quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dos génios [da finança] e predestinados [do mundo empresarial] lusos (I)

Os dois investimentos ‘chumbados’ esta semana pelo Governo e pela Caixa Geral de Depósitos, de Alexandre Alves e José Roquete, revelam a pior faceta dos empresários portugueses.
Um recusou dar os documentos exigidos à formalização do processo, outro achou que não devia dar garantias patrimoniais pessoais. Qualquer cidadão pede um empréstimo ao banco e é-lhe exigido toda a espécie de garantias e informação, incluindo o nome dos animais domésticos. Estes empresários, porém, acham que o Estado tem de pagar sem tugir nem mugir. Sentem-se imunes a tudo e acham normal ser empresários com o dinheiro dos outros. Não há crise nem lata que lhes chegue.
Eduardo Dâmaso, CM

domingo, 5 de agosto de 2012

Fasquias

Quando a palavra recebe o tratamento de polé que recebe e, por isso ou por quaisquer outras razões, as cavidades orais debitam em contínuo um chorrilho de adjectivos, e outros tantos superlativos, a propósito “do que poderá vir a ser”, o que podia ter sido “se”, o que só não foi “porque” ou o excelente, notável ou extraordinário que é apesar de na realidade, o resultado ter sido menos do que medíocre ou por lá perto, está tudo dito.
Esse sistemático uso do verbo sem qualquer critério acontece não por exigência da descrição da realidade e dos factos mas por compulsão. O que é preciso é falar, vocalizar. Dizer o que seja é que não é o mote ou a regra e talvez nem valha a pena. Afinal o imbecil colectivo* não distingue entre uma coisa e outra. Para o imbecil colectivo não há distinção entre grasnar, pipilar ou piar: os pássaros piam e/ou cantam. Os homens  falam (embora possam e devam procurar, falando, dizer algo). Mas como isto anda tudo ligado, vai dar tudo ao mesmo -- como diz o outro.

Apanhei a transmissão dos derradeiros 500 mts. de uma prova final de remo em que entraram dois remadores portugueses. De seis equipas ficaram em quinto. O sr. da têvê, especialista/comentador, disse-os extraordinários. Como diria se tivessem alcançado uma medalha?! …, provavelmente, extraordinários já que, no domínio do ordinário, não cabe o que por ser  grandioso quebrou as grilhetas do comum.

É, para usar um termo presentemente muito em voga, uma questão de mínimos.
… o Sócrates é engenheiro e o Relvas, licenciado. Habituamo-nos a tudo! tanto que até à porcaria deixamos de a percepcionar como pestífera.
Os atletas são [na sua maioria] os únicos que merecem respeito. Ao contrário de uma vara de burocratas (e medíocres! comprovadamente) que parasitam as insubstituíveis organizações como é o caso do Comité Olímpico nacional presidido por um tal Vicente de Moura para quem, pelos vistos, não há desastre ou destroço que lhe pesem o bastante para o fazer escrever e assinar a carta de demissão o que, convenhamos, não é para admirar... Afinal qual é o múnus vital do parasita? Não é certamente o de apreciar e valorizar atitudes, pessoas e carácteres como o de Clarisse Cruz, por exemplo.

*  de Olavo de Carvalho

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Decisões Políticas

O acórdão do Tribunal Constitucional  sobre a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de natal a apenas um segmento dos trabalhadores por conta de outros - os funcionários públicos -gerou já mais "doutrina" barata do que jurisprudência propriamente dita. Era previsível apesar da "originalidade" da aplicação no tempo da decisão. (…)Não são os funcionários públicos (uma ampla categoria profissional que vai da magistratura, aos professores universitários, aos médicos ou aos coveiros dos cemitérios) que constituem o "Estado" em exclusivo. Pelo contrário, o peso dos vencimentos daqueles no "bolo" da despesa pública é incomparável com o que os contribuintes (e os funcionários públicos também são contribuintes como quaisquer outros) pagam para sustentar um sector empresarial do mesmo Estado, as rendas derivadas de contratos leoninos provenientes, ou não, de parcerias público-privadas, fundações, risíveis institutos públicos, fornecimentos de serviços externos quando o Estado tem internamente gente habilitada para os produzir (v.g. pareceres, auditorias, estudos) ou um património imobiliário ou um parque automóvel mal geridos. Reduzir, por exemplo, o sector empresarial do Estado a danças grotescas de entradas, saídas e manutenções de gestores em que nem as entradas, nem as saídas e, muito menos, as manutenções dão qualquer garantia de maior eficácia e eficiência no uso dos dinheiros públicos, é parafrasear simplesmente o acórdão. Aprende-se no direito que "quem pode o mais pode o menos". O que não se aprende é que quem não pode o menos, pode o mais. O que aí vem já não passa só pelas folhas secas da contabilidade. Ou passa pela política, ou então não passa.

A palha onde o gado feliz dos homens se deitou *

Por outras, e mais estas, não há como torcer o nariz a Ernst von Solomon **
«Nós não lutamos para que o povo se torne feliz. Lutamos para lhe impor um destino».E não se esgota o manancial: de esse faz parte, dentro de portas, A crise do Liberalismo (tese de doutoramento [1]) de Vitor de Sá
= A corrupção parlamentar, as tentativas de ditadura e os conflitos de interesses no seio da grande burguesia =
mais precisamente

Praticamente, dois séculos depois, os portugueses não foram capazes de se livrar de nada daquilo


* Mallarmé
** escritor Alemão (1902-1972)
 [1] convém explicitar, por via das dúvidas, que i) o doutoramento é do séc. passado; ii) foi efectuado na Sorbonne (não foi na Independente nem na Lusófona, etc) e iii) não existia “Bolonha”