Admiro
a delicadeza dos ouvidos do nosso tempo que não admitem mais do que a linguagem
plena de lisonja solene. Vemos religiosos que compreendem a sua confissão às
avessas, e que tolerariam mais uma blasfémia gravíssima contra Cristo do que a
mais leve sátira contra um pontífice ou um princípe, sobretudo se lhe devem o
pão.
IV
– Não julgueis que estas minhas palavras são falsas como é vulgar entre os
oradores. Pois bem sabeis que quando eles proferem um discurso que lhes custou
trinta anos de trabalho, e por vezes trabalho alheio, juram tê-lo escrito por
prazer (…). Eu, não; sempre me foi grato dizer imediatamente o que me vem à
boca.
VI
– Vedes que estou imitando os retóricos do nosso tempo que se julgam uns deuses
pelo facto de serem bilingues como sanguessugas, e que julgam preclaro imiscuir
no discurso latino algumas palavras gregas, compor um mosaico que nem sempre
vem a propósito. À falta de palavras exóticas, vão buscar quatro ou cinco
fórmulas arcaicas aos pergaminhos pútridos, ofuscando com trevas os olhos do
leitor, para que assim os entendedores mais orgulhosamente se deleitem e para
que ios ignorantes tanto mais admirem quanto menos compreendam.
Aonde levam todas estas
ninharias?



