Quando a palavra recebe o tratamento de polé que recebe e, por isso ou por quaisquer outras razões, as cavidades orais debitam em contínuo um chorrilho de adjectivos, e outros tantos superlativos, a propósito “do que poderá vir a ser”, o que podia ter sido “se”, o que só não foi “porque” ou o excelente, notável ou extraordinário que é apesar de na realidade, o resultado ter sido menos do que medíocre ou por lá perto, está tudo dito.
Esse sistemático uso do verbo sem qualquer critério acontece não por exigência da descrição da realidade e dos factos mas por compulsão. O que é preciso é falar, vocalizar. Dizer o que seja é que não é o mote ou a regra e talvez nem valha a pena. Afinal o imbecil colectivo* não distingue entre uma coisa e outra. Para o imbecil colectivo não há distinção entre grasnar, pipilar ou piar: os pássaros piam e/ou cantam. Os homens falam (embora possam e devam procurar, falando, dizer algo). Mas como isto anda tudo ligado, vai dar tudo ao mesmo -- como diz o outro.
Apanhei a transmissão dos derradeiros 500 mts. de uma prova final de remo em que entraram dois remadores portugueses. De seis equipas ficaram em quinto. O sr. da têvê, especialista/comentador, disse-os extraordinários. Como diria se tivessem alcançado uma medalha?! …, provavelmente, extraordinários já que, no domínio do ordinário, não cabe o que por ser grandioso quebrou as grilhetas do comum.
É, para usar um termo presentemente muito em voga, uma questão de mínimos.
… o Sócrates é engenheiro e o Relvas, licenciado. Habituamo-nos a tudo! tanto que até à porcaria deixamos de a percepcionar como pestífera.
Os atletas são [na sua maioria] os únicos que merecem respeito. Ao contrário de uma vara de burocratas (e medíocres! comprovadamente) que parasitam as insubstituíveis organizações como é o caso do Comité Olímpico nacional presidido por um tal Vicente de Moura para quem, pelos vistos, não há desastre ou destroço que lhe pesem o bastante para o fazer escrever e assinar a carta de demissão o que, convenhamos, não é para admirar... Afinal qual é o múnus vital do parasita? Não é certamente o de apreciar e valorizar atitudes, pessoas e carácteres como o de Clarisse Cruz, por exemplo.
* de Olavo de Carvalho