quinta-feira, 11 de junho de 2015

Quem nasce lagartixa nunca será crocodilo



«(…) a mais leve compreensão da “crise” tem de começar muito antes na “pesada herança” que nos legou Salazar. Além de uma guerra colonial (…) implicava “desenvolver” o país (…) Ora o “desenvolvimento” do país tinha de ser pago e suportado pelo Estado. O défice perene das contas portuguesas desde 1975 vem dessa necessidade imperativa. (…) Claro que se cometeram erros sobre erros nessa esmagadora obra de “modernizar Portugal”; e fora a gente com competência técnica indispensável, entrou de roldão no Estado uma turba de inúteis, que passou a comer à nossa custa. (…) durante quase meio século, as coisas foram andando (…) com dinheiro emprestado, tentou fabricar a aparência de um “progresso” falso, mas vistoso. A bancarrota, claro, chegou depressa. (…)»

                                                                                                    Vasco Pulido Valente

É público e notório que tenho o maior apreço intelectual por Vasco Pulido Valente. Este apreço não obsta que sobre o texto, «Outra história», esboce a minha discordância. 

Reza o ditado que «no melhor pano cai a nódoa». Neste caso a  nódoa está cerzida no pano e por consequência não houve, não há e não haverá detergente que resulte porque «foi precisamente a gente que resolveu esse problema que nos tramou o futuro e isso é agora tão evidente que até dói pensar no assunto» (1) e «VPV faz parte dessa gente» (1). 
Sendo um indivíduo intelectualmente municiado devia ter maior cautela e no limite não coligir sobre “temáticas” das quais desconhece tudo e sobre as quais padece, mas cultua, de vários preconceitos. É um atrevimento que lamento. 
«Todas as profissões têm a sua falha característica. A falha da escrita jornalística é a superficialidade e a falha da escrita académica é a irrealidade» (2) 
No texto em epígrafe Vasco Pulido Valente faz o pleno – é superficialmente académico. 

Quarenta anos foram insuficentes para lhes sublimar as “sequelas pós-traumáticas (putativas, a maioria, convenhamos); mais de meio século após o passamento de Oliveira Salazar os “herdeiros” ainda se lamentam do legado, envenenado; gente que conta pelos dedos os anos que ainda perambularão entre vivos e nada há que lhes silencie a “trágica” orfandade. Mas, enfim, não é isso que me surpreende. 

Tive ocasião de encontrar explicação para muita dessa difusa e abrangente execração às Áfricas em Miguel Torga.  
Miguel Torga [sorumbático, ensimesmado, cinzento; esquivo a roçar a agorafobia e declaradamente oclofóbico; uma lengalenga de meia-palavras pejada de insinuações sempre desfavoráveis com os “urbanos” e consecratórias com os “rurais”; … tudo o que não esteja confinado às estremas de S. Martinho D’Anta, vá lá do Douro, são odes à fealdade em resultado de laxismo ou cinismo do Criador, desengraçado, sem nobreza, etc] jamais me suscitou a mais leve curiosidade. Pelo contrário – sempre me foi indiferente, a títulos vários, porém, há uns tempos, resolvi supliciar-me [sempre fui pouco afeito a emprenhar pelos ouvidos e os papagaios não são os meus pássaros preferidos] com vários dos seus «Diários» [do 5º ao 12º] aonde grafou uma série de significativas “impressões”. 
Deixo uns quantos altissonantes exemplos da indisponibilidade para apreciar e, por consequência, organizar um pensamento com excepção da abjuração, porque sim.
«Luanda,19.05.73Paisagem seca, pulverulenta, ardida, de vegetação precária e rasteira, que algumas cabras famélicas depenam e algumas presenças arbóreas tentam em vão erguer: embondeiros disformes, monstruosos; mangueiras sombrias; mamoeiros esgrouviados, sintéticos, de testículos ao pescoço. E por mais que não queira, sinto-me intruso, rejeitado, excluido (…) fui há pouco visitar a cidade. E o largo passeio pela urbe apressada, enfática, leviana, apertada num cinturão de muceques, não me desanuviou a alma. Pelo contrário. Quando regressei trazia duas metrópoles nos olhos doridos: uma, arrogante, retórica, de papelão, a negar o preto; outra, calada, tentacular, eczematoza, a negar o branco. Uma parece um delírio febril de sitiados; outra, um acampamento sorna de sitiantes.»

«Cela, 21.05.73trezentos quilómetros de desilusão humana e paisagística. (…) Não há dúvida: o português foi incapaz de repetir nestas paragens africanas o milagre brasileiro. Lá, enraizou-se; aqui, não. Certamente porque lá o senhor e o escravo eram ambos emigrados e colonizadores. Apenas conjugados poderiam triunfar. Aqui, o branco foi e continua a ser intruso. Visito uma roça modelar. Um abismo intransponível separa a casa grande da sanzala. O indígena não faz parte da família. Isolado na sua aldeia, segregado, é uma máquina que no fim do trabalho recolhe à arrecadação.»

«Santo António do Zaire, 22.05.73Petróleo! Sei que onde ele aflora, nasce o oiro. Mas nem assim o amo. (…) pouco depois, junto a uma torre de perfuração, enquanto recebia explicações dos entendidos e pisava a massa betuminosa que saía das profundidades, ia pensando na lição que estávamos a dar ao indígena. Em vez de emprestarmos consciência racional à sua riqueza, ensinamos-lhe a técnica de a destruir, de a esventrar e de a poluir (…)»

«Lobito, 24.05.73a aridez dos montes circundantes, Camões num pedestal, o forte da Catumbela e o empório comercial da Cassequel. A terra estirilizada pela incompetência sanitária que incendiou o mato para debelar a doença do sono»

«Sá da Bandeira, 27.05.73(…) Há epopeias a admirar no planalto. Os colonos madeirenses que subiram a serra em carros de bois desbravaram semearam e sucumbiram e de que restam apenas os descendentes, os chicoronhos, resíduos humanos sem ombros sequer para suportar o mito dos pais.(…)»

«Nova Lisboa, 30.05.73(…) Dois lados de uma medalha: no verso, a fisionomia ávida e leviana do branco, que não conseguiu traduzir cinco séculos de presença numa missão histórica; no reverso, a do negro, humilhado na sua inocência tribal ou degradado na sua destribalização. (…) E que posso eu ler nestas extensões incultas, selvagens, ainda na pureza original dos primeiros dias da criação?»

Nessa picada, que empreendi com Torga, gorou-se-me o temor – bem bom! – de que a criatura, chegada à Gorongosa, na «outra costa», tivesse deparado com jacarés a saírem-lhe pela torneira.
Hoje, não me surpreende; sequer me revolta. Afinal quarenta anos de sojorno no ovil bastam para compreender que i) os portugueses nunca desmentiram Pascal (3) e ii) constituem uma supimpa confirmação da Lei da Cornucópia (4).


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(1) PortadaLoja, blog

(2) Timothy Garton Ash, History of the Present

(3) «as pessoas não formam as crenças baseadas em provas»

(4) «Nunca faltam argumentos para apoiar qualquer doutrina em que se queira acreditar, sejam quais forem as razões para tal. Encontram-se causas para qualquer acontecimento ou fenómeno por muito extraordinário ou inesperado que sejam. Invariavelmente, aconteça o que acontecer, será explicado», Leszlek Kolakowski

(5) imagem picada de «Angola, no tempo do Kaparandanda»

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