25 de maio de 2013

Apesar das melhorias em ortografia


«Escravos da mentalidade estrangeira, uns; escravos da falta de mentalidade própria, todos — nenhuns Portugueses, políticos ou não políticos, têm podido falar  nacionalmente ou superiormente a este País. […] Não falamos do País dividindo-o em classes cultas e incultas […] Falamos de Portugal na simples quantidade dos seus habitantes […] metade é monárquica, metade republicana; que são sensivelmente iguais, que são iguais para todos os efeitos práticos […] São estes os factos: o resto é fala política: fica para os maiorais que dela usam e para as rezes que crêem nela.
Da parte monárquica, uma pequena minoria é activa e forma os partidos monárquicos que se manifestam. Da parte republicana, uma minoria maior é activa e forma os partidos republicanos que se manifestam. O resto do País […] é apático e indiferente quanto à manifestação, ou até quanto à consciência das suas tendências. Como a minoria republicana é maior, mais activa e mais coesiva que a minoria monárquica, existe República […] Não existe República por nenhuma outra razão.
Esta condição política do País […] procede da mesma causa, que é o estado mental português […] Somos o país das duas ortografias. Da gente que entre nós sabe escrever, parte escreve em ortografia latina, a outra parte na ortografia do Governo Provisório. A maioria, porém, não sabe ler nem escrever. […] as letras são a sombra dos factos, e lemos mais na leitura do que esperávamos.[…] Porque razão, porém, está a Nação assim dividida contra si mesma? A razão é fácil de ver […] não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos. […]
Há só três bases de governo — a força, a autoridade e a opinião. […] sem força não se pode governar, sem opinião não se pode durar, sem autoridade não se pode obter opinião. […]»

Fernando Pessoa in O INTERREGNO

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