Os
hábitos [qualquer que seja a perspectiva ou a intenção com que são apreciados]
não são a expressão do todo mas expressam parte considerável da realidade. Nos
dias que correm, cada vez mais, e por absoluta necessidade, todas estas propensões, tendências colectivas, etc… que aqui vou fixar nos «movimentos pendulares quotidianos» têm [ou deviam ter]
uma «avaliação métrica». Se já a obtiveram [ainda bem], desconheço; se não
[pena], deviam ter tido. Não se interprete nisto apelo à imposição de qualquer
espécie de tirania social dos números quanto mais não seja porque se a retórica
é uma arte de persuasão não será difícil defender que, no nosso meio, a matemática é exactamente a
antítese. E não é preciso rebuscar muito para credibilizar o que afirmo.
Tenho
justificadas dúvidas em crer que, passadas as agruras da crise, alguma coisa de
substancial mude efectivamente e mais ainda se atender a que uma das ladaínhas
que faz, impante, o seu percurso [e se incrusta] é a de que estamos a ser alvo de
uma subtil acção punitiva por parte dos nossos parceiros europeus.
Se
alguém conscientemente se toma por vítima das circunsctâncias, e da maldade dos
outros, não vislumbro como possa mais tarde tomar-se por outra coisa senão como
alguém a que, por fim, foi feita justiça. Mais ou menos o tipo que, coitadinho, aos 70 anos de idade ficou orfão. Tenho por certo que reconhecer erros
próprios é que nunca reconhecerá.
No
que nos respeita é isso que explica parte das razões por que andamos todos a
apontar as culpas do(s) vizinho(s) e poucos ou ninguém faz mea culpa.
Perante
isto o que temos feito tem sido sempre o de ajustar a fasquia ao nosso caso
leia-se baixar a fasquia; fazer o que há a fazer por forma a não incomodar /não
“traumatizar” as camadas sociais que são o garante e o sustento do regime.
Nugroko
Notususanto foi ministro da educação da Indonésia. Faleceu cedo e ficou
conhecido pelo seguinte:
levou
a cabo uma importante reforma do sistema educativo indonésio tendo para isso
estabelecido um teste nacional para conclusão do ensino secundário. Foi um
desastre: quase todos os candidatos reprovaram no teste. Uma calamidade.
Que
foi feito? decretou que os resultados dos testes deviam ser «normalizados» isto
é, ajustados à curva normal de Gauss. Feito isso, o que aconteceu? quase todos
os candidatos foram aprovados no teste. Bem… o resultado foi, apesar de tudo,
uma outra calamidade, diferida, e bem mais pesada do que primeira.
Quem conhecer o país e dele se tenha afastado por um tempo considerável basta, por exemplo, apreciar a frequência, o número e as horas a que acontecem os “estrangulamentos”/engarrafamentos nos três grandes acessos à cidade de Lisboa [entrada norte – auto-estrada Lisboa/Porto - 2ª circular; Lisboa/Cascais – A5; marginal Lisboa/Cascais] constatar que [com malha grossa] tudo acontece, agora, da mesma forma que acontecia há quatro ou cinco anos atrás e saber explicar
1 – quem são, onde e em que trabalham a maioria
das pessoas que vai dentro dos automóveis;
2 – a que horas deveriam
acontecer esses estrangulamentos por forma a que cada um se apresentasse nos
respectivos serviços à hora certa;
3 - quantos milhões de horas remuneradas mas não
trabalhadas*
por ali ficam no fim de cada ano civil;
4 – quantas toneladas de
combustível por ano é desperdiçado sem qualquer proveito;
…
pode
não explicar tudo, mas é suficiente até porque os demais, são os que se
locomovem nos transportes públicos e como é evidente, esses, que são em termos
sociológicos e em termos profissionais os elos fracos da cadeia, têm de suprir tais
constrangimentos motu próprio ou seja,
se assim não dá levantam-se mais cedo e, espera por espera, esperam no local de
trabalho.
Por fim, subsiste no meu espírito uma outra dúvida: trata-se de hábitos ou de costumes? Se são hábitos, melhor; se são costumes, tanto pior.
* não me venham com a conversa de que o que não é feito de manhã, é feito depois ao longo do dia e fora de horas porque, isso, é mentira (presumindo ser efectivo e ponderável o corte no maná das horas extraordinárias)
