O
mal é que [sempre] há quem acredite em estórias. O mau não é quem a escreve,
no-la conta ou ouve mas de quem acredita em estórias ignorando que a utilidade
das estórias não é o enredo: é o que justifica e explica o enredo.
Haverá
alguma maneira de explicar a esta gente que o segredo da(s) vitória(s) de Ulisses
não foi o de ser surdo ao que Cassandra rogava aos troianos fazer mas de ter
sido surdo às cantilenas das sereias? Haverá?
As estórias, independentemente do final ser feliz ou não, têm sempre um corpo que, a não ser devidamente narrado, corre o sério risco de ninguém perceber “como” e “por que artes” aparece o príncipe chegado de nenhures e, sem mais, ser alvo da fúria e do ódio da bruxa [por um lado] e do amor incondicional [por outro] da mais bela dama do reino que, azar dos azares, é a filha predilecta e legítima do rei. Se não fosse filha do rei não havia estória ou, no limite, a estória seria outra embora o final feliz possa ser semelhante.
A
humanidade tem à disposição inúmeras “alexandrias” [intocadas e livres da acção
de fundamentalistas] de estórias, de lições e não aprende nada.
«Era, por isso, necessário ensinar as pessoas a não pensar, (…), obrigá-las a ver o que não existia e a defender o oposto do que seria óbvio para todos»
Dr. Jivago / Boris Pasternak

