«Por
muito baixa que seja a bitola pela qual os portugueses medem a qualidade dos
sucessivos governos e por muito alta que seja a tradicional amnésia colectiva,
a situação não é normal. Um
atropelado não convida o condutor alcoolizado a voltar ao local do sinistro
para repetirem a brincadeira. Já uma razoável -- e inacreditável --
quantidade de eleitores não só pede a repetição do atropelamento como parece
desejar que o carro duplique a velocidade. Pelo menos a julgar pelas sondagens.
E a julgar por António José Seguro. O dr. Seguro (…) desatou a exigir maioria
absoluta.(…) No congresso, o secretário-geral não escondeu as
expectativas: emprego, emprego, emprego (…) o dr. Seguro não promete
arrependimento, promete insistir na exacta receita que nos lançou na
dependência da caridade (a juros) do exterior. Mal consiga mandar em nós, o dr.
Seguro fará por criar, distribuir, organizar, incentivar, dar, apoiar, fomentar
e estimular tudo o que lhe passar pela preciosa cabeça. O que a cabeça
não admite é um reles facto, aliás provocado por generosidade idêntica a cargo
do antecessor do dr. Seguro no PS: não há dinheiro. Donde, bazófias à parte, o
sustento desta falência a que chamamos País depende da troika, cujo patrocínio
está cada vez mais vinculado à implementação de reformas ditas estruturais e
necessariamente dolorosas. (…) o dr. Passos Coelho anunciou o tipo de
"cortes" no Estado com que deveria ter inaugurado o mandato, há dois
longos anos. Pelo meio, houve hesitações, incompetência e uma sanha fiscal que
mantém os contribuintes debaixo de água e torna os "cortes" difíceis de
suportar e, dada a aversão no próprio Governo a um crescentemente impaciente
Vítor Gaspar (…) Varrer o dr. Gaspar, a quem a troika vem tolerando a
trapaça, é derrubar o Governo. Derrubar o Governo é varrer o dr. Gaspar. Em
qualquer dos casos, o que
sobra? Nada, ou sobra
o dr. Seguro, que é o mesmo que nada e, aparentemente, aquilo que o povo quer.»
Alberto Gonçalves
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