«[…] o velho fantasma corporativo, que tantas vezes bloqueou
o País. Os portugueses, mesmo em terrível emergência, insistem em defender
interesses e privilégios através de entranhados mecanismos sociais e políticos.
Direitos adquiridos, favores, "cunhas", redes de influência têm
enorme poder, e estão em plena acção nestes anos a dois níveis […]
O primeiro é o protesto, reivindicação e bloqueio
legislativo e judicial às medidas de ajustamento. Apesar das evidentes
dificuldades nacionais, alguns grupos acham-se com direito a manter benesses
que a sociedade evidentemente não consegue pagar. […] são os grupos mais
próximos do Estado - funcionários, médicos, professores, pensionistas,
autarquias -, precisamente os mais favorecidos nos anos de fartura. Fingindo-se
desvalidos, abusam dos impostos dos pobres. As forças políticas vão à boleia do
embuste […] Desempregados, empresas falidas, imigrantes, contribuintes, que
realmente são os mais afectados pela crise, acabam sempre sacrificados e usados
como figura de retórica para preservar benesses de outros.
O segundo nível, talvez mais grave, é o das empresas e
poderes económicos próximos do Estado, que têm distorcido o ajustamento a seu
favor. Se as pequenas e médias ajustaram rápido, como vimos, muitas grandes
empresas conseguem proteger-se graças a relações políticas. Através de rendas,
apoios e influências, os bancos, construtoras, comunicações, energia, outros
serviços básicos e alguns grupos económicos mantêm artificialmente negócios e
investimentos insustentáveis. O capitalismo de compadres tem muito poder num
país corporativo.[…]»
João César das Neves
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