sábado, 12 de agosto de 2017

Compreensão e Política (a)

Há duzentos anos, e sem que se fosse absolutamente estúpido, era aceitável confiar no futuro. Hoje, e dado que somos esse esplêndido ‘porvir’, quem crê nas actuais ‘predições’? Há perguntas que devem evitar-se; ou fazem-se prescindindo da resposta. Porque em duzentos anos, das tecnologias às ciências aplicadas, tudo foi exponencialmente incrementado. Não posso, por ser errado, afirmar que a inteligência se decrementou; mas posso afirmar que se mantiveram incólumes os níveis que definem as várias formas de hebetismo. E as tecnologias trataram de incrementar a visibilidade, por exemplo.
Leslek Kolakowski * propalava que i) nunca há falta de argumentos para apoiar qualquer doutrina, sejam quais forem as razões para tal; ii) invariavelmente se encontram causas para qualquer acontecimento ou fenómeno por muito extraordinários ou inesperados que sejam; iii) aconteça o que acontecer será explicado. Ora – observo eu – com folhas de papel em branco ‘explica-se’ muito melhor.
À primeira vista, há qualquer ‘coisa’ que não bate certo ou está em falta. Não há ‘coisa’ desacertada ou em falta! Há somente um denominador que, naturalmente, é comum e, pior, prevalente. É este o quid pro quo – a prevalência do denominador. Alegoricamente, e no que concerne a esta ‘problemática’, o «cerne» não é o ‘bicho da fruta’; é a ‘fruta’. E mais: a ‘fruta’ não deseja tornar-se imune à actividade do ‘bicho’.

(a) de Hannah Arendt
* filósofo polaco/‘Lei da Cornucópia Infinita