24 de junho de 2013

Cachaça não é água, não

Agora que a poeira assenta e para isso duas semanas foram o bastante; agora que praticamente todos os especialistas, analistas e observadores *  já se pronunciaram  desconstruindo a realidade sócio-económica e política brasileira, para mim nada sobrou. Por aí foi dito tudo o que havia para dizer e… mais o que não tem absolutamente nada a ver com a realidade, mas que lhes dá jeito. Coitados, persistem em ler e interpretar o mundo à luz dos ensinamentos «científicos» de Juan Zamora, Georges Politzer, Guy Besse e Maurice Caveing.
Ouço-os esclarecer que no esteio das manifestações, as tentativas e as acções consumadas de vandalismo, ficaram a dever-se a uma acção concertada “por” e “com” elementos da extrema-direita brasileira. Evidentemente que podiam ter sido instigadas e levadas a cabo pela extrema-esquerda ou pela(s) esquerda(s) não extremada(s) [se não por outra razão que fosse por se saber que em política, mas também em geometria ou topologia, como queiram, os extremos tendem a tocar-se], mas em termos de catequese seria inapropriado. Não há qualquer relação nem com extremas e menos com estremas. Sempre houve imenso crime no Brasil e mais haverá. Estabelecer uma ligação, atribuir um nexo entre a extrema-direita  -- coisa que não existe no Brasil pelo menos desde que Plínio Correia de Oliveira faleceu e que mesmo no tempo dele, em plena Ditadura, jamais passou de um pequeno grupelho de características mais ou menos macónicas com uma pequena diferença: os maçons adoram aventais; os da Tradição, Família e Propriedade, góticos, adoravam estandartes, vexilos e bandeiras escarlates -- e o mundo do crime pode até dar jeito a imensa gente em Portugal mas, para quem realmente interessa e respeita, a opinião desses especialistas conta menos do que nada. E quando conta, conta sim qualquer coisita mas nos termos cantados por Elisa Lucinda no poema «Só de Sacanagem»
«[…] É inútil / todo o mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal / e eu direi / […] / sei que não dá pra mudar o começo mas, se Deus quiser, vai dar pra mudar o final».
Não será a D. Dilma [com a “benção” de Lula ou não], o PT, etc… que dominarão o que quer que seja. No Brasil, desgraçadamente para eles, há dezenas de milhão que consideram uma vitória, terem feito recuar a tarifa do ónibus. Quem está nas ruas puxando essa galera na qual apanham boleia  incendiários, saqueadores e pit-bulls não é a classe dos excluídos da economia; é a classe dos desprezados da política que estas réplicas mal amanhadas de democracia criaram.

A relação que não existe mas que os especialistas lusos encontram, servirá aos seus paroquianos quando muito. Enfim, no final das contas não são ouvidos em Badajoz ou Zamora. Tenham juízo já que não podem cortar a língua. Pudessem e a maioria morria à míngua.
Na transacta sexta-feira ouvi D. Dilma a incentivar as hostes e a adormecer os hostis. Parece que depois de ter ouvido a lição sapiencial -- uma tranquibérnia, como ficou bom de perceber -- de Lula.

*estatuto que em Portugal é adquirido [pelo que me é dado ler e ouvir na comunicação social ou blogs de gente presunçosamente cheia de mundo] por quem tenha tido a oportunidade de passar uma semana de férias em Jericoacoara ou três dias de Carnaval entre a baixada fluminense e a orla de Copacabana.

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