terça-feira, 30 de maio de 2017

Anotações (4)

[nas bordas das páginas]

• A “inclemência” da coerência

Ser algo sem condições é uma insensatez.
O homem quando não se liberta do despotismo das ‘convicções’ [como se com isso não gerasse um outro ‘corpo de convicções’], perde-se. Começa a aceitar tudo, a envolver na sua tolerância os abusos, os crimes e as monstruosidades, os vícios e as aberrações. Pelas mais diversas razões, e porque para todas as “anomalias” se encontram pretextos, tudo passa a ter o mesmo valor. O longo e dúctil braço da indulgência estende-se ao conjunto, e envolve culpados, vítimas e carrascos. A piedade dirige-se à existência por inteiro e a caridade subsiste mais pela dúvida do que pelo amor.
O homem livre das ‘grilhetas da convicção’ amalgama as “coisas” e molda-se aos objectos e aos seres, indiferentemente. É uma consequência do ‘conhecimento’ – não é da sabedoria.

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Das apreciações e juízos baseados nesse ‘conhecimento’ aventou – e bem! – August Strindberg: “O juízo crítico, perante os padrões e os saberes do momento, mesmo que justo é tão ocioso como decifrar animais nas nuvens”.
É o que me basta.