5 de maio de 2013

O que o povo quer

«Por muito baixa que seja a bitola pela qual os portugueses medem a qualidade dos sucessivos governos e por muito alta que seja a tradicional amnésia colectiva, a situação não é normal. Um atropelado não convida o condutor alcoolizado a voltar ao local do sinistro para repetirem a brincadeira. Já uma razoável -- e inacreditável -- quantidade de eleitores não só pede a repetição do atropelamento como parece desejar que o carro duplique a velocidade. Pelo menos a julgar pelas sondagens. E a julgar por António José Seguro. O dr. Seguro (…) desatou a exigir maioria absoluta.(…) No congresso, o secretário-geral não escondeu as expectativas: emprego, emprego, emprego (…) o dr. Seguro não promete arrependimento, promete insistir na exacta receita que nos lançou na dependência da caridade (a juros) do exterior. Mal consiga mandar em nós, o dr. Seguro fará por criar, distribuir, organizar, incentivar, dar, apoiar, fomentar e estimular tudo o que lhe passar pela preciosa cabeça.  O que a cabeça não admite é um reles facto, aliás provocado por generosidade idêntica a cargo do antecessor do dr. Seguro no PS: não há dinheiro. Donde, bazófias à parte, o sustento desta falência a que chamamos País depende da troika, cujo patrocínio está cada vez mais vinculado à implementação de reformas ditas estruturais e necessariamente dolorosas. (…) o dr. Passos Coelho anunciou o tipo de "cortes" no Estado com que deveria ter inaugurado o mandato, há dois longos anos. Pelo meio, houve hesitações, incompetência e uma sanha fiscal que mantém os contribuintes debaixo de água e torna os "cortes" difíceis de suportar e, dada a aversão no próprio Governo a um crescentemente impaciente Vítor Gaspar (…) Varrer o dr. Gaspar, a quem a troika vem tolerando a trapaça, é derrubar o Governo. Derrubar o Governo é varrer o dr. Gaspar. Em qualquer dos casos, o que sobra? Nada, ou sobra o dr. Seguro, que é o mesmo que nada e, aparentemente, aquilo que o povo quer.»
Alberto Gonçalves  

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