segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os estágios da ira *


Isto é uma parcela — a parte ou casos que chegam à comunicação social; o resto não existe. Problema: o resto é muitíssimo maior do que o relatado — da realidade. A realidade é sempre muito pior. E dessa, a maioria da população nunca chega a deter uma percepção fiel.
Há fraudes nos estágios profissionais do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Há patrões a exigir aos estagiários que devolvam a comparticipação – entre 20% e 35% do salário – da empresa. E outros há que ainda exigem aos estagiários, que paguem a parte da taxa social única correspondente à entidade empregadora (23,75%). Contas feitas por outros, o fim do mês resulta nisto: — em 691 euros mensais (brutos) creditados a um estagiário, licenciado, as devoluções (ao empregador) podem ir até 400 euros — Os sectores profissionais mais afectados são arquitectura, comércio, psicologia e advocacia.
A denúncia foi feita pelo presidente do CNJ. O IEFP diz desconhecer a prática – claro! se a conhecesse não se denunciaria –…tanto mais que, consta, não há queixas formalizadas. Pudera, a rapaziada é tão necessitada quanto vil e mesquinha. Aparentemente mais instruídos até pode parecer que sim mas, os usos e os costumes mantêm-se inexpugnáveis e transitam de geração em geração, intocados. Esta tribo sempre assim funcionou e os dissentâneos, que têm assomos de dignidade ou arroubos de vertebrado, tramam-se.
É um de dezenas de exemplos por onde, partindo da base, se pode esquadrinhar “como e porquê” o que funciona razoavelmente noutras sociedades, falha rotundamente em Portugal; é um de dezenas de exemplos por onde, partindo da base, se pode esquadrinhar “o como e porquê” da elasticidade do gigantesco centrão político e do conforto com que a direita (para dar uso à verve arqueológica de esquerda) vive sob administração canhota.
E porque quão facilmente se instala a esquerda da esquerda na administração pública. Evidentemente que isto daria pano para mangas até porque as monumentais vigarices, verdadeiros actos de bandoleiros ao erário público [com a conivência dos respectivos sindicatos] aos dinheiros do Orçamento nacional ou do Orçamento Comunitário, agora da União, para aperfeiçoamento profissional, políticas activas de emprego, etc… tem pelo menos três décadas e meia. Dos processos de investigação e judiciais quer a CGTP de Kalidás Barreto, Carvalho da Silva e cia. quer a UGT de Torres Couto, José Veludo e comandita, quis-me parecer e até hoje nunca me constaram ulteriores razões para corrigir o que fosse, se livraram como verdadeiros ases. Presumo que, na calada, aclamados pelos empregadores/exploradores do povo trabalhador. Estes tinham todas as razões para o fazer de par com umas flütes de bom champagne.
Nota.: contei (está editado) como recebeu e que uso deu a banca nacional na década de oitenta do século passado a centenas de milhões de contos da CEE para formação profissional. Se os banqueiros bateram palmas os sindicatos dos bancários (3), sem excepção, arfaram de prazer. 

Somos, da base ao topo, uma comunidade de pilha-galinhas — matreiros, soezes,… 
 
 * por analogia a «As vinhas da Ira»/John Steinbeck