terça-feira, 25 de abril de 2017

Nas pontas dos pés para parecerem altos

Meio-estrovinhado calhou-me ouvir a discursata predicatória da “bloca”, Joana Mortágua.
Erro meu, má fortuna! 
Política e intelectualmente “hemiplégica”, citou Vergílio Ferreira 
«Que a fronteira da tua Liberdade não te seja a porta da casa para que tu sejas livre dentro e fora dela; que a tua Liberdade comece no pão que te espera à mesa e persista no desconhecido que te espera na rua; que a distância de ti a ti, seja por ti preenchida e nunca pela polícia ou por um director de consciência. Tu és livre e é, portanto, do teu dever libertares-te.»

A propósito, in Conta Corrente (1). Data venia


10.05.1974 – «Hoje no liceu correu um manifesto dos meninos. Curioso: o professor foi (um) a grande vítima do fascismo. Mas é sobre ele que incide a exacerbação dos moços. No fundo, o seu programa é simples: não estudar, passar o ano e ter o professor às ordens como têm em casa as sopeiras. Exigir dos professores boas notas, muito saber, como à criada exigem lhes traga o café ou o penico.» 
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«Logo há reunião de intelectuais com militares para a redacção de um programa de cultura. Mas a cultura programa-se? Discute-se? (…) Cultura é um acto de silêncio. E como se palra hoje!» 
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18.06.1974 – «(…) Escrevi há dias o meu primeiro artigo político. Dei-o ao Piteira Santos para o publicar. Defendo nele um apoio ao MFA. Entretanto, o PC sorrateiramente não pára. Comícios em todo o país com as promessas coloridas de sempre. Mas o populacho, coitado, como há-de ver o logro? Promete toda a sorte de direitos, mas não diz que, subido ao poder, não mais lhe dará o direito de reclamar os seus direitos. (…) um demagogo grosseiro como o Francisco Pereira de Moura diz afinal o mesmo. Há dias num comício: “É fácil conhecer um fascista. Se um professor diz ao aluno que se cale porque está a dizer disparates, é fascista» 
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26.08.1974 – «Uma carta do Eduardo Lourenço. Coitado. O que o choca é a crassa mediocridade do que se diz e escreve nos jornais. Claro que a mediocridade triunfa, meu caro Eduardo. Está claro que tudo isto é medíocre. Mas justamente por isso é que triunfa. Há que passa-la a traço grosso do tamanho de uma casa para ser visível. (…) Um medíocre com força é imbatível: pela força, pela mediocridade resiste às ideias que não acham uma fenda  para fazer passar a subtileza. (…) O resto faz-se com táctica dirigente e fanática dedicação.»