«As trapalhadas internas do PS interessam-me tanto
quanto um concurso filatélico. (…) a impopularidade do Governo e uns pulinhos
difusos nas intenções de voto convenceram Seguro de que chegara a sua hora. (…)
os herdeiros de Sócrates, entusiasmados (…) querem remover Seguro e colocar alguém
"confiável" no seu lugar. Parece que António Costa, cuja enorme
relevância começou anteontem a ser inventada, é a escolha "natural"
dos socialistas (…) Fora do manicómio em que os políticos indígenas cirandam,
os estragos causados nos últimos anos bastariam para erradicar o PS do mapa
político. Dentro do manicómio, o PS não apenas se acha no direito de reclamar o
retorno antecipado ao poder como julga mais provável consegui-lo na exacta
versão que, de desastre em desastre, o levou a perder esse poder.
Seguro quis mostrar-se envergonhado das proezas do
partido e, sem grandes resultados, tentou disfarçá-lo sob o verniz da
responsabilidade. Costa não tem vergonha nenhuma e, se o pernicioso regresso
aos mercados não lhe trocar as sondagens, pondera apresentar-se às massas
enquanto o orgulhoso representante dos desvarios que condenaram as massas a
apertos sem fim à vista. Se nada garante que tamanha extravagância vá longe, a
sua mera plausibilidade é suficiente para recear a falta de memória e de juízo
do povo. (…) Na política é teoricamente possível reabilitar com leveza o
sicrano que, após reduzir uma população à penúria, experimenta, alegadamente a
expensas da família e da banca, as delícias de Paris (mas não, salvo seja, a
cadeia). Os apóstolos do sicrano andam desejosos de terminar o lindo serviço
que iniciaram, e o próprio já é um nome "óbvio" para Belém. Um país
assim dá sempre vontade de rir. Mas raramente dá vontade de habitar.»
Alberto Gonçalves
OBS.: o
título e as alterações no texto são
de minha autoria e responsabilidade