Hoje, ao lembrar-me da minha terra e sem saber porquê [nem isso tem qualquer interesse], veio-me à ideia Arne Lindroth * ou melhor, talvez saiba. Ocasiões houve [há e continuará a haver] em que os homens, inteligentes, esquecem as lições que os animais, instintivos, ensinam. Conscientemente não foi mas a esta distância, presumo, terá sido a ideia-força subliminar que presidiu à atitude dos belgas no ex-Congo belga ao invés dos portugueses em Angola.
Todos os peixes comem. Todos os peixes desovam. Poucos peixes desovam onde comem.
Arne Lindroth *
O resultado -- e esse é óbvio -- é que, desde Leopoldo II da Bélgica, os proveitos deles foram bem maiores do que o dos portugueses. Quanto a juizos que envolvem ética, moral e essas coisas assim ficam a expensas de quem gosta nunca ignorando que sobejam sempre os argumentos-recurso dos calvinistas e dos outros, mais terra-a terra, os cínicos.
Convivem melhor os belgas, franceses, ingleses, espanhóis, holandeses e alemães com a torrente dos pecados que lhes são imputados do que os portugueses com o eflúvio das suas apregoadas virtudes. Se os proveitos não foram (e continuam não sendo) idênticos, ó-lá-lá! … já da fama nenhum deles se livra: são iguais. De estúpidos (e eu lá pelo meio) não os livro.
Mais do que isso não é possível. Já não existe maneira de perguntar a Mobutu o porquê da preferência por Portugal quando, a lógica, apontá-lo-ia a Bruxelas embora -- não carecendo de explicações -- se saibam os porquês da preferência da dama dos Santos por Portugal.
o que quer dizer que a circunstância dos portugueses justifica a pompa dos [alguns, muitos] angolanos. Explicada e justificada a pompa destes, permaneço em dúvida quanto a se, e quando, “os portugueses têm/tiveram a exacta noção da sua circunstância”. É que, por Soares (e alguns outros) nunca ter perdido a noção da sua própria circunstância e porfiar por alterá-la, nada me diz quanto à consciência dos demais, da massa – estes, tal qual a maioria dos peixes, funcionam por tropismo. Ora as consequências dos tropismos nos “racionais” raramente resulta, bem, como nos irracionais.
*zoólogo