástrofe ou seja, o tempo necessário para a morte dos génios financeiros da última geração e a sua substituição por outros que, desta vez, disponham verdadeiramente do toque de Midas.

Este é um dos ensinamentos que a história da Moeda, por exemplo, regista. O proveito cada um colhe o que pretende.

A propósito da promiscuidade entre política e finança é eloquente a vida de John Law, um génio da finança, relatada pelo duque de Saint-Simon nas suas «Mémoires». A indiferença com que os compatriotas o olharam, os seus êxitos na França de Filipe, duque de Orleães/regente de Luis XV e o que a sua genialidade produziu em França. Com a “bênção” de Luis.

Como soe dizer-se é uma [das imensas que há] «crónica» dos dias do génio, bestial, até chegar a besta.

Nota: na Wikipédia existe qualquer coisa sobre o assunto que, apesar de pálida, pode ser útil. Tem a vantagem de não cansar os olhos em demasia, dispensar mais aturado estudo e  permitirá mais uns tantos grunhidos.

17 de março de 2013

Maltezes, burgueses,... E sempre.

Por que será que quando ouço, vejo ou leio o José Adelino Maltez me vem, amiúde, à ideia Emerson? Das razões, por certa, tenho uma que será da lavra de Emerson
«É preciso ter cuidado quando Deus solta um pensador no planeta»

A confrontação do [meu] sujeito com a «substância» da citação, suscita-me
-- conhecida a relação [nada amistosa] entre Adelino Maltez e Deus, pode ter acontecido que Ele me [nos] atirou com mais uma antropomorfizada provação. Hipótese pouco credível. A ser provação, teria de  questionar a sua infinita Misericórdia.

Mais ou menos resolvida esta “apreensão” sobra uma outra [hipótese], que considero credível
 
É um despropósito, pela desconformidade, confrontar o [meu] sujeito à luz de Emerson. Adelino Maltez não é um pensador. Detecta-se quando nos aprestamos a um encolhimento da malha [da peneira]. José Adelino Maltez é uma espécie de breviário portátil de fiabilidade mais ou menos garantida quer pelo que foi seu mister quer pela parafernália de “instrumentos” a que pode aceder. E nada disto nem cumulativamente faz de alguém, pensador. Sequer a compulsão para a prolixidade ou a aversão à concisão.

Mete-se-lhe uma «ficha», dá-se-lhe um click e a criatura desata desabridamente… Haja depois quem o cale. De todas essas qualidades, honra lhe seja. Sendo boas nenhuma garante, por si, pensar bem e ainda menos agir. Se no fim do(s) excurso(s) fica algo no(s) destinatário(s), é outra questão.

Exactamente assim ou nem por isso do que não tenho quaisquer dúvidas é que esta «trupe de referenciais» (da qual faz parte, Zé Maltez), é exímia na arte da prestidigitação intelectual. E em inúmeras ocasiões até conseguem soerguer-se e fazerem-se reconhecer vítimas do próprio mainstream que os pariu, deu regaço e amamenta.

16 de março de 2013

Perfunctória apreciação


Perfazem-se hoje 20 anos sobre o passamento de Natália Correia. Quis a Providência dotá-la, entre outras qualidades intelectuais, de uma especiosa, refinada e acutilante verve adjuvada de outra mais, nada natural no género... digamos que em prejuízo da sociedade em geral, dos homens em particular. A  Natureza dotou-a de um par de gónadas de fazer inveja [aos que têm inveja já que, suspeito, se foram poucos a tê-la hoje, é patente, são bem menos] aos varões lusos.
Ler Natália Correia é um deleite. Revisitá-la, hoje, chega a ser deletério.

«Eis-me entre o histórico de me perder por todos e o espiritual de me salvar por mim própria. O dilema queima. Entro, assim, a fundo no histórico. Para lhe dar combate! Este Portugal revolucionário é o laboratório pré-diluviano do Ocidente que neste seu extremo extremiza os efeitos sombrios dos seus Magos. Marx e a sua cientificação da luta de classes! Sempre a posse, a posse refinada do Estado proprietário de todas as vontades.
Avança, povo! Acomete! Apossa-te! Na realidade, é sempre o mesmo punhado de sectários que o magismo marxista instiga às depredações sobre as quais querem levantar o seu reino de posse absoluta. Ou abandoná-la à sombra do seu gémeo fascista. (…)
Ai, não serei eu a comover-me com as lágrimas que os partidos democráticos hão-de verter sobre o leite que derramam. A sua lamechice humanística torna-os tão responsáveis pela liquidação das liberdades de que são platónicos campeões como essa minoria cerrada pela força da mística que vertiginosamente os ultrapassa»
13.11.1975