quinta-feira, 23 de agosto de 2012

À sombra da mulemba qu'o sol 'tá forte!

Não, as (minhas) poucas palavras não são devidas a qualquer acesso de parcimónia ou, como dizem e escrevem certos tolinhos, à espera de uma vaga de fundo [quando a vaga é de superfície] ou, como citam os papagaios, à espera de Godot [sem fazerem a mais pequena ideia de quem é o tal ou Becket e/ou Vladimir ou Estragão] ou então [como apontam as  línguas bífidas  que  serpenteiam pelas lájeas do apriscopara esconder acrimónia, Não!
mas já agora, e a propósito, sempre digo que certos estiveram os antigos, ao contrário dos modernos e/ou dos contemporâneos, ao compreenderem que “a coruja de Minerva só abre as asas à hora do crepúsculo”.
A curiosidade matou o gato, diz-se.
Não será o caso porque 1 – não morri e 2 – não sou gato. Acrescento que muito se deve à ausência de disposição já que -- se é verdade que o saber não ocupa lugar -- muito tem contribuído para a consolidação de algumas das minhas percepções a varredura a uma catrefa de especiosos filosofemas de outros tantos prolixos quanto cabotinos e ainda deletérios nas lavras de um Tejo de epígonos -- uns porque sim, outros porque se tu sim então eu não e imensos a fazer de contas.
Tenho por certo isso como tenho da necessidade de, alerta, ir dilucidando onde está a autêntica diletância e aonde está o resto. Verdade seja dita que, entre uma coisa e a outra, aprecio mais a detecção de solertes. Aproveito o ensejo para explicar que a denominação pode ser tudo menos casual: é também por economia. Assim, de uma penada e sem achavascar, ficam inclusos os sagazes, os manhosos, os finórios bem como os velhacos e os espertalhões.

A força do burro tem a(s) qualidade do(s) herói(s) (clássicos): a paciência, a tranquilidade, a humilde e indomável constância que não sai do seu caminho; quando se é Zeno sabe-se bem que a partida, por mais deliciosas que possam ser muitas das suas peripécias, não merece ser jogada.

Marco Aurélio, imperador romano, dizia que “a vida não passa de opinião” e também não sou o queixoso que ouviu daquele outro funcionário dos Habsburgos, prometer-lhe que
«Espere até morrer e depois verá, verá que ainda há-de ser célebre»
É que 1 – não sou contemporâneo dos Habsburgos -- i) tão pouco me sinto vítima dos seus descendentes, 2 – não sou escritor e ainda menos sou escritor e 3 – não me lamento.

Algum dia eu teria de me tornar mais assisado! digo eu.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dos génios [da finança] e predestinados [do mundo empresarial] lusos (I)

Os dois investimentos ‘chumbados’ esta semana pelo Governo e pela Caixa Geral de Depósitos, de Alexandre Alves e José Roquete, revelam a pior faceta dos empresários portugueses.
Um recusou dar os documentos exigidos à formalização do processo, outro achou que não devia dar garantias patrimoniais pessoais. Qualquer cidadão pede um empréstimo ao banco e é-lhe exigido toda a espécie de garantias e informação, incluindo o nome dos animais domésticos. Estes empresários, porém, acham que o Estado tem de pagar sem tugir nem mugir. Sentem-se imunes a tudo e acham normal ser empresários com o dinheiro dos outros. Não há crise nem lata que lhes chegue.
Eduardo Dâmaso, CM

domingo, 5 de agosto de 2012

Fasquias

Quando a palavra recebe o tratamento de polé que recebe e, por isso ou por quaisquer outras razões, as cavidades orais debitam em contínuo um chorrilho de adjectivos, e outros tantos superlativos, a propósito “do que poderá vir a ser”, o que podia ter sido “se”, o que só não foi “porque” ou o excelente, notável ou extraordinário que é apesar de na realidade, o resultado ter sido menos do que medíocre ou por lá perto, está tudo dito.
Esse sistemático uso do verbo sem qualquer critério acontece não por exigência da descrição da realidade e dos factos mas por compulsão. O que é preciso é falar, vocalizar. Dizer o que seja é que não é o mote ou a regra e talvez nem valha a pena. Afinal o imbecil colectivo* não distingue entre uma coisa e outra. Para o imbecil colectivo não há distinção entre grasnar, pipilar ou piar: os pássaros piam e/ou cantam. Os homens  falam (embora possam e devam procurar, falando, dizer algo). Mas como isto anda tudo ligado, vai dar tudo ao mesmo -- como diz o outro.

Apanhei a transmissão dos derradeiros 500 mts. de uma prova final de remo em que entraram dois remadores portugueses. De seis equipas ficaram em quinto. O sr. da têvê, especialista/comentador, disse-os extraordinários. Como diria se tivessem alcançado uma medalha?! …, provavelmente, extraordinários já que, no domínio do ordinário, não cabe o que por ser  grandioso quebrou as grilhetas do comum.

É, para usar um termo presentemente muito em voga, uma questão de mínimos.
… o Sócrates é engenheiro e o Relvas, licenciado. Habituamo-nos a tudo! tanto que até à porcaria deixamos de a percepcionar como pestífera.
Os atletas são [na sua maioria] os únicos que merecem respeito. Ao contrário de uma vara de burocratas (e medíocres! comprovadamente) que parasitam as insubstituíveis organizações como é o caso do Comité Olímpico nacional presidido por um tal Vicente de Moura para quem, pelos vistos, não há desastre ou destroço que lhe pesem o bastante para o fazer escrever e assinar a carta de demissão o que, convenhamos, não é para admirar... Afinal qual é o múnus vital do parasita? Não é certamente o de apreciar e valorizar atitudes, pessoas e carácteres como o de Clarisse Cruz, por exemplo.

*  de Olavo de Carvalho

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Decisões Políticas

O acórdão do Tribunal Constitucional  sobre a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de natal a apenas um segmento dos trabalhadores por conta de outros - os funcionários públicos -gerou já mais "doutrina" barata do que jurisprudência propriamente dita. Era previsível apesar da "originalidade" da aplicação no tempo da decisão. (…)Não são os funcionários públicos (uma ampla categoria profissional que vai da magistratura, aos professores universitários, aos médicos ou aos coveiros dos cemitérios) que constituem o "Estado" em exclusivo. Pelo contrário, o peso dos vencimentos daqueles no "bolo" da despesa pública é incomparável com o que os contribuintes (e os funcionários públicos também são contribuintes como quaisquer outros) pagam para sustentar um sector empresarial do mesmo Estado, as rendas derivadas de contratos leoninos provenientes, ou não, de parcerias público-privadas, fundações, risíveis institutos públicos, fornecimentos de serviços externos quando o Estado tem internamente gente habilitada para os produzir (v.g. pareceres, auditorias, estudos) ou um património imobiliário ou um parque automóvel mal geridos. Reduzir, por exemplo, o sector empresarial do Estado a danças grotescas de entradas, saídas e manutenções de gestores em que nem as entradas, nem as saídas e, muito menos, as manutenções dão qualquer garantia de maior eficácia e eficiência no uso dos dinheiros públicos, é parafrasear simplesmente o acórdão. Aprende-se no direito que "quem pode o mais pode o menos". O que não se aprende é que quem não pode o menos, pode o mais. O que aí vem já não passa só pelas folhas secas da contabilidade. Ou passa pela política, ou então não passa.