sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Um esquisso em sete riscos



Em 25.08.2016 escrevi «Ou estúpidos ou sacanas ou sacanas estúpidos» para afirmar que, ao contrário do que alguns “bestialistas” advogavam sobre o impacto orçamental da recapitalização da CGD, tudo se arranjaria por forma a «nada se passar». Hoje está confirmado que «nada se passou», além de um solavanco. E o percurso do governo é heróico. Em 2017 tratar-se-á disso.

Em 06.06.2016 escrevi que era estulto “nadar contra a corrente” e que por isso, melhor seria boiarem – a malta já estava a sentir-se confortável. Hoje o conforto é óbvio — a sondagem DN/JN/RTP/Antena1 espelha que, em “legislativas”, o PS aprestar-se-ia para (sem apêndices tácticos) agarrar 43% (limiar da maioria absoluta). Ora eu creio que alcançaria a maioria absoluta, mesmo.

Hoje, João Pereira Coutinho, escreve «O método da loucura» [sobre a dívida pública, que não tira o sono a ninguém]. Na mouche! Há três anos Daniel Bessa, exclamou: “Lá chegaremos!”
Há dias “anotei” isso. E se dúvidas tive quanto à estratégia dos «sócios da associação governativa», deixei de as ter na transata semana — Mário Centeno, em entrevista ao jornal Bild, não desperdiçou a oportunidade de verbalizar a «premente necessidade em discutir um perdão alívio da dívida grega», cumpriu. Atrás da grega virá a portuguesa com o contributo dos efeitos (negativos) do Brexit, o desandar da economia francesa, o resultado do referendo italiano, o susto nas eleições francesas, a provável derrota de Angela Merkel, as pressões de Erdogan sobre a UE, a subida das taxas de juro por parte do Federal Reserve, a inflação importada, etc

«La nôtre gauche» aposta firme nisso. Se lograrem a “tesourada” é a glória — os custos implícitos (tremendos) estarão justificados e nessa conformidade, haverá uma “narrativa” eficaz; se não lograrem o passo seguinte não será menos airoso — dirão que apesar do “peso” do serviço da dívida conseguiram o que conseguiram e se mais não fizeram, o impedimento foi a União Europeia – os termos da narrativa, na prática, mantém-se incólumes. Ou não nos corresse nas veias o encanto pela responsabilização dos outros.

Passaram dois anos desde que escrevi que o BE devia deixar-se de fitas e enfileirarem no PS [recompor a forma e o conteúdo da esquerda socialista]. O PS agradeceria e as “notabilidades” bloquistas (presentes e futuras), também – opinar sobre os destinos da massa é uma coisa; outra bem diferente, para melhor e com maiores proveitos, é meter as mãos na massa! O que falta para completar esse caminho? falta o PS conseguir que a expressão eleitoral do BE em legislativas volte a ser efectivamente irrelevante.

Como estão a conseguindo as “coisas”? pelas mais variadas formas e processos. Por exemplo: procrastinando [um atributo que nenhum socialista, digno, deixa por mãos alheias] – Estadodeve 1.100 milhões /Dívidas dos hospitais públicos, às farmacêuticas e dispositivos clínicos, aumenta ao ritmo de 18 milhões/mês.

De quando em vez parece recrudescer e encrespar-se o “debate” de cariz ideológico. Nada mais falso para construir uma percepção errada. Em 03.01.2014, escrevi “O bolso é o algeroz por onde escorrem as ideias, as opções políticas e a consciência social. Mais do que isto é esbanjamento. Ou proselitismo. E é tudo!”, citando Monteiro Lobato – «A consciência do homem comum mora no bolso».

Em 1972, Jorge de Sena escreveu a Vittorio Cattaneo, dizendo-lhe

"Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas (...) E tudo, meu caro, deve ser medido por esta triste verdade, que, como estudioso de Portugal, V. deve ter sempre em mente: aquilo foi sempre um país de filhos da puta, apenas com algumas honrosas excepções, entre as quais me conto. Puta que os pariu, com perdão de algumas senhoras decentes que não tiveram culpa de dar à luz os cabrões que deram. Podre é que aquilo é, irrecuperavelmente podre."

Há muito quem, ao ler isto, suba aos céus. É pena! — esta contumaz verborreia não o impediu de gratificar-se pela recepção que lhe proporcionaram no «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» na cidade da Guarda, em 1977, quando cá veio discretear sobre os interstícios da obra camoniana. E nem esta, e tantas outras, obstaram a que os familiares se sentissem constrangidos e negassem a reinumação dos EUA para Portugal.
  
Se a coerência, realmente, não é uma qualidade humana, da consistência é melhor não falar.