sábado, 24 de outubro de 2015

Escrito nas estrelas



(o primeiro de cinco post)

Se vai a uma missa católica, a dado momento dará com as pessoas a beijarem-se de forma indiscriminada e fraternal por mais que antes do ósculo se detestem e depois continuem a odiar-se. Se encontra duas pessoas à bofetada por causa de uma camisa e lhe dizem que a bordoada começou por diferenças de opinião quanto à côr, só acredita se fôr parvo. Como é evidente nem a beijoquice sinaliza a mais leve diminuição de grau de malevolência ou acrimónia da parte dos “imbuídos” no primeiro caso nem a côr da camisa dissimula a disputa pela posse, no segundo caso.

A verdade e a política andam de más relações e ninguém, tanto quanto saiba, contou com a boa-fé no número das virtudes políticas. As mentiras sempre foram consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão de político ou demagogo, mas também na de homem de Estado. No decurso da história, os investigadores e aqueles que dizem a verdade estiveram sempre conscientes dos riscos que correm – enquanto não se misturam nos negócios são cobertos de ridículo e quando se misturam têm de ser suficientemente ladinos para saber divisar a fronteira, escolher a ala e, por consequência, passam a dizer a verdade conveniente. A falsidade deliberada, a vulgar mentira, desempenha o seu papel no domínio dos enunciados de facto. Aparentemente ninguém acredita que a mentira organizada seja uma arma apropriada contra a verdade, mas é. Na realidade a mentira organizada, volvidas quatro décadas de “raciocínio livre”, funciona. Existe um real antagonismo entre a verdade e a política, mas inexistem provas de que assim tenha de ser. É uma velha e complicada história, a do conflito entre a verdade e a política!

O pai, um relapso e contumaz mentiroso, pergunta a Zósima, o stariets (1)
E o que é que devo fazer para obter a salvação?
Zósima responde-lhe
Sobretudo, nunca minta a si próprio!
F. DostoievskiOs Irmãos Karamazov»

Não é necessário conhecer todas as estrelas para desenhar uma constelação.


(1) monge


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