28 de junho de 2013

Da cristalografia

A multidão procura os assassinos de César e depara com um indivíduo furtivo.
Alguém pergunta: «Quem és tu?»
O desconhecido: «Sou Cássio»
A multidão: «É o conspirador. Matem-no!»
O desconhecido: «Sou Cássio… o poeta»
A multidão: «matem-no! pelos maus versos»
Júlio César, Shakespeare
(adaptação livre)

Em coisas sobre as quais os tolinhos pensam que a decisão advém e/ou depende da força com se expressa o que designam por colectivo, mas que eu prefiro designar por multidão, convém não perder de vista as “lições” implícitas às aventuras de Gargântua e Pantagruel, narradas por Rabelais [Pantagruel, Gargântua e Livro(s) IIIº, IVº e Vº], nomeadamente [o que gosto deste advérbio] a carta de Gargântua ao filho e o Elogio das dívidas.
Rabelais, Pantagruel, sabia muito da natureza humana e por consequência essas dóceis, serenas ou iracundas criaturas fizeram-no sorrir. Admito que sem prazer algum. A representação dos que agem como náufragos, que se imaginam a afundar-se por não terem obtido uma réstia de poder que se veja ou uma bolsa de proventos que se note e que, ainda por cima, não enxergam meia-dúzia de palmos de terra firme frente ao nariz é feita por lanígeros.
Viajando num barco que transportava um  rebanho e o respectivo pastor, Panurgo, farto da “insolência” do pastor, pegou numa ovelha e lançou-a borda fora. Logo, de imediato as outras a seguiram e morreram afogadas.

Em 1994, a revista Fortune, em Editorial, a propósito dos “emergentes”, escrevia mais ou menos assim «a boa altura para comprar é quando o sangue jorra pelas ruas»; a Investor´s Guide, da Fortune, em 1993, sobre a oportunidade de uma ida aos saldos, escrevia «há que comprar no momento em que a esperança deixou de existir»; Pedro Santos Guerreiro, um dia destes, botou «Há dez anos já íamos todos morrer. Há dez anos já tínhamos pântano político e tanga no Estado. Há dez anos as reformas já eram todas para já e acabavam sendo nunca. Há dez anos as mesmas pessoas de hoje enchiam a boca de feitos e esvaziavam a mão de defeitos. Há dez anos já havia todas as mentiras, todos os mentirosos e todos a quem mentiam. Há dez anos já havia interesses, lóbis, corrupção, desigualdades, pobreza, proteccionismo, impunidade, compadrio, desesperança, défice, dívida, partidos políticos e políticos partidos. Há dez anos Portugal já era o que ainda era. E já havia génio. Inquietação. Vontade contra a moinha. Insatisfação com a insatisfação. E já havia zanga, fúria, urros, hurras. […] Em cinco Governos, apenas um cumpriu a legislatura. Houve maioria absolutas, relativas, coligações, dissoluções, escolhas sem eleições. As retomas nunca chegaram, o défice foi sempre manipulado, a dívida foi sempre escondida, a competitividade foi fraca, a economia foi fraca,... Os negócios foram fortes.»

Como é evidente as serenas criaturinhas de Panurgo são insensíveis a devaneios deste teor. Mas não é isso que causa dificuldades de digestão; é a percepção de que nunca o desejam saber. O ideal seria, portanto, que sempre que alguém se predispusesse a juntar-se a multidões [insurgentes ou reivindicativas], se dispusesse antes a 1 – saber o que pretende e 2 – não alimentar esperanças em resultados. O(s) Panurgo(s) existem; nunca a balir ou no meio de multidões.

~ À guisa de rogo ~

Que, por indulgência, me sejam relevadas [algumas d]as singelas instigações. 1 – a intenção é [juízo em causa própria] a melhor, 2 – devem-se ao facto de a minha [rudimentar] instrução [mais a não certificada] ter calcorreado sempre mais os caminhos do nominalismo, entenda-se realismo empírico, do que os do platonismo.

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