27 de dezembro de 2013

O jogo d'A Traça

Um amigo deu-me a conhecer um “jogo” [e depois disso fiquei sabendo que a sua disseminação nas redes sociais tem sido profusa] criado por um tal Pedro Miguel Cruz [designer e investigador da Universidade de Coimbra]. Nele os [curiosos] “jogadores” podem ver a intimidade entre a «classe política» e o universo empresarial. Podem constatar a relação entre a traça e a roupa. Mas o facto de terem de andar às rebajas não é por causa da traça. É por responsabilidade culpa de quem anda às rebajas.
O criador tem mérito. De isso não haja dúvidas. Mas, como não podia deixar de ser [daí a disseminação nas redes], a “coisa” despencou para um lado. E despencou para porque o criador assim pretendeu.
Tudo em benefício da Causa; nada contra a Causa. E nesse sentido, os ursos têm de ser respeitados ou seja, têm de ser tratados como ursos. Não se dão bróculos a ursos; dá-se-lhes guloseimas, mel,…
Raquel Varela [uma réplica pós-moderna de La Pasionária, uma versão em chique] de isso cuidou, com esmero.


Os dados do joguinho restringem-se às promíscuas relações desde 1975. Por isso, o jogo,, depressa me desiludiu. Enfim não traz nada de novo ou entusiasmante: é tudo sabido e mais do que esmiuçado.
Não fosse o préstimo à doutrina, à Causa e tivesse o “criador” [que falta de imaginação!] alargado o «ciclo» e, quanto a mim, obtinha um efeito mais impressivo.
Ter-lhe-ia bastado ampliar o ciclo em mais 3 anos -- em vez de ser a partir de 1975, ser a partir de 1972.


Da forma como foi elaborado [de 1975 a 2013] o “jogo” a conclusão é, sempre, «uma vergonha!».Uma vergonha sucessivamente escrutinada. Por conseguinte, legitimada. por escrutínio secreto e universal. Legítima, portanto. Democrática, consequentemente.
Caso tivesse sido a partir de 1972/1973 a diferença, em termos pedagógicos, seria de tomo. Vejamos
-- um dos alvos, um dos quesitos retóricos antes do 25 de Abril era que a economia nacional estava nas mãos de uma dúzia de “grandes capitalistas” ou faxistas, consoante a congregação;
-- depois do 25 de Abril e até ao fim do PREC, a economia nacional foi entregue a custo zero, a Komissários do povo e a cuperantes (de cuperativas), incumbidos pelo povo;
-- que conseguiram o feito de pôr isto a  água e pouco pão e, por consequência, lá tiveram a começar em Ramalho Eanes e a terminar em Cavaco Silva, passando por Mário Soares que andar mundo afora, rogando aos faxistas fujões que regressassem que o Estado garantir-lhes-ia etc e tal… Foram regressando e o Estado deu-lhes tudo o que havia para dar, por forma a reerguerem os impérios [com a mesma ou nova designação, no mesmo métier ou noutro qualquer a que entretanto se tenham dedicado]… daqui em diante nada há a acrescentar por estar incluso no “jogo”.

Resumindo

1 -- antes do 25 de Abril a economia portuguesa estava entregue a uma dúzia de «grandes capitalistas», esploradores e faxistas;
2 – quatro décadas depois a economia nacional, está entregue i) três dúzias de pequenos grandes capitalistas, exploradores mas democratas [herdeiros dos esploradores, faxistas], ii) três dúzias de ricos aguadeiros que fazem lobbying interno e mercam assessoria jurídica e/ou financeira e iii) umas poucas dúzias mais, que andam à cata por aqui, ali e mais por onde lhes cheire a migalhas…

Erigir tudo isto como troféu e proclamá-lo como glória do regime é OBRA. Um orgulho!
Parabéns!

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