11 de agosto de 2013

A flor da utopia *

A “bandeira”. Nada mais do que a “bandeira”.

Incrédulo, ouço [incrédulo é, claro, forma de dizer; é mais do que incredulidade], «foi uma referência de esquerda». O homenageado não merece senão a vacuidade «foi uma referência. De esquerda» [Catarina Martins, BE].

Em vida terá sido um cidadão exemplar [com toda a falibilidade que o termo possa encerrar]; foi, e isso sem dúvida, um proeminente académico; da sua “passagem” legou-nos [boa ou má dependerá da opinião dos sobrevivos] obra. Mas tudo aquilo importa, apenas e só, se puder ser instituído como referencial (1) -- de esquerda. Nada mais prevalece. Face à bandeira tudo é acessório.
Algo sobejará se, e apenas, fôr conforme à simbologia.

Dos ditirambos que presumo ele não fazia questão há os que, por mais voltas que dê, me sugerem “cuspo”. Palavras, circunstanciais, proferidas por quem a tal é instigado. “Cuspo” sobre o estro. Epitáfio sentido, vénia cativa, penhora solene, prostração… É que por mais que esprema, não sinto.

É a morte e a sorte **.
O Sol vale não por lhes ser vital, mas por despontar a oriente [por mais que sejam os que se extasiam com a cromática do crepúsculo]. Será na pena e no verbo da intelectualidade [e mais na de pernósticos] o que a efígie de Che é nos peitilhos das t-shirts da arraia-miúda.

(1) Qual é o papel da literatura em momentos como este?
«Sou comunista e sou escritor e nunca obedeci a pedidos para fazer dos meus livros instrumentos de combate do PC, mas como a minha ideologia é essa ela projecta-se e essa projecção é útil neste momento porque as massas necessitam do apoio dos intelectuais e eu estou a dá-lo embora dentro da minha linha, que é estética e intimista. Uma vez chateei-me com um tipo do partido que queria que eu pusesse mais sangue, mais vermelho naquilo que escrevia.»

 * [ensaio de] Urbano Tavares Rodrigues, 2003
** [romance] Fernando Fonseca Santos, 2002

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