quarta-feira, 21 de junho de 2017

Venceram. Parabéns!



Por menor que seja o prazer [ou por maior que seja o meu desagrado] em escrever o que segue, o certo é que me resta nada à excepção de lhes dar parabéns, sinceros.
Venceram. Parabéns! 
Os “hierarcas” conseguiram com efeitos imediatos aplacar as reacções mais instintivas e enlevar e arremansar as almas, desassossegadas. O Presidente da República na sua função de esmoler de afectos, o primeiro-ministro enquanto proselitista, os ministros dos pelouros em causa — Agricultura, Capoula dos Santos, Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e o secretário-de-estado da Administração Interna, Jorge Gomes — com uma permanente presença no terreno, e nos écrans das nossas tv´s, a fazer que intervinham efectivamente nas decisões dos comandantes operacionais conseguiram o que, naturalmente, os administradores políticos anseiam: um povo sereno, agradecido [se penhorado, melhor], resiliente, cumpridor leia-se bom pagador, meio acéfalo, obstúpido, e uma rede administrativa dissimuladamente corporativa, ancilar e igualmente grata.
Deste “organograma” apenas lhes falta apresentarem-se [ar circunspecto] nas exéquias das vítimas a dar nota da sua consternação e profundo pesar.
Porquê?
— Porque li e ouvi, o que foi escrito e dito pelas vias comuns do mainstream. E estabeleço as diferenças entre o que era exigido até ontem e com quê ficarão sossegados, amanhã. David Dinis [do jornal Público], por exemplo
– se até ontem havia respostas que tinham de ser dadas de forma iniludível e quaisquer que fossem as consequências, hoje [o título — A investigação, quando vier, que seja independentenão é tudo mas é muitíssimo, desgraçadamente], a exigência será saciada com a «independência das investigações». Ora, nós sabemos (devíamos saber) o que é [para os efeitos devidos e no caso em apreço] «independência»: sabemos (devíamos saber) os profícuos [em termos de magnanimidade, equidade, objectividade, ponderação, …] resultados que, a “independência” dos “independentes” (nas formas de mandato individual ou orgânico - institucional ou por incumbência), por cá, ao longo de décadas e no âmbito das mais diversas actividades
[do coetâneo apuramento de responsabilidades criminais — da banca falida ao «Bolama» e/ou «Camarate»; do uso dos fundos estruturais, comunitários, e mais os “buracos” por onde se escoaram as centenas de milhar de milhões de euros dos três primeiros Quadros Comunitários de Apoio (o QCA I em 1989/1993, o QCA 11 em 1994/1999 e o QCA 111 em 2000/2006) ao assassinato de Joaquim Ferreira Torres; da aquisição dos helicópteros (inoperacionais ou em vias disso) até aos famigerados blindados Pandur e mais os submarinos, …]
contentar-se-á se a investigação fôr independente
[como se isso não fosse uma de entre muitas abstracções lírico-políticas com que os “sumo-sacerdotes” adormecem e endrominam o populacho];
— porque, fosse eu familiar [próximo e/ou com capacidade de decisão] de uma vítima, faria o que me fosse possível por não ter de me cruzar com qualquer deles com excepção de bombeiros – os bombeiros são os únicos por quem me sinto grato; por consequência seriam os únicos que me fariam engolir a eventual genuinidade do pesar.
Em conclusão: Ficaremos como estávamos e contando menos 64. Na queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-rios, também ficámos de uma vez com 59 a menos e daí não veio mal nem à pátria nem aos responsáveis com excepção da assumpção da "responsabilidade política" do ministro à época. Ora, responsabilização política é, para mim, algo extremamente reconfortante e compensador.
Sobre esta tragédia, os responsáveis, as falhas, etc…os meus leitores não lerão, mais, pio que seja. Bem, afinal o homem é um animal de hábitos e a noção de respeito assim como as formas de ser respeitado, é uma tisana que cada um toma a que quer.
Paciência!