sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Pela aragem se vê quem ocupa a carruagem

1. Fossa ― Ao ouvir as contorções retóricas de Fernando Negrão não tive como não recordar os idos de 1978 quando, os das «Opções Inadiáveis», andavam num frenesim dialético e em ‘reuniões’ de clandestinos, ‘acoitados’ pelo insigne prof. Barbosa de Melo, Sousa Franco, Guilherme d’Oliveira Martins,…a (tentar) ‘fazer a folha’ a Sá Carneiro. Ao menos esses tinham/tiveram a nobreza de carácter pelo seu lado: assumi(r)am-se! até às últimas consequências – a cisão do grupo parlamentar e a posterior formação da ASDI (Associação Social-Democrata Independente).
Mas, houve pior. Não é fácil [para mim] encontrar maneira e léxico para ajuizar dois plantígrados imprestáveis que, sendo candidatos, votaram em branco.

Hoje, interessam-me nada as peripécias em si; inquieta-me, sim, a ostensiva ausência de personalidade desta gente cujas preocupações cívicas e convicções ideológicas se esgotam em bordões, facécias e elevados níveis decibélicos. Poluição intelectual, visual e sonora, apenas.

2. É claro que nos devemos abster em deduzir regras de conduta – a boa conduta não necessita de ser formulada para ser seguida. O juízo crítico [como foi percebido por August Strindberg] – mesmo quando é justo face aos padrões e saberes do momento – ‘é tão ocioso como decifrar animais nas nuvens’. Ou seja: cada qual vê o que quer e, do que vê, faz o juízo que melhor lhe aprouver. Além do mais, o húmus sociológico e por consequência o múnus, prevalente, permanecem ― não obstante inúmeros [intuo] ‘esforços’, avulsos quando não, apócrifos ― circunscritos em estremas que, apesar da ‘evolução’, subsistem essencialmente intactos […para não trazer à colação a amplíssima, englobante e dérmica nequícia que determina o ‘carácter’ das comunidades…]. Acresce nunca termos sido submetidos a provações suficientemente poderosas [as vezes em que ao longo da História o fomos havia caminhos para fazer, terra para desbravar…o estado de absoluta miséria e a fome sempre fizeram o resto…como, por exemplo, dar-lhes a coragem para optarem entre morrerem à fome, imóveis, ou morrerem na tentativa, desesperada, de a saciar] de molde a deixarem marcas profundas, mas tão profundas, que nos obrigassem a arrepiar certos ‘caminhos’.

3. Tudo tem explicação. O ‘facto’ tem origem remotíssima. O nosso mais ancestral ‘problema’ [mais difícil de modificar, portanto] é sermos uma sociedade atreita em acolher no seu seio pervicazes que não toleram que os homens não se lhes rebaixem e não sejam meras máquinas replicadoras do que pretendem ― Calvinos, empedernidos pela presunção e – precursores ou ‘herdeiros’ (?) – matilhas de Farel. Bem melhor seria que fossemos pródigos em Castélio – homens realmente livres e capacitados para ponderações sistemáticas e imparciais. Que os gerássemos ou, não gerando, os criássemos! Nem uma ‘coisa’ nem a outra.

4. Vértex ― Miguel de Unamuno espantou-se. Três portugueses, seus amigos – Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Soares dos Reis – suicidaram-se. Outro – Manuel Laranjeira –, desesperado, escreveu-lhe ― «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa! (…) Ou nos salvamos nós, ou ninguém nos salva.» ― e, três meses depois, trespassou o crânio a tiro. Uma lástima! Não havia anti-depressivos.

Obs.: o exercício aritmético a fazer com os operandos 1, 2, 3, e 4 é ‘á vontade do freguês’.